Maioria entre evangélicos, mulheres negras têm relação diferente com a fé

A teóloga Eliad Dias dos Santos, 54 anos, é pastora na Igreja Metodista na Luz. Foto: Arquivo Pessoal

Pesquisa Datafolha divulgada nesta segunda-feira (13) mostrou que 31% dos brasileiros são evangélicos. O que mais chama a atenção é observar o gênero e a cor dos praticantes da religião: 58% dos evangélicos são mulheres, 43% são pardos e 16% pretos.

Porém, o que faz com que mulheres negras sejam maioria dentro do grupo? Segundo a teóloga Eliad Dias dos Santos, 54 anos, pastora na Igreja Metodista na Luz, de São Paulo, a religião traz uma promessa de melhora de vida para elas e para seus entes queridos, o que faz com que as mulheres negras se identifiquem com a fé.

“Essa mulher se apega à religião evangélica pelas promessas de cura, libertação, às promessas de que o marido e os filhos vão parar de usar drogas, promessas de ascensão social… os únicos intermediários entre Deus e ela são os pastores. Mas, principalmente, por elas darem o dízimo e não precisarem pagar por ‘trabalhos’, geralmente caros, para alcançarem graças”, afirma.

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Já a assistente social Vanessa Maria Gomes Barboza, 30 anos, mestre em Educação, Culturas e Identidades e membro da Igreja Batista em Coqueiral, de Recife, Pernambuco, acredita que o protestantismo do segmento pentecostal e neopentecostal no nosso País tem uma abordagem discursiva assistencial e que acaba tocando as necessidades sensíveis das mulheres negras.

“Eles oferecem uma doutrina de o poder individual em despeito do contexto de privação de bens materiais e acesso a serviços públicos, de crescimento e conquistas materiais que trarão condições de consumo para suas famílias e o discurso da valorização da família, ancorada na ideia de que as mulheres são as responsáveis nucleares de êxito nas relações familiares, que é uma ideia que está no imaginário cultural da nossa sociedade, fortemente marcada pela responsabilização das mulheres sobre os cuidados familiares”, explica.

“Outra questão importante a se considerar é o processo de perseguição e racismo religioso perpetrado contra a população negra adepta das religiões de matrizes africanas e indígenas no Brasil. As igrejas cristãs com caráter expansionista empregaram, ao longo de seu desenvolvimento na nossa sociedade, uma verdadeira campanha de demonização e marginalização dessas religiões, de modo muitas vezes assediador para impor sua fé”, diz.

A assistente social Vanessa Maria Gomes Barboza, 30 anos, é membro da Igreja Batista em Coqueiral. Foto: Arquivo Pessoal

Porém, elas garantem que o racismo e o machismo ainda persistem dentro das igrejas evangélicas, mas que nem todas as mulheres negras percebem ou querem analisar esse problema. De acordo com Eliad, existe um conceito de irmandade muito forte dentro da doutrina e isso faz com que elas se sintam incluídas e respeitadas por outras irmãs e irmãos.

“Infelizmente, algumas não percebem atitudes racistas e machistas porque a religião fala de um Deus único, Senhor e salvador. Existem muitos casos de racismo”, diz a pastora que coordena um projeto para mulheres e crianças imigrantes e refugiadas e faz parte dos coletivos Evangélicas Pela Igualdade de Gênero e Rede de Mulheres Negras Evangélicas.

Dentro do coletivo de mulheres negras e evangélicas, ela diz que o ponto principal do trabalho é discutir atitudes racistas que elas enfrentam nas igrejas em geral. “Para limpeza e cozinha da igreja, geralmente, são escolhidas as mulheres negras. Elas são reconhecidas como ótimas servidoras, mas poucas vezes estão nas lideranças”, exemplifica a pastora.

Vanessa concorda com Eliad: “É fato que o racismo, o patriarcalismo e o machismo estão presentes na grande parte da interpretação e hermenêutica bíblica e das doutrinas das igrejas evangélicas. A maioria das mulheres não recebe educação teológica, não está no topo da cúpula das lideranças que disseminam as doutrinas das igrejas”, afirma.

Segundo ela, muitas dessas mulheres desconhecem os conceitos de racismo, machismo e patriarcado do ponto de vista conceitual. Porém, conseguem identificar situações do dia a dia delas que são estruturalmente opressoras. “Em poucos minutos de diálogo com elas, elas irão identificar todos esses elementos nas suas experiências dentro e fora da igreja”, explica.

De acordo com Vanessa, é difícil de tratar sobre racismo e machismo dentro da igreja. “Há uma negação sumária entre a maioria das denominações religiosas, sejam elas históricas, tradicionais, pentecostais ou neopentecostais. Pela tradição religiosa da cristandade hegemônica, a figura feminina tem uma missão existencial de relativa complementaridade em relação ao homem e isso é naturalizado ao longo das gerações por séculos”, diz.

Para que essa autocrítica acontecesse, ela afirma que seria necessária uma quebra de paradigma difícil, mas que precisa ser feita. “Isso precisa acontecer uma vez que a violência contra a mulher atinge as mulheres negras e evangélicas. A violência simbólica faz parte do cotidiano das programações das igrejas. O racismo e machismo operam como lógica para restringir acessos a espaços de poder clerical, só para citar exemplos mais expressivos”, constata.

Essa estrutura pode ser observada também na relação de Eliad com a igreja. “Sou pastora da Igreja Metodista desde 1990 e presbítera desde 1996. Ou seja, posso ser eleita para o cargo maior da igreja, que é o episcopado. Adoraria dizer que, durante todos estes anos, minha vida pastoral foi fácil. Infelizmente, não é nem um pouco. O sexismo e racismo é uma constante na vida das mulheres negras. As igrejas são patriarcais e brancas”, diz.

“Ser mulher negra, atuante de movimentos de mulheres, feminista e adepta à teologia da libertação não é considerado uma ‘benção’ para muitas pessoas. Sou o que as pessoas chamam de resistente. Não saio da igreja em que cresci e acredito porque encontraria as mesmas lutas nas outras igrejas. Tenho conquistado algum espaço e luto para entrar por muitas janelas, já que as portas normalmente estão fechadas”, afirma.

Segundo ela, as mulheres são a base das igrejas. “É o nosso trabalho e dedicação que mantém as igrejas funcionando. São os dízimos das mulheres que sustentam os homens no poder e, quando as mulheres nas igrejas se derem conta disso, podem acontecer mudanças”, explica Eliad.

Por conta disso, a pastora acredita que ainda exista uma insistência em manter a figura de um “Deus branco, machista, homofóbico e racista”. “Veja o que está sofrendo o Papa Francisco, por exemplo, ou o que já passou Ivone Gebara e tantas outras mulheres e homens que lutam por uma igreja onde mulheres e homens vivam em igualdade. Mas isso está muito longe do que temos visto hoje. É só olhar para a bancada evangélica e da Bíblia”, afirma.

Porém, ao mesmo tempo que mulheres negras e evangélicas sofrem com questões de preconceito que estão estruturalmente inseridas em nossa sociedade, elas também encontram acolhimento na igreja. De acordo com Vanessa, a religião apresenta possibilidades de valorização pessoal.

“Esses problemas sociais são suportados diante das ‘recompensas imediatas’ que essas irmãs recebem nas igrejas como a troca de afetos, cuidados e convívio comunitário e na liderança de grupos e atividades. Há o lugar para as mulheres na igreja, mas não é o lugar da tomada de decisão e da orientação teológica”, explica.

Vanessa, que colabora como educadora no Projeto Escola de Fé e Política Pastor Martin Luther King Jr. e atua como articuladora do Movimento Negro Evangélico (PE) e também na Rede de Mulheres Negras Evangélicas, acredita no potencial da religião como um espaço de acolhimento, valorização da vida e manifestação da fé.

Porém, ela diz que também já passou por situações de violência. “Na minha realidade, de família negra e pobre, a igreja foi um espaço possível para desenvolver habilidades que os serviços públicos de educação, saúde e assistência social não oferecem plenamente. Estou na religião cristã há 20 anos. Da minha infância até hoje, o meu acesso a uma educação teológica plural e crítica somada à formação acadêmica, me permite analisar as relações sociais na igreja de modo a perceber suas contradições maléficas e buscar intervir nesses contextos”, explica.

“As igrejas são organizações sociais que apresentam contradições humanas, fortemente marcadas pelas injustiças sociais, como qualquer outra instituição na nossa cultura. O importante é que haja espaço para que as violências e crimes sejam denunciados e tratados com devido aparato jurídico e social, valorizando a vida das pessoas e não se omitindo, buscando lucro e perpetuando mortes emocionais e até físicas na vida de seus fiéis. Se esses espaços não existem, nós os criamos”, afirma.

Segundo Vanessa, é importante que a vida das mulheres negras evangélicas seja tratada com o mesmo valor que é dado aos líderes homens. “É importante que nós tenhamos as mesmas oportunidades de acesso à teologia, à educação cristã, à ordenação e tenhamos nossa liberdade de consciência respeitada. Só assim viveremos plenamente a nossa fé”, constata.

Mesmo assim, Eliad acredita que a fé é fundamental para que essas mulheres sobrevivam ao racismo. “Elas podem chorar, clamar diretamente para Deus. A igreja é um lugar de expiação, de clamor, de uma forma mais aceita pelas pessoas brancas”, explica a pastora.

“O homem negro sofre o racismo e sua fé lhe ajuda a lutar contra todas as adversidades vividas em seu cotidiano por causa de sua cor. Sua única vantagem é que ele, geralmente, tem uma mulher, mãe e irmã que ajudam nos momentos de fraqueza dele, de medo, o que não acontece com as mulheres negras. Elas são chefes de família, criam os filhos e filhas sozinhas, sustentam as famílias”, diz.