Mangás inspiram atletas olímpicos

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Nesta foto de arquivo tirada em 18 de março de 2019 os quadrinhos "One piece" são exibidos na Feira do Livro de Paris

A disputa dos Jogos Olímpicos no Japão é um símbolo importante para uma geração de atletas que cresceu influenciada em maior ou menor medida pelos mangás, o universo japonês dos quadrinhos, que em muitos casos está intimamente ligado às suas disciplinas pelos valores dos personagens.

Seja em sua versão em papel, ou em série animada, os atletas que eram crianças nos anos 1990, ou mesmo depois, cresceram com os mangás.

Com a Internet, estes quadrinhos experimentaram uma explosão ainda mais importante, como aconteceu com "One Piece", que desde 1997 já vendeu mais de 480 milhões de cópias em todo mundo, de acordo com o site especializado mangazenkan.com.

Muitos atletas que vão participar das Olimpíadas de Tóquio - de 23 de julho a 8 de agosto -, e não apenas japoneses, são grandes fãs do gênero.

"One Piece é a história mais incrível. Mudou minha vida. Leio o novo capítulo todas as semanas", diz o velocista francês Pierre-Ambroise Bosse, campeão mundial em 2017 dos 800 metros, que telefona regularmente para seus compatriotas Jimmy Vicaut (multimedalhista europeu dos 100 m) e Dimitri Bascou (bronze olímpico dos 110 metros com barreiras) para discutir o capítulo da semana.

O astro americano Noah Lyles, campeão mundial dos 200 metros, é outro apaixonado por mangás: em 2019, durante as eliminatórias de seu país para o Mundial de Doha, pintou o cabelo em homenagem a Goku, o herói do clássico "Dragon Ball".

"Eu ficava acordado à noite para ler das 21h às 3h quando estava na escola", contou ele, em uma live no Instagram na companhia da nadadora Katie Ledecky.

- "Poder interno" -

O interesse dos mangás pelos esportes parece recíproco. Os dois universos se alimentam mutuamente, especialmente no subgênero "shonen", o mais difundido.

"A Shonen Jump (revista de referência) vende milhões de exemplares por semana. Seu lema é, desde muito tempo, 'amizade, vitória e perseverança'", explica Julien Bouvard, especialista nesta área e professor da Universidade de Lyon (França).

"Principalmente na década de 1990, o esquema clássico é um herói, ou uma heroína em que você vê a evolução da infância à idade adulta, para acompanhar a evolução dos leitores. Você treina para ser mais forte e luta contra inimigos que também vão ser gradualmente mais fortes. Comparada com a vida de um atleta, faz sentido", frisa.

"Eu cresci no universo shonen", explica o atleta francês Bosse. "Um herói que avança aos poucos, antes de se fazer respeitar, é a evolução do personagem que gostava", explica.

"A força interior é mais forte que tudo, é como o atletismo. Você tem que buscar em si mesmo. Isso eu senti várias vezes no treino. Heróis lutam antes de vencer. No atletismo é parecido (...) O importante é nunca desistir. Ganhar quando ninguém espera é algo que o mangá me trouxe", acrescentou ele em referência ao título mundial surpresa em 2017.

Luffy de One Piece ou Naruto, da obra de mesmo nome, são dois heróis de histórias de aventura, verdadeiros apóstolos da perseverança e, portanto, um espelho óbvio para atletas de alto nível.

"Os mangás são agradáveis de ler porque os heróis têm um relativo apreço pela dor, eles se machucam, ultrapassam seus limites", afirma o recordista mundial do decatlo, o também francês Kevin Mayer, outro fã dos quadrinhos japoneses.

- Enfrentamentos entre países -

"Os mangás com conteúdo esportivo também têm uma longa tradição, desde antes da Segunda Guerra Mundial, mas sua explosão ocorreu na década de 1950 com mangás sobre beisebol, basquete e artes marciais. Estes últimos eram proibidos pela GHQ (ocupação americana)", detalha Bouvard.

"Na década de 1960, se constituiu o gênero Supokon, séries em que jovens atletas mostram enorme determinação, a ponto de perder saúde, ou às vezes até a vida, com combates que se tornaram quase existenciais. As Olimpíadas de Tóquio em 1964 atuaram como amplificadores do gênero", analisa.

"Em alguns mangás, vemos confrontos entre países, em que o ápice são os Jogos Olímpicos, o confronto com os Estados Unidos (...) como uma profunda revanche pela humilhação da ocupação americana", explica.

Como ele destaca, "no Japão, o treinamento não é um meio racional de melhorar fisicamente, mas sim de fortalecer sua mentalidade, uma espécie de meditação que permite vencer um oponente mais forte, graças ao seu espírito".

Valores a serem usados sem dúvida pelos 11.000 atletas, verdadeiros "heróis", esperados em Tóquio.

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