Marcello Quintanilha dialoga com Beckett e Dostoiévski em HQ com rumos trágicos

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RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - A representação fidedigna da realidade social e as tramas invariavelmente trágicas das histórias em quadrinhos de Marcello Quintanilha tornaram comuns as comparações entre as obras dele e a temática e a estética do cinema neorrealista italiano.

"Escuta, Formosa Márcia", a mais nova obra do autor, é ambientada em uma favela do Rio de Janeiro e voltada ao impacto da corrupção dos poderes públicos na vida do cidadão comum, mas se distancia dos ares documentais de trabalhos prévios do artista. A começar pelas cores.

Quintanilha desenvolveu para as 128 páginas de sua nova HQ uma paleta composta de apenas 28 cores, nenhuma delas equivalente às tonalidades reais dos elementos ilustrados por ele.

Sua intenção foi espelhar "a progressiva desconexão com a realidade tão característica dos dias atuais", diz ele. "A linha preta é mínima, discreta, quase uma concessão, permitindo que as cores explodam nos enquadramentos, cores que traduzem o estado de ânimo daqueles que são capazes de gargalhar de alegria, mas nunca sorrir de verdadeira felicidade."

A protagonista de "Escuta, Formosa Márcia" é uma enfermeira que concilia sua rotina de trabalho num hospital público com bicos como cuidadora de idosos num bairro rico da cidade.

Em casa, Márcia administra seu relacionamento pouco inspirado com o peão de obras Aluísio e as tensões crescentes com a filha Jaqueline. As interações entre o trio, a proximidade da filha com traficantes, a relação entre os traficantes e a polícia e o empenho da mãe em afastar a filha de criminosos ditam os rumos trágicos do quadrinho.

O título da obra vem de uma modinha de salão, gênero característico do Brasil imperial, presente num disco encontrado por Márcia no apartamento de uma idosa para a qual ela presta serviço. O contato com a canção com seu nome faz a enfermeira questionar sua realidade.

Quintanilha assume o impacto do neorrealismo italiano em títulos como "Tungstênio", lançado em 2014 e adaptado para o cinema por Heitor Dhalia em 2018, "Talco de Vidro", de 2015, e "Luzes de Niterói", de 2018.

Ele diz se interessar principalmente pela honestidade das produções italianas em seguida ao cerceamento de ideias promovido pelo regime fascista de Benito Mussolini. No entanto, ele aponta o teatro do absurdo e a obra do dramaturgo irlandês Samuel Beckett como a "chave do páthos" de "Escuta, Formosa Márcia".

"Sou fascinado pelo teatro do absurdo", diz o quadrinista. "Por sua contundência em questionar o propósito da existência em si mesmo, fruto do trauma advindo da Segunda Guerra Mundial; por seu empenho em esvaziar as palavras de seu significado dicionarizado e mesmo os personagens de sua identidade enquanto indivíduos, além de subverter a própria estrutura da ficção como relato. Nada mais concomitante com o século 21."

Ele ainda lembra "Os Demônios", do escritor russo Fiódor Dostoiévski, e "A Juventude de Corto Maltese", do quadrinista italiano Hugo Pratt, como outras de suas principais influências. O primeiro por sua ambientação -"nos dá a medida da efervescência política que campeava na Rússia da segunda metade do século 19"- e o segundo pela dinâmica entre o pirata Corto Maltese e seu antagonista Rasputin, além da arte de Pratt.

"Até hoje esse álbum é uma das minhas principais referências, pela concisão no desdobramento da história, pela mecânica que conduz as ações e pelo despojamento lírico do traço", afirma sobre a obra do quadrinista italiano morto em 1995.

Mesmo com as marcadas diferenças entre "Escuta, Formosa Márcia" e os trabalhos prévios de Quintanilha, ele segue investindo em elementos já característicos de sua produção.

Seus quadros, por exemplo, seguem irregulares e desnivelados, enfatizando sua proposta de cada quadro como "unidade narrativa" e "marco rítmico da leitura".

A crueza na construção e na jornada de seus personagens também se mantém, mas ele expressa suas restrições às celebrações constantes dos seus quadrinhos por uma suposta brasilidade em suas representações.

"Não me interessa apresentar uma ideia de brasileiro, definir uma forma de ser que corresponda ao que se entende por brasileiro. Acho que por isso minhas histórias têm sido tão bem recebidas fora do Brasil ao longo dos anos, porque me seduz tratar do ser humano em sua natureza mais crua, independentemente de um imperativo geográfico."

ESCUTA, FORMOSA MÁRCIA

Preço: R$ 99,90 (128 págs.)

Autor: Marcello Quintanilha

Editora: Veneta

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