CCXP 2018: atrizes de 'Ilha de Ferro' falam sobre o combate ao machismo

Sophie Charlotte como Leona e Maria Casadevall como Julia, suas personagens na série ‘Ilha de Ferro’ (Imagens: divulgação Globoplay)

Ilha de Ferro, série disponível na plataforma de streaming Globoplay, foi toda pensada a partir de situações-limite. O cenário principal é uma plataforma de petróleo, no meio do oceano, na qual o protagonista Dante (Cauã Reymond) trabalha como coordenador de produção. Dividido entre uma vida no mar e outra na terra, que envolve o casamento com a estudante Leona (Sophie Charlotte), ele tem a rotina já naturalmente tensa ficar prestes a explodir quando descobre estar sendo traído pela mulher e quando passa a ter uma nova chefe, Julia (Maria Casadevall).

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A conjuntura o deixa acuado, sem saber como lidar com o contexto. O machismo vai se revelando como um fator a mais no ambiente, fazendo com que tudo entre em combustão. Dante se sente incomodado em ter que responder profissionalmente a uma mulher, assim como não perdoa a traição da esposa, mesmo que ele próprio tenha sua cota de cercas puladas.

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“O machismo se apresenta de diversas formas na série, como na nossa cultura. Ele permeia todas as relações. Não só as relações afetivas, mas também as relações profissionais, formam uma cadeia de tensões”, define Maria Casadevall, em entrevista ao Yahoo! durante a CCXP, onde ‘Ilha de Ferro’ foi atração de um dos painéis.

A atriz fala sobre como chegou a concepção do personagem, um raro exemplo de mulher em posição de comando num ambiente predominantemente masculino. “Eu quis fugir um pouco do estereótipo. Embora a Julia procure um alinhamento físico [o cabelo curto, por exemplo, foi uma sugestão de Casadevall], uma austeridade para se colocar e chegar lá naquele ambiente, como se colocasse em si uma armadura, quis dar outro caminho na parte da personalidade”, explica.

“Vi como uma mulher é julgada pela aparência quando saiu a primeira foto da caracterização da Leona na internet” – Sophie Charlotte

“Ela não se coloca de maneira enérgica, ela não tem um tom de voz que é mais forte. Pelo contrário, ela tem uma certa doçura até. E ela é introspectiva, faz pouco uso da fala. Quando ela não precisa, ela não fala. A autoridade dela se expressa de uma maneira bastante humana, e não necessariamente reproduzindo um comportamento masculino”, completa. “Considero uma personagem extremamente feminina”.

“Ela desperta este incômodo no Dante, que não consegue definir a Julia de maneira instantânea. Ele fica um pouco atordoado com aquela figura, por não ter contato com uma feminilidade diferente do que a Leona expressa”, compara Casadevall.

Moralismo

Sophie Charlotte, que interpreta Leona, diz ter tido uma prova de como a sociedade ainda está presa a visões preconceituosas, ainda antes da série estrear. “Vi como uma mulher é julgada pela aparência quando saiu a primeira foto da caracterização da Leona na internet”, conta, se referindo ao figurino de roupas curtas usado pela personagem.

“A imagem foi postada e repostada, até que o terceiro veículo a publicar já estava definindo a personagem como uma garota de programa. E a Leona não é uma garota de programa! É um pré julgamento bem louco e bem forte. Diz muito mais sobre a pessoa que escreveu no veículo do que sobre a minha personagem”, afirma.

Ao longa da primeira temporada, o relacionamento entre Leona e Dante ganha contornos cada vez mais violentos. “A relação vira muito abusiva e corrosiva. Esse lugar de uma relação de opressão, quando se mistura com paixão e você já não sabe mais o que é o quê. Quando atinge um extremo na vida real, é chamado de crime passional, mas não tem paixão nenhuma nisso, é doença mesmo, de todos os lados”, conta Charlotte, que exerga com otimismo o fato de questões como essa poderem cada vez mais ser discutidas. “Foi interessante pesquisar isso e ir descobrindo como a gente está num processo de transformação. Não sei como essa personagem seria lida cinco anos atrás”.

Para o diretor Afonso Poyart, que trabalha em sua primeira série após longas-metragens como Dois Coelhos, Mais Forte que o Mundo: A História de José Aldo e o internacional Presságios de um Crime, todo este material é um ingrediente a mais para um roteiro que traz o limite em seu DNA.

“É uma decisão da narrativa fazer com que aquele cenário prestes a explodir a qualquer momento também se refletisse nas relações entre os personagens. Os relacionamentos são intempestivos, emergenciais. E o jeito que a gente sonorizou, editou, criou os cenários, é tudo muito à flor da pele, visceral”, justifica.

Durante a CCXP, foi anunciado que ‘Ilha de Ferro’ já tem garantida uma segunda temporada para 2019.