Margaret Atwood satiriza distopias em 'O Coração É o Último a Morrer'

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(FOLHAPRESS) - A imperatriz de todas as distopias está de volta. Quando o objetivo é criar narrativas que combinem avanço tecnológico e colapso social, Margaret Atwood, 82, reina quase absoluta. "O Coração É o Último a Morrer", romance da autora que está chegando agora ao Brasil, mostra que a imaginação dela continua ferina, apesar da repetição de alguns elementos de suas obras anteriores.

Dos cenários pós-apocalípticos esboçados até hoje pela escritora canadense, o descrito no livro talvez seja o mais pé no chão, ainda que esteja longe de ser reconfortante. Em algum momento do século 21, uma recessão gigantesca se abate sobre os EUA --e talvez sobre o resto do mundo--, fazendo com que metade da população fique sem emprego na costa leste. Quem não tem dinheiro suficiente para fugir rumo à Califórnia e montar uma empresa de tecnologia por lá se vira como pode, "morando" dentro de carros em estacionamentos, fazendo bicos, saqueando as lojas que sobraram --ou outros carros.

Anúncios de TV, no entanto, parecem trazer um lampejo de esperança. "Lembra-se de como era a sua vida? Antes do mundo confiável que conhecíamos ser destruído?", diz a propaganda. "No Projeto Positron, na cidade de Consilience, as coisas podem ser assim novamente. Oferecemos não apenas pleno emprego, mas também proteção contra os elementos perigosos que afligem tantos nesse momento."

Charmaine e Stan, um casal jovem forçado a transformar seu carro em barraco, resolve apostar nessa possibilidade aparentemente milagrosa. Admitidos ao processo de seleção, eles descobrem que "Consilience" na verdade é uma fusão de "condenação" e "resiliência" -"condenação" no sentido jurídico mesmo.

Acontece que os habitantes da cidade planejada passam metade do tempo na cadeia e metade do tempo fora dela, dividindo sua casa com outros moradores, os quais ficam na residência enquanto eles estão na prisão e vice-versa.

Consilience, dizem seus idealizadores, é quase autossuficiente no que diz respeito à produção de alimentos (criando galinhas, porcos e vacas, plantando etc.) e conta com uma pequena produção manufatureira para "exportação". Ninguém passa fome, todo mundo tem o que vestir e casas decentes onde morar -e ninguém sai. Nunca mais -se você topou morar na comunidade, é ali que vai passar o resto dos seus dias.

Sem a menor perspectiva no mundo fora da cidade planejada, Charmaine e Stan topam, e é lógico que um acordo como aquele, bom demais para ser verdade, revela-se apenas a superfície de algo que, no fundo, é bem mais sinistro.

Tragicomicamente sinistro, para ser exato. Sim, não há dúvida de que o romance reelabora algumas das obsessões distópicas de Atwood, como a busca pelo controle da sexualidade feminina ou a arrogância prometeica da biotecnologia --temas centrais de "O Conto da Aia" e da trilogia "MaddAddão", respectivamente.

Às vezes, a impressão do leitor é que o casal de protagonistas habita um prólogo ou uma realidade alternativa dos livros anteriores. Mas o que era tragédia e ironia mordaz nos outros romances se transforma em farsa, quase escracho, em "O Coração É o Último a Morrer".

A habilidade com que a autora produz esse efeito depende muito dos detalhes esdrúxulos do cenário --como a temática anos 1950 que os criadores de Consilience imprimiram à cidade, incluindo o fato de que só é possível dirigir lambretas e acessar filmes e músicas dessa década no loca. A desculpa é que essa teria sido a década na qual a porcentagem de americanos que se sentiam satisfeitos com a própria vida atingiu recordes históricos.

Há também a sucessão de coincidências, encontros e desencontros do mesmo pequeno elenco de personagens, que poderia ser confundida com simples falta de verossimilhança se não ficasse claro que a intenção de Atwood é justamente jogar com o absurdo e o ridículo. Ao menos à primeira vista, as personalidades de Stan e Charmaine, tipos meio tapados e com dificuldade para refletir sobre as implicações do que acontece com eles, confirmam esse lado farsesco.

O curioso é que, usando essas peças, a escritora produziu uma trama rocambolesca, de leitura viciante, sem sacrificar em nada sua crítica mordaz às tendências autodestrutivas da vida que andamos levando neste século.

A flecha de Atwood acerta esse alvo de modo particularmente claro quando o leitor se dá conta da pouca diferença que existe entre a picaretagem desumana dos criadores de Projeto Positron e as coisas que costumam pregar os bilionários das empresas de tecnologia. Ninguém pode dizer que ela não avisou.

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O CORAÇÃO É O ÚLTIMO A MORRER

Preço: R$ 69,90 (424 págs.); R$ 34,90 (ebook)

Autor: Margaret Atwood

Editora: Rocco

Tradução: Geni Hirata

Avaliação: Muito bom

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