Mais de vinte tons de mel: de cores, texturas e sabores diferentes, ele ganha espaço

Luciana Fróes
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Ana Branco / Agência O Globo

O pote está cheio. Tem mel de abelhas Jataí, Jupará, Uruçu-amarela e Borá, colhido nas floradas do Mandacaru ou da Assa-peixe... Cada qual com sabores, odores e cores peculiares, mostruário da diversidade da flora brasileira. Tonalidades? Mais de 20 nuances, dos bem clarinhos aos amarelados, rosados, acastanhados. Tem mel verde e preto. Líquido ou cremoso. Mesmo com o desmatamento, os agrotóxicos e a poluição ameaçando o trabalho das abelhas, o mercado cresce: segundo dados divulgados pelo IBGE em outubro, todas as grandes regiões do país aumentaram sua produção de mel no ano anterior. Em 2019, foram produzidas 46 mil toneladas de mel, volume 8,5% maior que no ano anterior.

O mel cremoso é uma das paixões do ator Marcos Palmeira (“não vivo sem mel”), que distribui os potinhos do seu Sítio das Palmeiras, em Teresópolis, com a versão orgânica.

— As pessoas acham que na versão cremosa, o mel cristalizou e não está bom. Mas desconhecem que todo mel bom cristaliza. Desconfie daquele que não cristalizar, porque deve ter algo de errado nele. O cremoso é excepcional, é o mais puro deles — defende Palmeira, que vende seus produtos pelo Clube Orgânico e nos supermercados Zona Sul.

Em 2012, o casal Eugênio e Márcia Basile lançou a Mbee, que vende uma linha de mel de luxo produzida em sua fazenda Itaicá, em Atibaia (SP). Recentemente, os dois fizeram parcerias com pequenos apicultores de vários estados do Brasil e ampliaram sua cartela de produtos. Tem até cerveja de mel. Ou mel para temperar legumes. Mas a estrela da marca é a coleção Terroir, com vidrinhos com 18 tipos de mel de vários cantos do país (R$ 35,80, 300g, no site www.lojambee.com.br), cada um com suas peculiaridades. Além da origem, bom lembrar que há, no Brasil, um exército de 300 espécies de abelhas nativas, ou abelhas-sem-ferrão, como também são conhecidas.

— Cada mel traz o sabor do lugar em que foi produzido. Ele sofre interferências do solo, das matas, da altitude... Nós queremos mostrar essa diversidade e procurar resgatar a cultura do mel no Brasil — diz Eugênio.

E eis aí o ponto. Se a produção de mel alçou voo, o consumo entre os brasileiros continua rasteiro. Enquanto entre os europeus a média é de 1,5 quilo de mel per capta, por aqui, não chega a 100 gramas.

— No Rio Grande do Sul, maior produtor de mel do país (40 mil apicultores legalizados), o consumo é um pouco maior. No Nordeste, em estados como Ceará e Bahia, depois que sachês com mel foram incluídos na merenda escolar, o consumo disparou — diz Markus Buzinsky, engenheiro florestal e especialista na apicultura orgânica.

A empresária Cristiana Beltrão, dona da marca de alimentos Bazzar, abriu uma loja virtual só com produtos do Sudeste, o Bazzar Procedência (venda no site bazzar.com.br), onde há tipos especiais de mel, como o Malacacheta.

— Esse mel vem de uma região cercada de aroeira, árvore nossa, nativa da América do Sul, que tem aquele perfume maravilhoso. As abelhas fazem mel nesse lugar, imagina... Ele tem cor quase negra e textura muito densa, além da viscosidade de um melado, pela baixa umidade — explica Cristiana, que também destaca o mel de Jequitinhonha e o da Serra do Espírito Santo (cada um, R$ 13, 40g). O Malacacheta custa R$ 37, 300g.

Mel da casca de Bracatinga

Outro xodó de Beltrão é o melato de Bracatinga, que chega das regiões mais altas de Santa Catarina. O processo de extração é diferente do convencional. No lugar da flor, ele é retirado da casca da Bracatinga, uma árvore nativa da Mata das Araucárias, que costuma ser atacada por um inseto (cochonilha), que suga a sua seiva para, em seguida, expelir um líquido claro e doce. E aí, viva! As abelhas chegam aos montes e produzem a fina iguaria, um melato escuro de notas amargas. Na Coapi Mel (2535-6812), cooperativa que vende produtos na Cobal do Humaitá, 1 kg e 50g sai a R$ 51, o pote de 450g é R$ 28,30 e a bisnaga de 280g, R$ 16,50.

O que não faltam hoje são produtores bem intencionados e preparados, engarrafando mel de qualidade. Uma dupla de valor: Daniel Andrade (que também é músico) e Andrew Reed, amigos de infância que criaram o selo Terra Verde, de produtos naturais. Entre eles, o fantástico mel cru, da região hidrográfica do Rio Macaé, em Nova Friburgo. Especificamente em Macaé de Cima, a região mais florestada do município, de floradas silvestres que inspiraram a produção deles. Mas o que é mel cru? É o mel que não passou por aquecimento ou pasteurização. Ele é simplesmente coletado do favo e centrifugado, passando depois por uma peneira para tirar resíduos de cera e própolis. O mel vai junto com o pólen, aumentando a incidência de aminoácidos e seu valor nutritivo. O da Terra Verde (R$ 28, o pote de 350g) pode ser comprado pelo canal direto, via Whatsapp (22 99834-4712) ou na loja virtual da feira Junta Local (juntalocal.com) .

E tem mais: duas comunidades indígenas produzem hoje bons produtos, entregues no Rio de Janeiro. O Mel do Xingu foi o primeiro a ganhar o selo de certificação orgânica e o primeiro apiário da região, com produtos que expressam bem o aroma da floresta silvestre. Custa R$ 39, 500g, e é vendido apenas na loja virtual (loja.socioambiental.org). O outro é o Tupyguá, produzido e comercializado pelos povos Guarani e Tupiniquim que se organizaram em cooperativas. Eles vivem em terras indígenas de Aracruz, no Espírito Santo. Por ali, as abelhas são sem ferrão, nativas. Fazem mel de Jataí, Mandaguari, Mandaçaia, mas a “abelha rainha” é a Uruçu-amarela, a mais presente na área de 12 mil hectares na zona costeira do Aracruz. Vendem a granel (R$ 120, o quilo) ou em embalagens de 185 g (de R$ 25 a R$ 30), pelo email mel.tupygua@gmail.com.