A polêmica do desfile da Mangueira e a consonância do professor negro preso sem cometer crime

Mangueira passa pela avenida na madrugada de domingo para segunda (Fabio Teixeira/NurPhoto via Getty Images)

Vai me dizer que isso não te lembra Cristo?

Lucas Inácio Nascimento, ator e professor de teatro, não conseguiu assistir e tampouco twittar sobre o desfile da Mangueira que levou à Sapucaí, na madrugada desta segunda-feira (24), negro, índio mulher e LGBT crucificados. 

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Lucas foi detido de forma truculenta por policiais militares no Rio de Janeiro na tarde de domingo (23). Um vídeo que circula na internet mostra o jovem negro sofrendo um golpe conhecido como mata-leão após questionar e gravar a abordagem policial a dois menores também negros.

Enquanto o enredo da verde e rosa “A Verdade vos Fará Livre" colocou 'Jesus' no topo dos assuntos mais comentados do Twitter, Lucas passou a madrugada em uma cela sem ter cometido crime algum. A verdade é que há muito tempo jovens negros são perseguidos, encarcerados e mortos pelo Estado. A verdade é que, se Jesus voltasse hoje, nas mesmas condições, seria crucificado de novo. 

Mas o carnavalesco Leandro Vieira - no brilhantismo de colocar um menino preto de cabelo loiro (à imagem e semelhança de Lucas, o professor preso injustamente) com o corpo perfurado por balas, não inventou a roda. Ele apenas revelou a roda: Jesus, nascido no Oriente Médio, tinha a pele escura, era de origem popular e foi perseguido pelo Estado Romano até sua morte. Logo, se nascesse hoje, Jesus seria sim um jovem negro, periférico e oprimido. 

Imagino como deve ser chocante para os cristãos habituados com a imagem de um Jesus europeu de olhos azuis criada pelos renascentistas italianos ver um Messias retinto dançando funk com os apóstolos também pretos. “Coisa do Demônio” dizem os fervorosos Twitteiros da bancada racista e classista na tentativa de cancelar a Mangueira.

“Mas será que todo povo entendeu o meu recado?

Porque, de novo, cravejaram o meu corpo

Os profetas da intolerância

Sem saber que a esperança

Brilha mais na escuridão

Favela, pega a visão

Não tem futuro sem partilha

Nem messias de arma na mão”, diz um trecho do samba-enredo. 

Também causou polêmica a imagem de Jesus como mulher preta, interpretado por Evelyn Bastos. “Se fôssemos ensinados desde pequeno que Jesus poderia ser uma mulher, será que estaríamos no topo do feminicídio?”, questionou a rainha de bateria. 

A verdade inquestionável que a Mangueira levou pra Sapucaí é que Jesus acolhia as minorias, defendia os oprimidos e fazia parte de ambos os grupos. A verdade é que religiosos (hegemonicamente homens e brancos) usaram por séculos (e usam até hoje) a religião para se perpetuar no poder e, em contradição ao que pregou Cristo, criaram uma massa de fiéis moralista, machista, racista, elitista e homofóbica. 

Após ser crucificado, o Jesus da escola verde e rosa ressuscita no morro da Mangueira, como mensagem de esperança ao povo preto periférico que vive naquela e em outras favelas do Brasil. Quanto ao Cristo contemporâneo do último fim de semana, o professor Lucas Nascimento foi liberado por volta das 15h30 desta segunda-feira (24) após audiência de custódia.

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