Mais 'light' que Moro e Mandetta, Teich não deixou de cutucar Bolsonaro

Mensagens de Teich a Bolsonaro em seu discurso foram suaves, mas não deixaram de ser passadas. (Foto: AFP Photo/EVARISTO SA)

O discurso de Nelson Teich, nesta sexta-feira (15), oficializando sua saída do Ministério da Saúde, foi mais light do que as saídas ministeriais anteriores do governo de Jair Bolsonaro. Ao contrário de seu antecessor, Luiz Henrique Mandetta, e do ex-ministro da Justiça Sergio Moro, Teich optou por não “sair atirando”, mas mesmo assim deixou suaves “cutucadas” ao presidente.

E foi breve, assim como sua passagem pela pasta. Enquanto Moro e Mandetta preferiram estender-se por cerca de meia hora, o ex-ministro demorou apenas 7 minutos para dar seu recado. As atenuâncias começaram em sua mensagem principal: união e responsabilidade compartilhada com estados e municípios frente ao novo coronavírus.

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Ao falar em “tripartite”, Teich escolhe a forma mais polida para dizer que não cabe somente ao governo federal determinar os rumos da nação no combate à Covid-19. No mesmo trecho, Teich diz que o Ministério da Saúde - com ou sem ele no comando - vê como “absolutamente verdadeiro e essencial” a união com os demais entes dos estados e municípios para “conduzir a saúde desse país”.

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As falas conciliadoras acontecem na mesma semana em que o presidente, em uma teleconferência com empresários, disse que é “guerra” e que o empresariado precisa “jogar pesado” com os governadores. Desde o agravamento da pandemia, Bolsonaro tem travado uma verdadeira batalha judicial com governadores na tentativa de flexibilizar as medidas de isolamento.

PLANO A SER SEGUIDO

Mesmo abrindo seu discurso com o “escolhi sair” - indicando que a fritura e os atritos com Bolsonaro atingiram seu ápice -, Teich diz ter plantado seu legado de 29 dias no ministério ao deixar pronto um plano de trabalho a ser seguido.

Novamente, invoca a presença dos dois algozes do presidente durante a pandemia: estados e municípios, ao afirmar que deixou indicado para esses quais serão as ponderações a serem avaliadas neste momento e que poderão ajudar no entedimento da atual situação e na tomada de decisão daqui pra frente.

A alfinetada aqui de Teich é mais sutil que a anterior.

O ex-ministro sai, mas deixa o recado para quem fica e para quem esse plano se destina a permanecer conduzindo o trabalho da pasta e de suas gestões na mesma linha: manter-se contra a flexibilização do isolamento social neste momento.

E é bem provável que, em seu plano deixado aos governadores e prefeitos, os índices do crescimento exponencial no número de casos e mortes apontem na mesma direção. Sem alarde, Teich parece colocar uma pedra no caminho do presidente rumo ao “retorno à normalidade”.

FOCO NA COVID

Oncologista que é, Teich alertou sobre a necessidede de manter-se atento à amplitude do SUS (Sistema Único de Saúde) no que diz respeito ao tratamento das demais doenças, mas pediu “foco total” na Covid-19. Não haveria período mais propício para o pedido de Teich. A semana começou e terminou com o foco na política do Planalto, e nas suas consequências.

Falou-se em vídeo de reunião ministerial; falou-se em inquérito do STF (Supremo Tribunal Federal) de interferência política na PF; falou-se em ‘PF e não Polícia Federal’; falou-se em Alexandres, de Moraes e Ramagem; falou-se em briga e namoro reatado com Rodrigo Maia. Até quando foi-se falar em Covid, era a respeito dos exames de Bolsonaro.

Isso tudo em uma semana em que as atualizações dos boletins diários trouxeram um novo recorde de mortes - 881 óbitos, no dia 12 - e em novo recorde de casos confirmados - 13.944 infectados, no dia 14 - em um intervalo de 24 horas.

Apesar do infeliz domínio nos noticiários, a Covid encontrou no Brasil alguém com quem tem que dividir seu protagonismo.

IR NA PONTA E IMPORTÂNCIA DOS PROFISSIONAIS DE SAÚDE

Teich fez questão de destacar também as viagens que fez aos pontos do Brasil em que a pandemia está mais crítica, sendo um deles Manaus, e a importância de ver “o dia a dia” das pessoas que estão na linha de frente do combate à doença.

Desde que o novo coronavírus chegou ao Brasil, Bolsonaro limitou-se a ir às manifestações favoráveis ao seu governo e contrárias ao STF e Congresso, além de promover pequenas aglomerações nas vezes em que visitou os comércios das adjacências de Brasília, mesmo sendo convidado publicamente pelo governador de São Paulo, João Doria (PSDB), a ver a situação dos hospitais paulistas com os próprios olhos.

Antes de agradecer ao próprio presidente pela oportunidade, Teich se disse grato aos profissionais de Saúde e à dedicação dada por eles mesmo diante dos riscos de contágio. A gratidão e o reconhecimento do ex-ministro, porém, parecem não atingir os apoiadores do presidente, que hostilizaram enfermeiros que faziam uma manifestação silenciosa na frente do Planalto.

Sem acusações ou sugestões, Teich escolheu as entrelinhas para expressar o que pensa.

(Foto: AP Photo/Eraldo Peres)

Confira o pronunciamento completo:

“Pessoal, boa tarde. A vida é feita de escolhas e eu, hoje, escolhi sair. Digo a vocês que dei o melhor de mim nesses dias que estive aqui, nesse período. Não é uma coisa simples estar à frente de um ministério como esse num período tão difícil. Agradeço ao meu time que sempre esteve ao meu lado, sempre. Esse é um trabalho de um grande time. Conduzir a Saúde é o trabalho de muita gente, de um grande time, e eu tenho aqui a honra e o prazer de estar ao lado dessas pessoas que, repito, sempre estiveram do meu lado, sempre me apoiaram e sempre trabalharam intensamente por esse país.

A missão da Saúde é tripartite. Envolve Ministério da Saúde, o CONASS (Conselho Nacional de Secretários de Saúde), o CONASEMS (Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde), secretários estaduais e municipais. E isso é uma coisa que é muito importante deixar claro, o Ministério da Saúde vê isso como algo absolutamente verdadeiro e essencial para conduzir a saúde desse país, tanto na parte estratégica como na parte de execução. Esse é o momento em que o país inteiro luta pela saúde, pelo Brasil. Mas aqui eu realço a participação do ministério, do CONASS e do CONASEMS.

Traçamos aqui um plano estratégico que foi iniciado, as ações foram iniciadas, e que ele deve ser seguido. É importante lembrar que durante esse período a gente tenha um foco total na Covid. Mas a gente tem que lembrar que tem um sistema que envolve várias outras doenças, toda uma população para ser cuidada. Em todo o tempo que a gente trabalhou, que trabalha e trabalhou para solucionar e passar por esse momento da Covid, todo sistema é pensado em paralelo.

Nesse período, a gente auxilia estados e municípios a passar por essas dificuldades. Habilitação de leitos, foram quase 4 mil. São os EPIs (Equipamentos de Proteção Individual), são os respiradores, os recursos humanos. Isso acontece em um momento de grande crise mundial, tanto dos insumos quanto dos equipamentos e EPIs. É uma luta diária, uma luta intensa para que a gente consiga entregar e auxiliar estados e municípios a passar por isso. E quando a gente fala ‘estados e municípios’ a gente está falando dos pacientes e das pessoas.

Deixo um plano de trabalho, um plano pronto para auxiliar os secretários estaduais, os secretários municipais, prefeitos e governadores a tentar entender o que está acontecendo e definir os próximos passos. Aqui a gente entrega quais são os pontos que têm que ser avaliados, quais são os itens que são críticos que hoje a gente não consegue ter e que precisam ser encontrados, e auxilia no entendimento do momento e da tomada de decisão.

Foi construído um programa de testagem que está pronto para ser implementado. Isso vai ser importante para que a gente entenda a situação da Covid no Brasil e a sua evolução. Isso também é fundamental para que a gente defina estratégias e ações.

A gente iniciou as visitas nas cidades mais atingidas e isso foi fundamental. Porque é fundamental você estar na ponta e foi fundamental a gente estar com essas pessoas, entender o que acontece no dia a dia, ver o que está sendo feito, entender melhor o que acontece na ponta. Esse entendimento foi fundamental para o desenho de ações que foram implementadas em seguida, e isso é uma preparação para ir em outros lugares, em outras cidades. E cada cidade que a gente vai, a gente está melhor preparado para enfrentar o desafio.

Aqui eu agradeço aos profissionais de saúde mais uma vez. Quando você vai na ponta, que você vê o que é o dia a dia dessas pessoas, você se impressiona. A dedicação dessas pessoas correndo risco, o tempo todo ao lado dos pacientes, é uma coisa realmente espetacular.

Agradeço ao presidente Jair Bolsonaro à oportunidade que me deu de ter feito parte do Ministério da Saúde. Isso era uma coisa muito importante para mim, seria muito ruim na minha carreira eu não ter tido a oportunidade de atuar no ministério pelo SUS (Sistema Único de Saúde).

Eu escrevi uma vez que fui uma pessoa formada, eu nasci, graças ao serviço público. Eu estudei em escola pública, minha faculdade foi pública, minhas residências foram em hospitais federais. Eu fui criado pelo sistema público.

E o mais importante de tudo é o seguinte. Eu não aceitei o convite pelo cargo, aceitei porque achei que podia ajudar o Brasil e ajudar as pessoas. Obrigado.”