Marcelo Crivella ignora a realidade da própria cidade

O prefeito Marcelo Crivella. Foto: Mauro Pimentel: AFP via Getty Images

Em um mesmo fim de semana, quatro pessoas morreram em decorrência das fortes chuvas que atingem o Rio de Janeiro. Para o prefeito da cidade, Marcelo Crivella, a culpa é das próprias vítimas.

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"Todas as encostas lá são perigosas, mas aonde descem as águas, predominantemente chamado talvegues, e as pessoas gostam de morar ali perto porque gastam menos tubo para colocar cocô e xixi e ficar livre daquilo, essas áreas são muito perigosas", disse Crivella.

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Em ano eleitoral, o prefeito resolveu testar os limites dos estragos provocados por uma declaração como essa.  

Ele até tentou se corrigir, mas era tarde. Recebeu como resposta uma bola de lama arremessada por um morador após a declaração.

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A fala não demonstra só insensibilidade em relação às vítimas. Mostra desconhecimento também da realidade da cidade que governa.

Se não quiser correr riscos conversando com os próprios governados para saber como é a vida nessas encostas, ele poderia começar ao menos com a leitura de “Ambientes e territórios: uma introdução à ecologia política”, do geógrafo e professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Marcelo Lopes de Souza. Um dos maiores especialistas em ecologia política urbana do país, Lopes de Souza concedeu entrevista recente ao Yahoo Notícias e falou a respeito. 

“Estamos lidando com alguma coisa muito antiga e conhecida nas grandes cidades: as inundações, os alagamentos e os escorregamentos. Isso costuma ter uma relação muito clara, forte e direta, com o padrão de segregação nas cidades brasileiras. Populações mais pobres são forçadas a ocupar as terras marginais, que historicamente tinham pouco ou nenhum valor, em encostas, beira de rios e canais. São áreas da periferia, como favelas e loteamentos clandestino. No caso do Rio, a maior parte da população favelada mora no núcleo metropolitano, e não na periferia. Este é o padrão de segregação do Brasil e da América Latina”, explicou.

Segundo o professor, muitas dessas áreas são áreas de riscos geotécnicos, como riscos de escorregamentos. “E a população que lá mora não faz propriamente uma ‘escolha’, pois o leque de oportunidades de moradia que se apresenta a elas é, em função da renda, extremamente restrito. Elas são empurradas, historicamente, para essas áreas. De tempos em tempos, vemos exemplos de eventos cada vez mais extremos, de chuvas torrenciais, em regiões de clima tropical úmido. E o que acontece? As bocas de lobo estão entupidas, a limpeza de galerias não é feita. Isso acaba afetando de maneira desproporcional a população trabalhadora pobre que vive em assentamentos informais que sejam, ao mesmo tempo, áreas residenciais em situações de risco. Existe, claro, uma classe média e alta que também vive em encostas, por exemplo em alguns bairros do Rio, mas, historicamente, o Estado realiza obras caríssimas para garantir a segurança de algumas dúzias de mansões e condomínios de luxo. Quando lidamos com uma parcela majoritária da população, pobre e segregada, que não vai receber a mesma prioridade, percebe-se facilmente a razão de essa população se tornar a principal vítima, a principal atingida”.

Na entrevista, Lopes criticou o discurso dos que apontam para as populações empobrecidas as culpa pelas tragédias que são antes sociais do que naturais. “Isso alimenta discursos demofóbicos de quem aponta para populações empobrecidas e diz: ‘olha só essa gente ignorante, desmatando mais uma encosta para erguer barracos de favela’. 

O especialista lembrou ainda que, em localidades como as lagoas da Barra da Tijuca, há quem atribua a culpa dos problemas ambientais à ocupação da Vila Autódromo (que foi removida por causa das Olimpíadas), deixando na sombra ou subestimando a responsabilidade pela ocupação de classe média. Nos comentários de portais dedicados ao tema, afirmou ele, “é assustador ver o tom racista e demofóbico ali postados”. “O esgoto ideológico vem à tona: é gente pedindo para tirar a ‘pretaiada’ das encostas e da beira dos rios e lagoas, dizendo que tem que ‘passar o rodo’, e coisas desse tipo. São comentários ecofascistas que se explicam à luz de um imaginário em que os elementos e valores neofascistas estão cada vez mais presentes e, principalmente, cada vez menos envergonhados de serem mostrados à luz do dia. Notemos, quanto a isso, que o ‘fascista’ não é apenas um ou outro ‘monstro’, um personagem mais ou menos excepcional. O mal pode ser muito banal, como mostrou Hannah Arendt a propósito do caso do ex-nazista Adolf Eichmann, julgado e executado em Israel no início da década de 60”.