Maria Zilda sobre lives ‘sinceronas’: “Não há censura. Só não falo de política e doença”

Lucas Pasin
·8 minuto de leitura
Maria Zilda Bethlem faz sucesso com suas lives
Maria Zilda Bethlem faz sucesso com suas lives (Foto: Reprodução/Instagram)

Dentre as mais variadas lives que aconteceram em 2020 por conta da quarentena, a atriz Maria Zilda Bethlem, de 67 anos, ganhou seu destaque ao bater papo com outros atores e figuras que marcaram época no cinema ou televisão. Chamada de ‘metralhadora de verdades’ e revelando muitos bastidores da TV Globo, ela conversou com o Yahoo! sobre o sucesso de suas transmissões e contou que a internet foi uma grande aliada em sua vida para se ajudar e ajudar o público a enfrentar a pandemia de Covid-19.

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Maria Zilda explica que as lives começaram após receber tristes mensagens de seus seguidores, inclusive mensagens de suicídio. “Todo mundo pensava que a pandemia seria algo passageiro, de curto prazo. No início da quarentena eu fiquei arrumando minha casa, armários, fazendo doações de roupas, essas coisas. Mas depois comecei a receber mensagens nas redes sociais de pessoas desesperadas, pessoas que diziam ter vontade de se matar e muito deprimidas. Aí veio a minha ideia de fazer a ‘live da alegria’, onde convido colegas de profissão e falamos de tudo. Não há censura, só não falamos de política ou doença. Contamos histórias da carreira, gafes que cometemos e coisas que geram alegria e conforto para as pessoas”, explica a atriz.

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A veterana da TV até acompanha algumas repercussões de suas lives, mas confessa perder a paciência quando vê algumas reportagens: “Quando começa a repetir a mesma coisa não me interesso mais. Vejo alguns títulos com puro sensacionalismo apenas para ganhar ‘like’”.

Sobre o apelido ‘metralhadora de verdades’, que ganhou nas redes sociais por conta das lives, afirma ser "muito autêntica”. "Sempre disse o que pensava e é a minha forma de viver. Sou muito franca, mas as coisas que eu digo não são mentiras. Não minto, não invento fofoca, não ofendo ninguém. Agora, há coisas que quando me perguntam eu respondo mesmo.”

Ainda na entrevista completa, Maria Zilda fala sobre uma possível volta para a televisão e comenta sobre o ‘padrão de beleza’ imposto socialmente. Ela, que já falou sobre ‘teste do sofá’ em suas lives, também avalia como a questão de assédio é tratada na televisão e compara como era sua época, relembrando um caso que considerou suspeito de um diretor.

Leia a entrevista completa com Maria Zilda Bethlem:

Yahoo! - Como surgiu a ideia das lives na quarentena?

Maria Zilda - A internet foi uma grande aliada neste período. Quando começou a pandemia pensávamos que seria algo passageiro, de curto prazo. Comecei a arrumar minha casa, arrumar armários, fazer doações de coisas que eu não usava. Mas nesse período eu comecei a receber muitas mensagens por redes sociais de pessoas muito desesperadas, pessoas que diziam que pensavam em se suicidar, estavam muito deprimidas. Eram mensagens muito tristes. Pensei o que poderia fazer por essas pessoas e me veio a ideia de fazer a ‘live da alegria’, uma live onde a gente não falaria em política ou em doença. Uma live onde pessoas contariam histórias de sua carreira, gafes que cometeram, enfim, coisas que geram alegria e conforto para as pessoas. Minha live não tem censura. Só evito política e doença.

Y!- Você acompanha a repercussão de suas lives?

MZ - Acompanho sim, não com tanta frequência porque as repercussões são muito repetitivas. Quando começo a ver algo repetido muitas vezes aí não me interesso mais. Vejo alguns títulos com puro sensacionalismo apenas para ganhar ‘like’

Y! - Ao que se deve o sucesso das suas lives?

MZ - O sucesso se deve ao fato de ter sido uma coisa feita com amor. Nunca pensei em fazer sucesso, a minha vontade era gerar alegria para as pessoas.

Y! - As lives te renderam o apelido de ‘Metralhadora da Verdade’. Considera isso positivo?

MZ - Sou uma pessoa muito autêntica, sempre fui. Sempre disse o que pensava e é a minha forma de viver. Sou muito franca. Mas as coisas que eu digo não são mentiras. Não minto, não invento fofoca, não ofendo ninguém. Agora, há coisas que quando me perguntam eu respondo.

Y! - Em uma das lives você falou que não gostou de fazer ‘Êta Mundo Bom’. Voltaria a atuar?

MZ - Nunca disse que eu não voltaria a atuar. O que eu disse é que eu tinha feito durante a minha vida inteira, desde 1975, mais de 30 novelas, e que a gente não veio ao mundo para fazer uma coisa só. Desde que terminou ‘Êta Mundo Bom’ em 2016 eu me dediquei a fazer séries. Fiz duas séries, ‘Pico da Neblina’ e ‘Chuteira Preta’, fiz uma participação no filme e me dediquei a um livro, que publiquei no fim do ano passado, ‘A Caçadora de Amor’. Um livro de contos e histórias da minha vida pessoal e profissional. Me diverti com o livro, é leve, com as minhas experiências.

Maria Zilda quer R$ 1 milhão do Instagram (TV Globo / Divulgação)
Maria Zilda (TV Globo / Divulgação)

Y! - E em qual situação você voltaria para uma novela hoje?

MZ - Gosto de trabalhar, gosto do meu ofício de atriz. Ficar sem trabalhar é uma coisa que me deixa muito triste. Então, eu jamais negaria um trabalho que me desse alegria e prazer. Agora, eu acho que o prazer é fundamental para que você possa fazer um bom trabalho.

Y! - Nas suas lives não ouvimos falar ainda sobre ‘cobranças pelo corpo perfeito na TV’. Você sofreu isso?

MZ – Nunca passei por essa cobrança. Antigamente não havia esse excesso de vaidade. Hoje as mulheres estão fazendo retoques, plásticas e botox com 30 anos de idade. As pessoas, antigamente, pensavam em plástica aos 60.

Conheço várias pessoas, muito jovens, mexendo no rosto de uma forma até que eu considero brutal. São pessoas bonitas e que mexem tanto no rosto que ficam deformadas. Você vê uma foto antes e depois e parece outra pessoa. Desnecessariamente. São pessoas bonitas. Acho que é uma coisa meio de moda, sabe?

Y! - Você já pensou em fazer cirurgias plásticas?

MZ – Não posso, porque não posso tomar anestesia, então não faria mesmo que quisesse. E depois tem uma outra coisa. Na minha idade, depois de tudo que eu já fiz, eu quero agora fazer uma avó, uma mãe mais velha. Quero fazer personagens que eu ainda não fiz e que tenham a ver com meu rosto. Parto do princípio que as marcas que temos no rosto são exatamente a nossa história. Cada marca que temos no rosto foi um sorriso que a gente deu, uma tristeza que passamos. Não quero tirar a minha história de mim e nem do meu rosto.

Y! - Outro assunto que já vimos nas suas lives é sobre o ‘teste do sofá’. Recentemente temos ouvido muito sobre assédio, ainda mais depois do caso de Marcius Melhem. Na sua época na TV já se falava de assédio?

MZ – Nunca tive nenhuma experiência de assédio na TV Globo.

Teve apenas um diretor que me convidou para jantar na casa dele. Eu, por intuição ou proteção do meu anjo da guarda, não aceitei. E pronto. Ele nunca mais me convidou para mais nada. Não houve insistência, nada. É claro que nunca mais me convidou para fazer nenhum trabalho também. Mas não tem problema, tinham muitos diretores, esse não fazia a menor falta.

Y! - Falar de assédio é algo recente na TV então?

MZ – Sim, é mais recente. Tivemos antes da Dani Calabresa o caso do Zé Mayer. Foi marcante também, mas acho que foi muito mais suave do que o do Marcius Melhem. Mas acho que a TV Globo abafou bastante, defendeu bastante o Marcius Melhem. Isso é uma coisa que só é ruim para a TV Globo, né? Tive o privilégio de trabalhar numa TV que era dirigida por Bonifácio, o Boni. Era uma televisão séria, com grandes autores, diretores, atores. Novelas tinham apenas 30 atores. Então os autores podiam escrever bem e bastante para esses atores. Agora as novelas têm 150 atores, tudo meio que se perdeu. Não reconheço mais a TV Globo. Não sei onde foi que essa mudança toda aconteceu.

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Maria Zilda (Foto: Reprodução/TV Globo)

Y! - Por falar na TV, como você vê o futuro dela com essa pandemia? Como avalia o fato dos atores estarem gravando neste momento?

MZ – Como uma pessoa formada em economia, além de ter vivido trinta e tantos anos na TV Globo, o que eu penso é que a Globo, como empresa, não pode parar. É uma fábrica. Eles estão tentando diversos protocolos, de diversas formas, para continuar a fabricar produtos. Mas, particularmente, eu acho imprudente. Muitos atores aí estão com Covid-19. Com todo o protocolo, você colocar 30 pessoas dentro de um estúdio com ar-condicionado, é como num voo de avião. O ar-condicionado é um núcleo de bactérias. Não dá para deixar elas ali fechadas. Isso é um risco.

Y! - O momento agora é de se cuidar, certo?

MZ – Sim, o fato é que precisamos pensar na gente, nas pessoas que a gente ama. Se cuidar. Não tem essa de ‘vou ver a mamãe’, ‘vou pegar um avião’, ‘vou gravar’. Não existe. Existe uma coisa agora que é ficar dentro de casa, se isolar, porque essa segunda onda está sendo muito brava. E agora vem o Natal, Réveillon, e eu acho que o certo seria a gente já ter começado na semana passada um lockdown sério, até o Natal. Cerca de 20 dias, todo mundo em casa, fechar tudo, para que tivesse uma diminuição dessa pandemia, para melhorar a vida de todo mundo, desafogar os hospitais.