Marcas estrangeiras querem popularizar audiolivros no Brasil

CAROLINA MORAES

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A chegada de grandes empresas de audiolivros promete acelerar o crescimento do setor no Brasil.

A companhia sueca Storytel começou as operações no país oficialmente neste mês, em um esquema de assinatura similar ao da Netflix, com uma mensalidade de R$ 27,90.

Presente em 18 países, a empresa existe desde 2005 na Suécia, onde comanda 40% do mercado de streaming de áudio. Em 2018, teve um crescimento de 37% na receita.

Os assinantes do serviço —que já somam 1 milhão de pessoas— têm acesso a mais de 300 mil títulos, entre audiobooks, podcasts, séries e canais de informação. Só em 2018, a Storytel produziu 5.000 conteúdos em 17 idiomas.

Entre os produtos exclusivos do catálogo brasileiro estão podcasts de personalidades como a Monja Coen e a astróloga Madama Brona.

“O áudio é para quando você está com a cabeça livre e o corpo ocupado”, afirma André Palme, gerente da Storytel no país. Por isso, diz ele, os conteúdos são mais acessados nos intervalos entre as tarefas diárias, como no deslocamento em transporte público.

A empresária Virginia Cruz, 33, começou a escutar audiolivros há um mês. “Como parte do meu trabalho é manual, escuto enquanto estou trabalhando e, principalmente, quando estou cozinhando ou dirigindo.” Em uma semana, escuta, em média, três livros.

Outra companhia sueca que já tem planos para operar no Brasil é a Word Audio, fundada em 2006. Carlo Carrenho, brasileiro que assumiu o desenvolvimento dos livros narrados brasileiros e de parcerias com editoras, diz que a empresa pretende lançar o serviço no país até o fim do ano.

Para crescer por aqui, ele aposta em títulos de autoajuda e não ficção, como os do escritor Laurentino Gomes, por ter uma leitura leve.

“Acho que é cedo, mas, se no mundo inteiro está crescendo, não tem porque no Brasil ser diferente”, diz Carrenho.

Nos Estados Unidos, a venda de audiolivros aumentou 24,5% em 2018 em relação ao ano anterior, segundo a Audio Publishers Association.

Além de marcas estrangeiras, há empresas brasileiras atuando nesse setor. A Ubook, por exemplo, se vende como o maior aplicativo de audiolivros por streaming da América Latina e existe desde 2014.

A novidade nacional é a Auti Books, uma parceria entre as editoras Intrínseca, Record e Sextante, lançada em junho. A empresa aposta no modelo de venda unitária dos livros e no catálogo, hoje com 200 títulos.

No primeiro bimestre de funcionamento, vendeu 30 mil livros narrados.

Algumas editoras investem em conteúdo próprio —e têm visto crescimento nas vendas. É o caso da Companhia das Letras, que começou a comercializar áudios em agosto de 2018. Desde então, conseguiu dobrar o faturamento.

Marina Pastore, gerente de projetos digitais do grupo, diz que não há canibalização de um formato pelo outro.

Além dos títulos mais clássicos e de autoajuda, a editora está produzindo áudios de obras contemporâneas narradas pelos próprios autores, caso do livro “Sol da Cabeça”, de Geovani Martins.

O próximo produto a ser lançado será “Estação Carandiru”, narrado pelo autor Drauzio Varella. Vai ao ar no dia 2 de outubro, data do massacre, que aconteceu em 1992.

Carrenho, da Word Audio, afirma que um dos pontos positivos do conteúdo em áudio é sua capacidade de chegar a não leitores. Por outro lado, complementa, “é óbvio que algumas pessoas deixem de ler livros físicos”.

A professora da faculdade de educação da USP (Universidade de São Paulo) Stela Piconez diz que é falso pensar que um podcast ou audiolivro pode substituir o papel.

Segundo ela, a leitura física permite um aprendizado mais profundo, e o ideal é integrar as várias tecnologias sem que uma tome o lugar da outra.