Marcelo Rubens Paiva busca o macho tóxico arrependido em 'Do Começo ao Fim'

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Leitor é voyeur." Essa máxima é dita a certa altura pelo narrador de "Do Começo ao Fim", o novo romance de Marcelo Rubens Paiva, escritor que sabe desfrutar da curiosidade das pessoas pelos relacionamentos, DRs e transas alheios --mas tampouco tem pudor para falar de si, do pai morto pela ditadura, do Alzheimer da mãe ou de suas angústias íntimas.

Afinal, foi com "Feliz Ano Velho", de 40 anos atrás, que Paiva, hoje com 63 anos, expôs o acidente que o deixou tetraplégico ao mesmo tempo em que batia uma chapa da juventude dos anos 1970 com drogas, rock e bom humor. Seu nome ficou marcado pelo "romance geracional", ainda que de lá para cá muita água tenha rolado.

Vale avisar, porém, que a primeira edição, de 1982, época em que o autor ainda era um estudante da USP, é diferente da republicada agora --trocentas edições depois, somando 1,2 milhão de exemplares vendidos. Sempre que o livro vai para o prelo, seu autor dá um jeito de ajustar um trecho aqui ou ali.

"Não estou preocupado com a imagem que eu vou deixar [para o futuro], mas com o leitor de hoje mesmo", afirma o autor, que já alterou trechos de textos antigos para dar um tom mais politicamente correto e não ser tido como machista ou racista.

Como exemplo, o "Feliz Ano Velho" de 2015 não cita mais o motivo pelo qual ele apelidou um enfermeiro de Ding Dong. "Era o nome do percussionista do meu conjunto, só que era branco. Acho que foi uma forma carinhosa de chamar um crioulo de King Kong sem racismo", explica ele num trecho ainda presente numa edição de 2006.

Durante as revisões ele até matutou se deveria dar um novo nome para Neguinho --um homem negro que trabalhava para ele, citado en passant no livro. "Esse apelido dele surgiu na [escola de samba] Vai-Vai", justifica o autor sobre a alcunha não alterada.

O arrependimento também move o protagonista de "Do Começo ao Fim". Aqui, Paiva vai atrás do macho tóxico que ele percebeu existir desde sempre, mas que só começou a ser reconhecido na mídia e nos círculos sociais após o debate à luz do MeToo.

Mas, em vez de buscar um arquétipo, ele preferiu se esbaldar na autoficção para rever diversas relações suas à luz desses aprendizados. "Como é bom ser mais velho! Sofremos muito dos 18 até os 30", acredita o autor. "Depois disso que você sabe respeitar os limites do outro, como alguns problemas podem ser superados, ou até quais não têm jeito --aí você cai fora."

Na trama, temos um narrador de meia-idade que reencontra Lívia, a grande paixão da juventude, décadas depois do término. Eles se amassavam loucamente quando jovens, mas tiveram alguns conflitos --em especial, na cama, já que os dois eram virgens quando se conheceram.

"Eles acabam tendo de começar começando. Ninguém ensinava nada, especialmente naquela geração [de 1980]. Não tinha internet, YouTube ou sexólogos", diz.

Depois de ter pisado na bola, o narrador --identificado apenas como "mocinho" ao longo da narrativa,-- seguiu a vida. Escreveu livros, fez sucesso, estudou em Stanford, foi amigo do filósofo René Girard, casou, separou, transou com alunas mais jovens, virou colunista de jornal etc.

No entanto, a culpa vem a cavalo --"será que ele não estava sendo tóxico com a Lívia?", pergunta o autor, ao mesmo tempo em que entende a imaturidade do seus personagens e, de certa forma, a sua também --já que muitos momentos refletem a sua trajetória.

"Esse movimento da autoficção é fascinante. Você lê o livro e não sabe se aquilo aconteceu mesmo", diz o autor sobre esse gênero que ronda a literatura há uns bons anos.

Há quem diga até que o termo surgiu nos anos 1970, mas que explodiu recentemente por aqui com exemplos polêmicos como "Divórcio", de Ricardo Lísias, ou os romances de Marcelo Mirisola --que Paiva afirma adorar. "Mas até lendo Machado de Assis eu penso: 'esse velhinho, que foi casado por 40 anos com a mesma mulher, pensou em todas essas sacanagens?'", brinca.

O livro, aliás, não poupa cenas de sexo pulsantes --especialmente quando os personagens se reencontram, já maduros. "A vida sexual começa aos 40 anos", protesta o autor. "Quem queria ter filho teve, já fez sua carreira, já divorciou e pronto. Agora tá livre para relaxar na cama".

Ainda assim, o autor que hoje namora uma mulher que encontrou no app de relacionamentos Bumble teve que mentir sua idade para 45 anos, com medo dos estereótipos relacionados a ser idoso.

Mas se o leitor é voyeur, a autoficção não é só uma forma de usar a vida íntima dos escritores como fetiche, agora que eles são vigiados nas redes sociais? "Pode ser que tenha, sim, um desejo da autoficção junto à vontade de autoexposição", reflete.

Mas Paiva também defende o ficcional como uma forma de falar de angústias da vida por outros caminhos, e cita "No Retrovisor", peça na qual ele canalizou seus anseios como uma pessoa com deficiência motora, mas na pele de um personagem cego.

Em "Do Começo ao Fim", ele aproveita ainda para pingar algumas provocações. Quando uma produtora decide adaptar crônicas do "mocinho" para uma série, há uma pressão interna para trazer fazer uma protagonista negra e bissexual. "Podia ser qualquer pessoa, sugeri, até cadeirante", provoca o narrador. "Ou uma anã."

Ao mesmo tempo, o narrador crava que, hoje, "pagam-se dívidas históricas em prêmios. Por vezes, é uma causa sendo premiada, não um livro". "Acho isso ótimo", afirma Paiva.

Mesmo com esses avanços, ele acha que o momento no Brasil não é de ousadias. Apesar de acreditar que o bolsonarismo esteja em decadência, ele mesmo diz ser mais cauteloso hoje.

Durante a pandemia, ele elaborou um livro com seu filho Joaquim, de 8 anos, narrado todo por meio de flechas coloridas, representando os relacionamentos da vida. A horas tantas, uma delas encontra outra da mesma cor, numa relação homoafetiva, e a obra culmina num arco-íris.

"Nenhuma editora vai querer isso", ponderou Paiva, com medo das reclamações dos pais nas escolas. "A censura e a autocensura são as piores coisas que podem acontecer em qualquer momento da história".