Música ajuda a compor surrealismo em 'Technoboss'

SÉRGIO ALPENDRE

FOLHAPRESS - Luís Rovisco é diretor comercial da empresa SegurVale, e o responsável pelas vendas de um novo aparelho de segurança chamado Technoboss. É também o responsável pelas instalações do aparelho em hoteis e outros estabelecimentos comerciais.

Mas a idade parece atrapalhá-lo profissionalmente. Seu maior desafio é provar, à beira da aposentadoria, que ainda está apto a realizar o trabalho e solucionar problemas.

Resumida assim, é bem banal a trama de "Technoboss", novo longa de João Nicolau, exibido no Festival de Locarno de 2019 e na 43ª Mostra Internacional de São Paulo. Depende de uma direção precisa, que não vimos nos longas anteriores do diretor (nem mesmo no badalado "John From").

Porém, dois elementos inusitados surgem para temperar o relato: as cantorias, que enfeitam as viagens de Luís pelas estradas portuguesas de maneira lúdica e arriscada; as ligações que ele recebe, sem qualquer aparelho telefônico, apenas pelo ar, e da mesma forma telepática põe-se a conversar com quem lhe telefonou.

Essas duas características significariam um grande risco, não fosse a presença de um ator que na verdade não é ator (havia feito duas pontas em longas dos anos 1990, e só): Miguel Lobo Antunes, jurista de formação, tornou-se programador cultural e é irmão do famoso escritor António Lobo Antunes.

Talvez os elementos estranhos funcionem pela ausência de técnica na composição do ator, resultando em algo como um personagem de Ozu perdido numa versão portuguesa de Jacques Tati.

A escolha de Antunes para viver Luís Rovisco é mesmo um dos acertos de Nicolau, neste longa que comprova um feliz amadurecimento e um providencial resgate da vitalidade de seus curtas.

Outro dos acertos é investir nas reações inusitadas do protagonista, que se mostra como uma espécie de continuador de João de Deus, famoso personagem criado e interpretado pelo cineasta João César Monteiro (de quem Nicolau é obviamente herdeiro).

É um modo de desenvolver uma perspectiva meio surrealista, que as músicas e a artificialidade de alguns cenários ajudam a compor (nos dois casos).

Como exemplos dessa artificialidade podemos falar das pinturas que representam a paisagem no caminho do Algarve, a pedra no sapato do protagonista -é Luís Rovisco que demonstra preconceito contra os algarvios, não o filme, nem seu diretor.

Mas há também o curto episódio da ida a Sevilha, todo filmado com fundo negro, explicitando a impossibilidade de rodar em locações espanholas.

Essa artificialidade tem sido há muitos anos a maneira como os cineastas portugueses driblam os baixos orçamentos. João César Monteiro a utilizou bastante no clássico "Silvestre" (1982) e mais recentemente João Botelho fez um belo filme, "Os Maias", com cenários desenhados para representar Lisboa no século 19.

Com "Technoboss", João Nicolau se apropria dessa característica colateral da estética portuguesa e da recusa ao naturalismo que sempre a marcou e realiza seu melhor longa.

TECHNOBOSS

Produção Portugal/França, 2019

Direção João Nicolau

Elenco Miguel Lobo Antunes, Luísa Cruz, Américo Silva

Quando Estreia nesta quinta (12)

Classificação 10 anos

Avaliação Muito bom