Marília Mendonça faz pontes com o brega em EP póstumo sem inéditas

*ARQUIVO* SÃO PAULO - SP - BRASIL, 24-11-2017, 00h00: MARILIA MENDONÇA.  A cantora de música sertaneja Marília Mendonça durante show na cidade de Bauru.  (Foto: Adriano Vizoni/Folhapress)
*ARQUIVO* SÃO PAULO - SP - BRASIL, 24-11-2017, 00h00: MARILIA MENDONÇA. A cantora de música sertaneja Marília Mendonça durante show na cidade de Bauru. (Foto: Adriano Vizoni/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um arranjo sofrido de sax introduz o novo EP de Marília Mendonça, expoente da música sertaneja que causou um rebuliço no gênero e morreu trágica e precocemente no ano passado, em um acidente de avião. Ela surge cantando "Te Amor Demais", hit de Leonardo de 2002, em versão arrastada e ainda mais romântica que a original. "É amor demais, tenho nem palavras para expressar", ela diz durante a performance.

A gravação, que abre o primeiro álbum póstumo da cantora, "Decretos Reais, Vol.1", foi retirada de uma live feita por Mendonça em maio do ano passado, assim como as outras três faixas do EP. A transmissão, chamada "Serenata", trouxe um repertório que mesclava músicas gravadas pela própria Mendonça e versões de canções de diversos estilos.

Até por isso surpreende que o lançamento do EP tenha causado uma instabilidade no Spotify, a plataforma de streaming mais consumida no Brasil, devido a alta procura dos fãs. Segundo um levantamento do G1, Mendonça deixou pelo menos 100 composições registradas, mas nenhuma delas está presente na nova obra, e é difícil saber quais dessas inéditas a artista chegou a gravar em estúdio.

"Decretos Reais, Vol.1", na verdade, não traz sequer performances inéditas, já que essas gravações puderam ser ouvidas na live no YouTube. Nem por isso, o EP chega sem apelo —mesmo sete meses depois de morrer, Mendonça tem sua obra ainda muito escutada país afora, com mais de 9 milhões de ouvintes mensais no Spotify.

Se não traz novidades, o EP destaca alguns dos aspectos que fizeram da cantora uma das mais queridas do país. Ela surge cantando ao vivo, sem grandes retoques em sua voz, mais crua e orgânica do que em seus lançamentos regulares.

Por se tratarem geralmente de obras não finalizadas, lançamentos póstumos costumam soar artificiais e robotizados, manipulados por produtores e engenheiros para esconder as marcas de imperfeição que, muitas vezes, são a razão dessas obras não terem sido lançadas pelo artista em vida. Não é o caso do primeiro volume de "Decretos Reais", que traz uma Mendonça humana como era conhecida pelo público.

Na voz de Mendonça, as versões soam mais despojadas, com uma banda guiada por bongôs e atabaques que ecoam a bachata —estilo latino que há alguns anos empresta elementos à música sertaneja— e arranjos de sax e teclado. Sem grandes requintes estilísticos, ela faz conexões com o brega do Nordeste e a música popular incrustada na trilha sonora do dia-a-dia dos interiores do país.

Originalmente, "Te Amo Demais" traz batidas eletrônicas e uma voz fina e dramática de Leonardo. Com Mendonça, a música soa arrastada e o sentimentalismo ganha vida com os vocais robustos da goiana. Ela canta "Te Amo, Que Mais Posso Dizer", versão em português de "More Than I Can Say" conhecida na voz de Ovelha, com versos que poderiam ser declamados por fãs à cantora, como "volte logo, não suporto esta distância de você".

Ela também canta "Não Era Pra Ser Assim", outra música do começo dos anos 2000, esta de Zezé di Camargo e Luciano, e um pout-pourri que une dois clássicos românticos —"Sendo Assim", de Genival Santos, e "Muito Estranho", de Dalto. O medley é pontuado por um sax rasgado e colorido por guitarras que vão dos solos cheios de eco às levadas de lambada.

Na live que originou o EP, Mendonça não se limita ao sertanejo, e canta de Xamã a Rick & Renner, de Milionário & José Rico a Tierry, passando por Calypso, Roberto Carlos e Jorge e Mateus. A cantora navegava por um espectro amplo e original de influências, e ainda que a obra póstuma destaque o lado romântico mais tradicional da Rainha da Sofrência, ela está presente em toda sua potência.

Lançado na véspera da data em que a cantora celebraria 27 anos de idade, e sem ineditismo, "Decretos Reais, Vol.1" abre a porteira para que a obra de Mendonça continue emergindo mesmo na ausência de sua protagonista. Não é um álbum que expande o entendimento em torno da cantora, mas a reafirma como uma das artistas que melhor soube decifrar o que significa sofrer por amor.

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