'Mérito' encerra trilogia impecável de Rachel Cusk com chave de ouro

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Não é incomum que continuações sejam um tantinho decepcionantes, ou que séries de livros tenham seus altos e baixos. Não é o caso aqui. "Mérito" encerra com chave de ouro a já aclamada --e impecável do início ao fim-- trilogia de Rachel Cusk.

Como nos dois anteriores --"Esboço" e "Trânsito", que também contam com a excelente tradução de Fernanda Abreu--, o argumento é simples. Tudo se resume aos encontros da narradora, Faye, com uma série de personagens que relatam, em conversas informais que não obstante são profundas e reveladoras, episódios de suas vidas. Neste, Faye, que é escritora, participa de eventos literários em diferentes países.

O que parece passividade, uma vez que Faye se manifesta bem menos do que seus inúmeros interlocutores, é na verdade um esforço ativo de perceber, selecionar, organizar e narrar. Também do leitor é exigido o mesmo, de modo que as resenhas da trilogia, embora quase sempre elogiosas, tendem a ser bem diferentes entre si.

É difícil e injusto definir o tema central de livros tão ricos e complexos, e minha definição --o que percebi, selecionei, organizei e estou como que narrando aqui para você-- já é por si só parcial.

De modo geral, é possível dizer que o primeiro volume se dedica a mostrar que o real, ou o próprio realismo, não passa de uma convenção entre outras, enquanto o segundo se concentra no "doloroso estado de autoconsciência em que as ficções humanas perdem sua credibilidade", para citar um trecho de "Mérito".

Faye, que é divorciada e mãe de dois filhos, ouve, neste terceiro volume, relatos que parecem questionar a proporção de sorte ou do próprio mérito em uma trajetória. Mas o que está no centro destes relatos são os vínculos e as relações familiares, e a herança ou o legado devem ser vistos, aqui, como as narrativas que escrevemos em conjunto --narrativas que nos moldam tanto quanto nós as moldamos.

Os relatos que Faye escuta, como diz uma tradutora portuguesa, são de "experiências que não pertencem integralmente à realidade", ou seja, experiências compostas por sentimentos, sensações, impressões, intuições, palpites, suposições e hipóteses, e por isso mesmo confusas, intricadas e difíceis de serem postas em palavras.

Não à toa, nossa maneira de reter, recordar e relatar o que nos acontece é um dos pilares de toda a trilogia.

Em certa passagem, por exemplo, uma escritora, também ela portuguesa, diz ter ficado grata quando o filho começou a reparar em certas coisas por si mesmo, o que lhe tirou momentaneamente o fardo da percepção e da necessidade de contar a própria história --antes de lembrar que esse "fardo" é também a razão pela qual ela vive.

Creio que seja a seguinte definição frouxa que conecta os diferentes episódios da trilogia: o fardo e a alegria compartilhados de viver para contar.

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MÉRITO

Preço R$ 59,90 (192 págs.); R$ 46,90 (ebook)

Autor Rachel Cusk

Editora Todavia

Tradução Fernanda Abreu

Avaliação: Ótimo

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