Maestro que regeu sinfonia de buzinas contra ditadura faz ópera sobre Leopoldina

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Pioneiro da música eletroacústica no Brasil nos anos 1960 e um dos principais ativistas políticos da vanguarda musical brasileira, o compositor Jorge Antunes –que completa 80 anos neste sábado (23)– acaba de compor uma nova ópera, "Leopoldina", destinada a integrar as celebrações dos 200 anos da Independência do Brasil.

Sem estreia confirmada ainda —vários teatros demonstraram interesse pela peça, mas as dimensões da obra exigem o fim absoluto das restrições pandêmicas—, ela foi escrita durante uma residência artística em Paris, fruto do prêmio Icatu de Artes.

"Leopoldina" narra os eventos da independência sob a perspectiva da princesa austríaca que se casou com dom Pedro 1º. Ao lado de orquestra, cantores solistas, coro e eletrônica, as 454 páginas da partitura trazem instrumentos como cavaquinho, violão e uma extensa e detalhada percussão popular.

"Toda a história, desde o primeiro ato, é contada de modo não linear, com a alternância de cenas de uma escola de samba que, em pleno século 21, prepara um desfile carnavalesco homenageando a arquiduquesa austríaca, imperatriz e mãe do Brasil independente", afirma Antunes, por email. Carioca nascido e criado em Santo Cristo, ele é professor aposentado da Universidade de Brasília, cidade onde vive desde 1973.

A abordagem séria com que ele e o libretista Gerson Valle apresentam personagens históricos como José Bonifácio e a própria Leopoldina contrasta com a visão cômica que caracteriza dom Pedro 1º. "Mas não o ridicularizamos", observa o compositor. "Na ópera o retratamos com muito realismo —mulherengo, extrovertido, prepotente, doidivana, machista e patriarcal."

"José Bonifácio, barítono, e Leopoldina, soprano, também são tratados, em belas árias e belas falas, com a seriedade dos personagens reais que traçaram um bom projeto de Brasil lá nos idos de 1820-1823. Apesar de monarquistas, esses dois personagens defendiam o fim da escravidão, e lutavam para que os índios tivessem direitos sobre suas terras de origem."

Antunes justapõe técnicas contemporâneas de escrita musical ao uso de gêneros populares, como valsa, lundu e samba enredo. É uma postura eclética comum em seu trabalho. "Pertenço à ala de compositores do bloco carnavalesco Pacotão, de Brasília. Para esse bloco sujo, irreverente e político, componho marchinhas todo ano."

"O que me deu mais trabalho foi a composição das valsas tocadas no primeiro ato de 'Leopoldina', na festa de casamento dela, por procuração, com o príncipe Pedro. Eu quis escrever valsas no estilo de 1817. As valsas que foram tocadas no baile, em Viena, em 13 de maio de 1817, foram compostas por Joseph Wilde. Eu não quis usar as valsas dele, preferi compor valsas minhas, no estilo de Wilde, estilo bem diferente das famosas valsas vienenses do Rei da Valsa, Johann Strauss 2º, o famoso autor do 'Danúbio Azul'", diz ele, acrescentando que este nasceu em 1825, oito anos depois daquele baile, e lançou suas primeiras valsas em 1844.

Brados retumbantes da história nacional, como "independência ou morte" e "se é para o bem de todos e felicidade geral da nação, digam ao povo que fico" recebem um tratamento vocal e instrumental irônico e crítico. "Foi um grande desafio musicar os dois momentos. Para a famosa frase do Dia do Fico, logo após o tenor dom Pedro culminar sua mensagem no agudo, num dó 5, os metais explodem, o coro off stage intervém em vocalizes e o trio Leopoldina-Pedro-Bonifácio repete a frase em contraponto de primeira espécie, isto é, nota contra nota."

Um dos momentos marcantes da trajetória de Antunes deu-se em 1984 com a "Sinfonia das Diretas", também conhecida como "Sinfonia das Buzinas". Nela, 180 carros enfileirados, com o som de suas buzinas previamente classificados por suas notas, interagiam com declamador, coro e grupo instrumental. A obra integrou uma carreata-showmício dentro da campanha das Diretas Já.

Sobre a oportunidade de manifestações com tal força hoje, em 2022, o músico é categórico. "É claro que há espaço, sempre, para novas manifestações artístico-políticas. Com democracia, com totalitarismo, com opressão, com repressão, esse espaço é sempre encontrado por todo artista que sabe cumprir plenamente com sua função social."

Lançada em 2006 no Theatro Municipal de São Paulo, "Olga", sua ópera mais conhecida –sobre a vida de Olga Benário, a militante comunista de origem judaica executada na câmara de gás– foi apresentada na Polônia em 2019-2020, com elenco estrangeiro cantando em português.

Antunes diz se interessar por protagonistas mulheres. "Admiro em especial as guerreiras que se destacaram na história. Sonho ainda compor uma ópera 'Anita', sobre Anita Garibaldi, e uma ópera 'Rosa', sobre Rosa Luxemburgo. Amo Leopoldina, que morreu aos 29 anos de idade após um aborto espontâneo que poderia não ter acontecido caso ela não tivesse sido humilhada com a presença de Domitila no palácio. A jovem Leopoldina arquitetou a independência e a formação de uma brasilidade."

Um dos pontos musicais culminantes de "Leopoldina" é, no terceiro ato, um samba-fúnebre. "Sim, a ópera não termina na morte de Leopoldina. A escola de samba desfila. O samba é triste, uma marcha-rancho. A professora Dina, uma líder comunitária ameaçada de morte por milícias, fantasiada de Leopoldina, é destaque da escola no alto de um carro alegórico. Essa personagem é interpretada pela mesma soprano que cantou durante toda a ópera interpretando o papel da imperatriz."

"Uma jornalista pergunta a ela como foi representar uma rainha, que viveu em um sistema político contrário às suas convicções. A resposta incorpora totalmente o pensamento, a luta, o ideário de Leopoldina. É uma longa ária bastante forte e comovente, que fala das utopias, dos anseios, das desilusões e das esperanças dela e do povo brasileiro."

"Leopoldina" é sobre um país que poderia ter sido e não foi; mas o coro final insiste na chegada de um tempo de mudança. "É assim, tem que ser assim, porque é com otimismo e esperança que eu vivo, faço arte e luto politicamente."

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