Maradona viveu entre 'tapas e beijos' com Grondona e chamou Havelange de ladrão

CARLOS PETROCILO E JOÃO GABRIEL
·5 minuto de leitura

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Uma das raras exceções no futebol, Maradona não era de ficar em cima do muro ante os mandos e desmandos da cartolagem. Se confabulou com o ditador cubano Fidel Castro, também mostrou o dedo médio para Julio Grondona, presidente da AFA (Associação de Futebol Argentino) entre 1979 e 2014, e azedou a sua relação com Pelé, quando o brasileiro se aproximou de João Havelange, então mandatário da Fifa. A discussão sobre o atleta poder ou não se manifestar sobre temas políticos era descabida para Maradona. No ano de 1986, o camisa 10 ganhou beijos e abraços de Don Julio -como o poderoso dirigente era chamado pelos argentinos- após a vitória sobre a Alemanha Ocidental na decisão da Copa do Mundo, no México. Vinte anos depois, chamou o cartola de mafioso. "Grondona é mafioso demais para tirá-lo da AFA", disse o ex-jogador em entrevista ao canal de televisão TyC Sports. "Quando é posto sob pressão, Grondona diz: 'Cuidado, não sou o presidente da AFA, sou o vice-presidente da Fifa'. Então ele ameaça a todos os argentinos", declarou, em novembro de 2006. Naquele momento, o cartola estava sendo acusado de corrupção. Segundo Andrés Ducatezeiler, ex-presidente do Independiente, o mandatário da entidade que comanda o futebol no país obrigou o clube a comprar um sistema de câmeras de monitoramento de público "de uma empresa que não foi licitada e era amiga" sua. A relação ganhou uma trégua em parte dos 19 meses em que Maradona foi técnico da seleção argentina. Mas a eliminação nas quartas de final da Copa do Mundo de 2010 colocou fim na paz entre eles. Após o resultado, Grondona queria a saída de sete integrantes da comissão técnica de Diego, o que causou um desgaste muito grande e culminou na não renovação de contrato. A forma como o ex-jogador foi desligado, contra a sua vontade, dinamitou qualquer esperança de novos beijos e abraços. No Mundial seguinte, sob o comando de Alejandro Sabella, a Argentina venceu o Irã por 1 a 0 em sua estreia na competição. Grondona, então, teria dito: "foi-se o pé-frio e ganhamos", segundo o Diário Olé. "Chamá-lo de pé-frio foi um absurdo. Eu já escrevi isso e vou repetir. Se Diego é pé-frio, eu quero ser pé-frio ao lado dele para sempre", disse o ex-zagueiro Oscar Ruggeri, campeão com o camisa 10 no México, em 1986, em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, em 2014. Quando o cartola morreu, no dia 30 de julho de 2014, Maradona postou uma foto em uma de suas redes sociais, dos tempos de jogador, e escreveu: "minhas condolências à família Grondona". Mesmo após a morte do cartola, Maradona seguiu com críticas e acusações. Ele afirmou que o ex-chefe da AFA teria negociado a derrota da Argentina para a Alemanha na final da Copa de 1990. Na ocasião, os alemães venceram por 1 a 0. A sua indisposição explícita com o chefe da AFA é incomum entre os atletas. No Brasil, por exemplo, o ex-volante Alemão, amigo e parceiro de Maradona no Napoli (ITA), foi exceção e pagou o preço ao criticar a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) por ter lucrado US$ 1 milhão da Pepsi na época, com o patrocínio para a seleção brasileira, sem oferecer qualquer recompensa aos jogadores. Na preparação para a Copa de 1990, em Teresópolis, a primeira com Ricardo Teixeira à frente da entidade que comanda o futebol brasileiro, o elenco da seleção tapou com esparadrapo o logotipo da marca de refrigerante em seus uniformes ao posarem para a foto oficial. Quando o Brasil foi eliminado do torneio pela Argentina de Maradona, Teixeira acusou Alemão de fazer corpo mole. "Esse não vestirá mais a camisa da seleção enquanto eu for presidente da CBF", disse o mandatário em entrevista ao jornal O Globo, em dezembro de 1990. Maradona também nutriu rivalidade com o brasileiro João Havelange, presidente da Fifa entre 1974 e 1998. Primeiro, criticou a organização da Copa do México, em 1986, que colocou jogos ao meio-dia para aumentar a audiência na Europa. Depois da final de 1990, recusou-se a apertar a mão do cartola e o chamou de ladrão por entender que o pênalti que deu a vitória por 1 a 0 para a Alemanha não tinha existido. No Mundial de 1994, disputado nos EUA, Maradona foi pego no exame antidoping pelo uso de efedrina e acusou o brasileiro de fazer um complô para tirá-lo da competição. Anos depois, Maradona afirmou: "A Fifa fez uma campanha contra mim quando assumi meu vício pela cocaína. A Fifa tem viciados em outras coisas", ele afirmou. "Havelange fez coisas bem piores que consumir drogas. Ele roubou milhares e milhares de dólares. E não tem vergonha disso", completou. O cartola, morto em 2016, era investigado por receber propinas e por fraudes na venda de direitos de transmissão, conforme mostram documentos da Justiça da Suíça. Curiosamente, em sua biografia, Joseph Blatter -que sucedeu Havelange na presidência da Fifa e era outro desafeto de Maradona- conta que Havelange tentou abafar o caso de doping em 1994. Segundo o relato, o brasileiro tentou propor justamente a Grondona que a questão fosse resolvida depois do Mundial. Embora tenha feito muito barulho ao entrar em conflitos com as principais cabeças do futebol mundial, o craque argentino não conseguiu mudar os rumos do mundo da bola fora dos gramados.