Mãe e filho escrevem nas testas “mãe de viado” e “viado” e viralizam na internet

Talita e o filho, Rafael Foto: Reprodução/ Facebook Kamille Viola

Por Juliana Gola 

Rafael tem apenas 15 anos, mas já tem bem claro seu posicionamento diante da sociedade. No último sábado, 29, durante a manifestação contra o candidato à presidência Jair Bolsonaro, no Rio de Janeiro, o garoto pediu a uma amiga que escrevesse em sua testa a palavra “viado”. O objetivo era tirar dos ofensores a ofensa, se apropriando do significado. “Rafael entende que é preciso se fazer presente, conquistar seu espaço e igualdade. Eu não poderia dizer que não, não tiraria sua oportunidade de protestar”, conta a mãe Talita Menezes, 44, que no mesmo instante pediu à mesma amiga que escrevesse em sua testa “mãe de viado”.

A foto com os dois viralizou na internet e ganhou grande repercussão. Entre ofensas e mensagens de apoio, o pai Fábio Pereira, 42, afirma estar lidando bem. “Rafael é jovem e óbvio que se empolgou com a repercussão. Ele é ativo quanto à sua orientação sexual e deseja o mesmo tipo de atitude na sociedade”, conta. Sobre as palavras pesadas atiradas virtualmente, como “lixo humano”, “escória da sociedade”, “isso não é normal”, “o pai deve chorar escondido no banheiro de desgosto”, “família desestruturada”, Fábio diz não querer devolver na mesma moeda. “Fiquei extremamente irritado, mas ele tem recebido apoio, solidariedade, muito amor e carinho de todos em volta, então creio que fizemos o certo e ele mais ainda, por ser essa linda pessoa corajosa da qual tenho um orgulho enorme”, completa.

A mãe conta que no Facebook foram mais mensagens de apoio do que ofensas. “Recebi no privado histórias de famílias e muitos elogios”, afirma. Pessoalmente também foi bem positivo o ato. “A maioria nos chamava de lindos e pedia para tirar fotos. Muitos rapazes me abraçavam e agradeciam, falavam de suas mães, eu me emocionei com alguns que relatavam não serem aceitos por suas famílias”, conta ela.

Rafael disse aos pais que era homossexual aos 10 anos. Na época, a mãe apenas frisou que ele era uma criança, que precisava dar tempo ao tempo. “O tempo passou e ele se reconhece como gay. Isso nunca foi um problema para mim ou para o pai, porém sempre tivemos muito medo dos outros. A maldade humana é muito grande”, fala Talita. E foi pensando na reação dos outros que Fábio se assustou quando viu os dois com os escritos na testa. “Primeiro pensei: Vocês estão malucos? Ostentar uma bandeira no meio de tanto discurso de ódio, tem de pensar bastante. Mas dei apoio”, diz ele.

Fábio e Talita são também pais de Felipe, de 12 anos, e sobre as escolhas de Rafael, se mostram completamente seguros em apoiar e acolher em suas diferenças. “Em primeiro lugar digo que o diferente não é anormalidade. Somos uma sociedade plural, seja por orientação sexual, credo, cor, profissões. Podemos divergir, mas nunca impor o próprio padrão”, discorre o pai, que alerta outras famílias: “Ao renegar seu filho, você está negando seu próprio coração. É como se despedaçasse a alma. Meus filhos, Rafael e Felipe, sãos as razões da minha vida, então espero que as pessoas que renegam seus filhos tenham consciência. O amor supera tudo!”

E Talita completa: “O mundo já será cruel com seus filhos. Em casa merecem acolhimento. Entendo que é muito difícil lidar com o que não entendemos, mas vamos pensar da seguinte forma: filho a gente ama e acolhe, o resto a gente dá um jeito. Ressalto que amar e acolher é aceitá-lo perante todos. É o mundo que precisa mudar, não os nossos filhos”.