4 meses depois, Lula joga toalha do impeachment de Bolsonaro

Matheus Pichonelli
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Former Brazilian president Luiz Inacio Lula da Silva delivers a speech during an event on the theme
O ex-presidente Luiz Inacio Lula da Silva. Foto: Fabrice Coffrini/AFP (via Getty Images)

Em outubro de 2020, quando a curva de mortes e contaminações era decrescente e a aprovação do governo Jair Bolsonaro empatava, tecnicamente, com a sua rejeição (37% contra 34%), o ex-presidente Lula foi a público defender o impeachment do capitão.

Em seu Twitter, ele escreveu: “Se a sociedade, os partidos e os parlamentares, precisavam de um motivo para discutir o impeachment, Bolsonaro acaba de cometer um crime contra a nação ao dizer que não vai comprar a vacina e desrespeitar um instituto da seriedade do Butantan e toda a comunidade científica".

Quatro meses depois, Bolsonaro continuou dando motivos para ser impedido.

O atraso em adquirir o imunizante, o aumento dos casos de infecção e mortes, o colapso do sistema de saúde em Manaus por falta de oxigênio e o fim do auxílio emergencial fizeram com que sua popularidades sofresse um abalo. Hoje, segundo o DataPoder, o presidente é rejeitado por 48% da população.

Então a hora é essa?

Segundo Lula, não.

Em entrevista a Kennedy Alencar, no UOL, o ex-presidente disse que agora, quatro meses depois defender o afastamento, é tarde para iniciar um processo. O que, além da defesa repentina e meia-boca do capitão em relação às vacinas, mudou de lá pra cá?

De acordo com o petista, o momento agora é outro, já que a corrida eleitoral de 2022 (daqui um ano e oito meses, portanto) se aproxima. Além disso, Bolsonaro acaba de emplacar um aliado, Arthur Lira (PP-AL), no comando da Câmara, onde o processo poderia ter início. 

“Se a gente não conseguiu colocar o impeachment em votação com o Rodrigo Maia, certamente a gente não vai conseguir com o Lira. Então, falando abertamente com o povo brasileiro, eu não acredito que haja tempo, agora, de fazer o debate de um impeachment; e nem o Lira vai colocar impeachment em votação”, avaliou.

A resignação parece ser providencial. Por ora, a aliança Bolso-Lira sela também uma espécie de aliança anti-Lava Jato, inimigo comum e domesticado que une direita e esquerda, procurador-geral e cortes superiores. Provar na Justiça a suspeição do ex-juiz Sergio Moro é a prioridade do ex-presidente no momento, ainda que a anulação de seu processo no caso do triplex não devolva e ele os direitos políticos para concorrer em 2022 —há ainda o caso do sítio em Atibaia (SP).

Seja como for, o novo posicionamento de Lula ecoa a estratégia defendida nos bastidores, por parte da oposição, de que Bolsonaro, com parte do Congresso na mão, conseguiria facilmente mais de um terço de apoio na Câmara, barraria o impeachment, e chegaria fortalecido a 2022. Ganharia também a pecha de presidente perseguido pela esquerda e todo o bla-bla-bla que só serve para energizar a militância mais oca.

Por isso o consenso agora é deixar o presidente sangrar e se enroscar com os próprios erros para iniciar a disputa pela sucessão em outro patamar. 

Na hora do vamos ver, afinal, os aliados de hoje no centrão podem ser os primeiros a desembarcar amanhã de um projeto de impopularidade tóxica. 

Em 2015, quando a popularidade de Dilma Rousseff chegou ao volume morto, uma parte da oposição a ela defendia a mesma estratégia: deixar sangrar até a eleição seguinte. Mas havia ainda mais de dois terços do mandato até lá.

Outro fator que por ora inibe os esforços pelo impeachment senta-se na cadeira da Vice-Presidência. Embora, à direita, Hamilton Mourão seja considerado uma versão mais diplomática dos arroubos do atual presidente, para a esquerda seria arriscado demais trocar um capitão por um general a essa altura.

A última vez que os generais sentaram numa cadeira presidencial para uma suposta transição democrática foi em 1964. Levaram 21 anos para se levantar.