Maquiagem drag queen: roubamos e nomeamos como tendência, pode?

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Pablo Vittar e Glória Groove referências drag queens (Foto: Reprodução/Instagram@pablovittar/@gloriagroove)
Pablo Vittar e Glória Groove referências drag queens (Foto: Reprodução/Instagram@pablovittar/@gloriagroove)

Por Bárbara Canever

A cada temporada, o mundo da make elege as tendências do momento. Com as redes sociais e outros mecanismos de comunicação, isso passou a ser ditado também fora das passarelas. No decorrer dos últimos anos, estamos vendo a moda dos traços exagerados, glitters sem limite, cores intensas, e contornos, a fim de afinar o rosto (Alô, Kim Kardashian!).

Febre entre as apaixonadas por make, esses itens não são uma novidade para quem acompanha “RuPaul's Drag Race”, reality show em que as concorrentes precisam ser divas com muito glamour para ganhar o cobiçado título de Drag Queen Superstar.

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O que vimos agora nas estantes das principais lojas de cosméticos, incluindo os cílios longuíssimos, sobrancelhas cheias e arqueadas e lábios volumosos já são produtos carimbados no cotidiano das drag queens. Desta forma, essa "moda" mostra que os padrões de beleza andam se alinhando. “Maquiagem é maquiagem. Os truques, incluindo do mundo drag, são feitos para o teatro e cinema. Creio que com o tempo, vamos abrindo mão da maquiagem que não serve para a luz natural”, prevê o maquiador Max Weber.

Cultura desde a anti guidade

Não se sabe a origem exata da maquiagem drag, mas estima-se que vem lá da Grécia Antiga, quando os papéis femininos eram feitos por homens, já que mulheres eram proibidas de se apresentar. "O teatro talvez seja um lugar propício pra diversidade exatamente porque é um lugar permissivo, porque é exatamente um local de encontro com você mesmo em primeiro lugar, em primeira instância. Pra depois, se identificar enquanto indivíduo numa sociedade e começar a interferir nela", opinou Silverio Pereira no Estação Plural do Canal Brasil.

Até mesmo Shakespeare usava meninos mais novos para os papéis femininos, a sigla "Drag" vem daí, e do teatro Elizabethano chamado "dress as a girl". O exemplo pode ser visto no filme “Shakespeare Apaixonado”, que mostra homens no palco vestidos como mulheres. Antes mesmo do filme que deu o Oscar de Melhor Atriz para Gwyneth Paltrow, “Priscilla, a Rainha do Deserto”, lançado em 1994, fez escola ao contar a história das drag queens Anthony (Hugo Weaving) e Adam (Guy Pearce) e a transexual Bernadette (Terence Stamp), que são contratadas para realizar um show em Alice Springs, uma cidade remota localizada no deserto australiano. O impacto cultural foi tão grande que é tecnicamente impossível esquecer da música "I Will Survive", de Gloria Gaynor.

Maior aceitação?

Após a iniciação desta visibilidade, a estética da maquiagem foi começando a ser introduzida em diferentes locais além dos já ocupados. Atualmente, as drags seguem conquistando seus espaços, principalmente nas redes sociais, séries e na música. Ainda bem.

“Hoje em dia, a gente se depara com artistas em Full Drag, mesmo não sendo Drag Queens. Um bom rebocão, contornão, cílios gigantes… Quem não ama né? haha”, comenta Grag Queen, dona do hit "Bota Fé". “Estamos nos expressando a todo momento enquanto refletimos a nossa realidade. Sinto as pessoas cada vez mais livres e ousadas nas atitudes, looks e estilos de vida…”, comenta a cantora.

Já Max ressalta o poder da influência do visual dessas personagens icônicas, como Pabllo Vittar e Glória Groove. "Acredito que o público tem expandido a mente ao ser bombardeado com conteúdos online", diz.

Preconceito

De qualquer forma, ainda há preconceitos com esse universo, que é uma forma de expressão e de arte. Apesar de ligada à comunidade LGBTQIA+, algumas pessoas confundem gênero com o personagem. Um homem hétero pode se montar para fins artísticos e mulheres, gays ou não, também. De maneira simplificada, a drag queen é uma personagem criada para uma performance, é uma atuação e não a identidade 24 horas por dia daquela pessoa que a traz à vida.

“Acho que o maior ato desfavorável feito contra a estética drag é a padronização que acaba limitando muito a expressividade dos artistas. Infelizmente, na maioria das vezes, essa pressão vem de dentro da comunidade. É um papo que procuro nem dar mais palco, arte é sobre liberdade!”, opina Grag.

O maquiador afirma a grande vantagem dessa popularização: “O ganho de toda essa montagem, caracterização de personagens, quantidade de produtos e uso de técnicas na vida real, é o autoconhecimento".

Pode ou não copiar?

Já que as drags já consumiam esses truques, seria correto assumir que “roubar” esse visual seria um tipo de apropriação cultural? Grag Queen acredita que não. “As produções evoluíram muito com a tecnologia que temos hoje. Creio que a arte drag na mídia tenha mostrado esse caminho encorajando e declarando que todes podem ser extra ao construir sua própria estética”, finaliza ela, que adora um bom delineador e cílios postiços.

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