Manchas de óleo no Nordeste podem vir de navio alemão naufragado em 1944

Cientistas investigam se manchas de óleo vêm de naufrágio (Foto: Andre Moreira/Aracaju Municipal Press Office via AP)

RESUMO DA NOTÍCIA

  • Pesquisadores vão enviar amostras para laboratórios dos Estados Unidos definirem a origem e a idade de extração do óleo

  • Substância já foi encontrada na foz do rio São Francisco

Cientistas ainda tentam definir a origem do petróleo que tem aparecido nas praias do Nordeste nas últimas semanas. Recentemente, um grupo de pesquisadores brasileiro começou a trabalhar com uma nova hipótese: a de que o óleo vem de um navio alemão que naufragou em 1944, a 1.000 km de Recife.

Para testar essa hipótese, o químico oceanógrafo Rivelino Cavalcante, da Universidade Federal do Ceará (UFC), tenta descobrir há quanto tempo a substância foi extraída. Ele vai enviar amostras do material para o geoquímico Christopher Reddy, do Instituto de Oceanografia de Woods Hole (WHOI), nos EUA, para que as análises sejam feitas. O americano explica ao jornal O Globo que é “totalmente razoável” a teoria de que o petróleo vem do navio:

“O fato de ser intermitente e fragmentado está em linha com algo como uma mudança recente no navio afundado que criou esse vazamento.”

O navio em questão transportava látex entre o Brasil e o que, na época, se chamava “Indochina Francesa” – atuais Laos, Camboja e Vietnã. Desde o fim do ano passado, grandes pedaços de borracha têm sido encontrados em praias do Nordeste. O oceanógrafo da UFC Carlos Teixeira foi quem encontrou o navio nos registros de naufrágios no Atlântico.

“Esse navio alemão navegava "disfarçado" com o nome de SS Rio Grande, uma coisa comum durante a Segunda Guerra. A localização dele, bastante profunda, já é conhecida com precisão.”

Teixeira apoiava a hipótese de que o óleo vinha do SS Rio Grande, mas perdeu o entusiasmo quando ouviu na comunidade científica um rumor de que a Petrobras classificou o óleo como de extração recente. A empresa não se pronunciou sobre o assunto, mas o pesquisador afirma confiar nas fontes das quais obteve a informação extraoficial.

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Rivelino e Reddy ainda apoiam a teoria. Uma simulação de correntes marítimas feita por Teixeira dá mais sustentação a essa possibilidade: faz sentido que as partículas de óleo liberadas a partir do navio cheguem agora nas praias do Nordeste. Carlos Teixeira afirma que só continuará nessa linha de investigação se tiver uma confirmação oficial de que o óleo é de extração antiga.

Christopher Reddy, o pesquisador americano, diz não ter certeza nem de que o material é óleo cru, como tem se divulgado:

“É difícil dizer pelas imagens, mas não me parece petróleo cru. Isso será facilmente verificado aqui quando tivermos as amostras. É possível que seja uma variedade diferente de combustível produzido em refinaria para uso em navios.”

A Marinha ainda trabalha também com as hipóteses de que as manchas são fruto de derramamento acidental, manobra de embarcação ou troca de óleo entre navios. Em entrevista, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) afirmou que os militares já identificaram 140 navios que transitaram na área suspeita. Os pesquisadores tentam agora afunilar essa quantidade.

Já foi encontrado petróleo em 139 localidades de 63 cidades dos nove estados do Nordeste, indica o levantamento atualizado do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis). O secretário de Meio Ambiente de Piaçabuçu (AL), Otávio Nascimento, relata que a substância já chegou na foz do rio São Francisco:

“O volume não foi grande, mas apresenta uma ameaça de contaminação. A gente precisa entender qual foi o problema e o governo ainda não disse isso. Não recebemos uma ligação do ministro, uma fala de ajuda. Não sabemos se eles enxergam a gente no cenário de catástrofe ambiental que estamos.”