Músicos de Viena voltam ao palco após meses de silêncio

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Daniel Harding ensaia com a Orquesta Filarmônica de Viena antes da reabertura dis espaços culturais da Áustria, em 19 de maio de 2021

Músicos clássicos de Viena preparam-se para voltar a se apresentar ao vivo depois de longos meses sem público, período que pôs à prova a sua motivação e, em alguns casos, levantou dúvidas sobre a carreira.

Os músicos tiraram a poeira de seus instrumentos depois que a Áustria aliviou as restrições impostas pela pandemia e permitiu que os espaços culturais reabrissem em 19 de maio.

Laurent Delage, agente de cantores, compara o desafio que os músicos enfrentam ao de "atletas de elite tendo que ligar as máquinas novamente" após um período de inatividade.

No Golden Hall do Musikverein, considerada uma das melhores salas de concerto do mundo, está uma dessas "atletas": a francesa Sophie Dervaux, que toca fagote.

Ela ensaia uma sinfonia de Gustav Mahler e deseja se apresentar novamente ao público, pela primeira vez desde novembro passado, quando sua orquestra fez uma turnê pelo Japão.

"Não esperávamos que durasse quase 200 dias", disse à AFP a musicista de 29 anos.

Após os concertos desta semana em Viena, ela tem apresentações na Dinamarca e na Noruega, enquanto a Europa reabre para os viajantes.

Dervaux ingressou na Filarmônica de Viena há seis anos, um cargo vitalício. Mas a pandemia fez com que ela enfrentasse tempos "muito, muito difíceis".

"Eu me perguntava: 'Por que trabalhar? Por que praticar escalas se não tenho shows?'", contou.

Depois de deixar o fagote de lado por um tempo, ela encontrou alguns projetos alternativos, como gravar discos, para manter o ânimo e evitar a ferrugem.

- Reencontro -

Daniel Froschauer, primeiro violinista e presidente da Filarmônica de Viena, diz que os concertos transmitidos pela Internet acabaram sendo "projetos musicais incríveis que o mantiveram musicalmente vivo" durante a pandemia.

Vários músicos encontraram alívio nessas apresentações online, independentemente de serem produções profissionais ou organizadas pelos próprios músicos e transmitidas nas redes sociais.

Mas mesmo Froschauer, de 55 anos, admitiu que esses concertos virtuais sempre foram "um pouco insatisfatórios".

"Quando você toca para um público, sua resposta é algo que não pode ser subestimado", como ele redescobriu semanas atrás quando tocou no Scala de Milão.

Antes da pandemia, Viena tinha cerca de 15.000 concertos por ano, tornando-se um dos cenários de música clássica mais ativos do mundo.

Delage, o agente de 52 anos, explicou que os cantores da cena da música clássica "precisam encontrar sensações que perderam por mais de um ano", para "voltar a uma performance tridimensional".

Alguns deles constataram que a pandemia os deixou com "músculos e nervos frouxos", enquanto outros "se perderam, é muito desestabilizante".

- "No limite" -

"A expectativa é como o primeiro dia de aula", comenta o tenor Michael Schade. "São muitas emoções".

A caminho de seu primeiro concerto presencial do ano, admite sentir um certo desconforto com relação ao futuro.

"Somos como pacientes em coma que acabaram de acordar e ninguém sabe quanto dano foi causado", compara, expressando seu medo de que a indústria da música tenha sofrido danos de longo prazo.

Ele teme que, para pequenas organizações e eventos, seja muito mais difícil voltar aos negócios.

O diretor de ópera Benjamin Prins foi particularmente atingido no ano passado, que qualificou de "desastre financeiro". "Perdi 70% da minha renda", admite.

"Se consegui sobreviver, foi graças às economias", acrescentou, embora reconheça que isso não o salvou do devastador efeito psicológico da pandemia. "Estou no limite".

Prins teme que, a longo prazo, os efeitos do coronavírus ponham fim às produções "imensas e cosmopolitas" que sustentam a indústria da ópera.

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