'The Many Saints of Newark' resgata o vigor de 'Família Soprano'

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Qualquer filme feito a partir de uma série chega com o mesmo tanto de curiosidade e aflição. Com uma série como "A Família Soprano", que no fim dos anos 1990 ajudou a inaugurar uma nova era de ouro da TV, foi um pouco diferente.

Isso porque parte do que fez dela um marco foi o uso de uma linguagem mais cinematográfica. O ritmo dos episódios, mais lento, com explosões de cenas de violência ou cômicas, fazia cada um dos 86 capítulos da série, de uma hora cada um, terem mais a ver com um longa do que com qualquer outro programa de TV.

David Chase, criador da série e de "The Many Saints of Newark", longa em forma de "prequel" lançado agora no Brasil pela HBO Max, é apaixonado por cinema. Depois que sua carreira como baterista de rock não deu certo, decidiu estudar com o objetivo de fazer filmes, como aqueles que via desde a adolescência.

Depois de muitos anos trabalhando como roteirista de TV, em séries como "Arquivo Confidencial", pelo qual ganhou seu primeiro Emmy, escreveu um primeiro longa-metragem, "O Difícil Regresso", de 1980, que acabou virando um filme para a televisão.

Nos anos seguintes, ainda vivendo como roteirista de TV, criou vários projetos de filmes, que nunca deram em nada. Até que, em meados dos anos 1990, inventou uma série baseada em sua própria mãe, um tipo amargurado e depressivo, inspiração explícita e assumida de Livia Soprano, papel de Nancy Marchand, cuja versão mais jovem Vera Farmiga assume com maestria no filme recém-lançado.

Como, na época, histórias sobre mulheres mais velhas como protagonistas não costumavam dar audiência nem ser aprovadas pelos executivos dos canais —as quatro de "Sex and the City" eram uma exceção, mas elas eram lindas, solteiras, bem vestidas, bem-sucedidas e modernas—, Chase criou um universo ao redor daquela personagem inicial.

E assim surgiram Tony Soprano e companhia.

O episódio piloto, filmado em 1997, já tinha os elementos fundamentais da série, o drama, a violência, a complexidade dos personagens, a comédia, os diálogos em que as pessoas falam o oposto do que estão pensando ou sentindo.

Mas Tony conquistou seu lugar como protagonista, como um chefão da máfia de Nova Jersey que sofre ataques de pânico que o levam a uma psicanalista, doutora Melfi —sobrenome da avó paterna de David Chase—, papel de Lorraine Bracco, o único nome conhecido do elenco na época.

Foram seis temporadas, que renderam 120 prêmios. O final foi ao ar em junho de 2007. A cena final, inconclusiva, é discutida até hoje. Recentemente, em uma entrevista a uma universidade, David Chase revelou o que acontece depois que a imagem corta para uma tela preta e a música "Don't Stop Believing", da banda Journey, começa a tocar.

Desde aquele dia, Chase vinha sendo procurado por executivos de TV para fazer qualquer outra coisa relacionada aos Sopranos. Sempre recusou.

Mas, quase 13 anos depois, foi convencido a fazer um filme que contava a história de um personagem que nunca aparece, mas é muito mencionado. Ele é Dickie Moltisanti, o pai de Christopher Moltisanti, vivido por Michael Imperioli na série -e que, no filme, narra, do túmulo, trechos da história de seu pai e da juventude de seu tio e futuro chefe, Tony.

A estreia do longa coincide ainda com uma redescoberta da série pelas gerações mais jovens durante a pandemia e influenciou até a uma onda de podcasts sobre máfia.

"The Many Saints of Newark" se passa em dois períodos, o final dos anos 1950 e o final dos anos 1960, e tem como ponto inicial a volta de Johnny Soprano, pai de Tony, papel de Jon Bernthal, para casa, depois de alguns anos na prisão.

Nesse período, Dickie Moltisanti, o primo, interpretado por Alessandro Nivola, passa a controlar os negócios da família, enquanto seu pai, "Hollywood Dick" Moltisanti, um dos papéis de Ray Liotta no filme, que está impecável, passeia pela Itália, de onde chega com uma jovem, Giuseppina, papel da atriz Michaela De Rossi.

Na ausência do pai, Tony se apega a Dickie, que ainda não tem filhos. Tony é interpretado por William Ludwig, quando criança, e por Michael Gandolfini, filho de James Gandolfini, na adolescência. James morreu aos 51 anos, em 2013, de ataque cardíaco.

Nos anos finais da série, Gandolfini e David Chase romperam. Mas fizeram as pazes mais tarde, e o ator participou do filme "Música e Rebeldia", de 2012, escrito e dirigido por Chase, sobre um grupo de adolescentes que forma uma banda de rock nos anos 1960 e tenta fazer sucesso. O filme foi um fracasso.

Em "Many Saints", além de Tony, todos os principais personagens da série aparecem mais jovens, interpretados por outros atores, nesta Nova Jersey fictícia dos anos 1950 e 1960, em recriação cuidadosa.

Há também muitas referências a situações ou locais que serão determinantes na série, como a delicatessen Satriale's, onde os personagens se encontram, conversam, trabalham e tomam café na calçada. O futuro clube de striptease Bada Bing, que no filme ainda não existe, serve de cenário para uma perseguição.

E o estacionamento de um carro, que remete aos minutos finais do último episódio, está lá. Até a música-tema faz uma participação especial, mas não vou estragar aqui.

Ausente da série original, uma trama paralela dá mais vigor ao longa, que é a parceria inicial da máfia local com criminosos da comunidade negra, liderados por Harold McBrayer, papel de Leslie Odom Jr. Ao seu redor, há o movimento negro ganhando a força.

No Brasil, o filme estreia direto no streaming. Seria melhor ter visto no cinema, mas, mesmo numa tela menor, fica evidente sua superioridade em relação a quase tudo o que está disponível por aí.

O canal ficou tão satisfeito com o resultado e a repercussão do filme que sugeriu a David Chase transformar a obra em uma nova série. O autor recusou, mas sugeriu que pode fazer um novo longa, que ligue o fim de "Many Saints" ao início de "Família Soprano".

Para isso, vai ter que superar um obstáculo intransponível, a falta de James Gandolfini.

THE MANY SAINTS OF NEWARK

Quando Estreia nesta sexta (5)

Onde Na HBO Max

Elenco Alessandro Nivola, Vera Farmiga e Michael Gandolfini

Produção EUA, 2021

Direção Alan Taylor

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