Luyara Franco: “Entendi o meu lugar como filha de Marielle”

Foto: Fabio Vieira/FotoRua/NurPhoto via Getty Images

Texto: Simone Freire e Pedro Borges

Luyara Franco, 21 anos. O reconhecimento do nome, infelizmente, veio por uma tragédia. A morte da mãe, Marielle Franco, em 14 de março de 2018, fez a presença da estudante de Educação Física da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), ser notada, até mesmo quando ela não queria.

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De uma jovem que já carregada traumas profundos da juventude, o assassinato da mãe intensificaram crises de choro, de pânico. Dias de altos e baixos, a mudança para a casa dos avós… um período de grande turbilhão de sentimentos, somando a isso, o mundo que a volta pedia por declarações, posicionamentos e até mesmo militância.

O processo de luto para a filha da ex-vereadora do PSOL não foi nada simples. “Foi um processo bem doloroso. Eu costumo falar que o que mais pegou para gente, claro que é um sofrimento quando outras pessoas perdem entes queridos - elas também sofrem -, mas minha mãe se tornou uma luta né?”, disse. 

O luto para Luyara estava em todo lugar, nos diferentes espaço em que transitava, inclusive na faculdade onde há um stencil de Marielle na parece, com a mesma altura dela. 

“O luto não era uma parada minha que eu vou ficar com meus problemas e meus demônios. Era algo muito mais aberto, todo mundo sabe quem a gente é, todo mundo sabe que ela [Luyara] tá mal porque a mãe dela que faleceu”, recorda.

Mas de uma jovem calada, sentada aparentemente abatida na sala da casa dos avós ao receber a equipe de reportagem do Alma Preta no marco de um ano do assassinato de sua mãe e de seu motorista, o último ano parece ter dado novos ares à Luyara. Desta vez, ela brincou, deu risada e foi firme quando as perguntas exigiram. 

Luyara encontrou maneiras de dar novos significados para a relação de carinho com a mãe, fatores descritos como importantes para enfrentar o luto. Hoje, além de estudar, ela é assessora da deputada estadual Renata Souza (PSOL).

Outro ponto de partida para seguir em frente é o Flamengo. “Eu costumo falar que uma das coisas que era minha e dela, era esse nosso momento de assistir o jogo do Flamengo”, diz.

A torcida Flamengo Antifascista, inclusive, leva aos estádios uma bandeira com o rosto da ex-vereadora. “Na época que aconteceu a tragédia lá no ninho [CT do Flamengo em que jovens faleceram após um incêndio], foi uma parada que me marcou muito assim. Eu tenho certeza que ela [Marielle] era uma das que estaria de frente nisso, lutando por Justiça e cobrando resposta do próprio Clube, sabe?”, diz Luyara.

Torcedora fanática como a mãe, Luyara também se mobiliza para reunir amigos em casa para assistir jogos do rubro-negro. Na final da Libertadores de 2019, convidou cerca de 30 amigos para um churrasco, para ver o jogo, quando a equipe carioca se consagrou campeã do torneio. 

“Eu tinha outra amiga aqui que a mãe dela tinha falecido há pouco tempo também. E aí, quase no final do jogo, nos últimos minutos, eu ajoelhei dentro do quarto e ela se ajoelhou um pouco fora assim, mas eu conseguia ver ela. Aí foram as duas, eu pedindo pra minha mãe, ela pedindo para a mãe dela, sabe? E aí na hora eu sentei e a gente fez o gol. Aí eu disse: é isso mesmo que tem que acontecer. Logo em seguida, a gente virou e só festa. Tenho certeza que ela tá muito feliz e é esse ponto nosso de conexão”, diz.

Outro motivo de felicidade para Luyara e o restante da família é o Instituto Marielle Franco. O projeto era um sonho, já desenhado pela família desde 2018, e que se materializou em 2020. Ainda com um lugar provisório, mas com projetos e atividades em andamento, o Instituto também tem despertado sonhos na estudante.

“Eu quero muito fazer algo com esporte pra ver essa molecada entendendo o corpo dentro da sociedade. Usando o esporte como forma de instrumento de luta”, disse. “Eu escrevi um artigo sobre as práticas do pensamento da opinião na educação física, de entender que aquele também é um ambiente de trabalhar os valores. De trabalhar coisa que não vão ficar fechadas só a professor de sociologia ou geografia. Que a gente pode entender o corpo e esporte como meios de transformar”, pondera.

As perspectivas da jovem é de estar cada vez mais ao lado da tia, Anielle Franco, impulsionando o instituto que leva o nome da mãe. “Hoje eu fico assim meio tímida ainda, mas entendi o meu lugar como filha. Entendi meu lugar com mulher negra também. Acho que aos poucos, agora com o Instituto também, a gente está, eu com a minha tia, conseguindo se entender. E eu consegui [me] sentir confortável nesse lugar. Que querendo ou não a gente fica muito exposto”, salienta.