'Vestir saia é uma libertação', diz Luiz Fernando Guimarães sobre papel de mulher

*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, BRASIL, 11.08.2016 -  O ator Luiz Fernando Guimarães durante entrevista no Hotel Mercure São Paulo Ginásio Ibirapuera, na zona sul de São Paulo (SP).  Luiz Fernando Guimarães estreia no Teatro Gazeta, em São Paulo (SP), o espetáculo
*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, BRASIL, 11.08.2016 - O ator Luiz Fernando Guimarães durante entrevista no Hotel Mercure São Paulo Ginásio Ibirapuera, na zona sul de São Paulo (SP). Luiz Fernando Guimarães estreia no Teatro Gazeta, em São Paulo (SP), o espetáculo

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Dentista que é assim, ele pergunta: 'E aí, como é que está a vida?', mas antes de você responder já emenda: 'Abre a boca'." A comparação é feita por Luiz Fernando Guimarães, 72, no camarim do espetáculo "Ponto a Ponto - 4.000 Milhas", que está em cartaz em São Paulo.

Momentos antes, ele tentava responder à reportagem da Folha S.Paulo enquanto a maquiadora passava batom em seus lábios. Era parte da caracterização para viver a nonagenária Vera, protagonista do espetáculo. Na peça, ela recebe a visita do neto, vivido por Bruno Gissoni, e as diferenças geracionais começam a gritar.

O processo de transformação na personagem chega a durar 40 minutos. "A Vera é muito vaidosa, sabe?", explica ele. "Ela é uma senhora muito vaidosa com todas as características que isso implica."

Apesar de já ter interpretado mulheres antes, Luiz Fernando diz que dessa vez tem sido diferente. No humorístico "Acredita na Peruca" (Multishow), por exemplo, ele deu vida à socialite falida Maria Eleonora Monteiro de Alcântara. "Era outro tipo de comportamento, era televisivo, caricato, mais para TV Pirata, digamos assim", compara. "Se a peruca caísse a gente tirava vantagem."

Desta vez, o humor tem um pé na realidade. Vem de situações mais corriqueiras, sobretudo da rabugice de Vera, que não tem mais a paciência de antes. "A geração mais antiga tem muita coisa da geração mais nova", afirma. "Eu acho que o mais velho vai ficando mais infantil."

Para dar veracidade à idosa, ele procurou atuar da forma mais natural possível. "E a mulher vai ficando mais masculina, o homem vai ficando mais feminino... Posso não estar certo, mas é um conhecimento que eu fui adquirindo com a peça, na procura da personagens, de pessoas mais próximas que me inspirassem nessa construção."

Luiz Fernando diz que tem sempre teve uma relação forte com as mulheres da família, como sua mãe e sua avó, então não sente dificuldade em montar um espetáculo como alguém do sexo oposto. Além de tudo, também tem sido uma experiência catártica para o ator. "Eu estou gostando de vestir saia", conta. "Vestir saia é uma libertação para o homem. É muito bom! Agora ruim é ter que usar sutiã, realmente foi a única coisa que não gostei."

O resultado tem valido à pena, com a peça lotando plateias. "Eu acho que o tema é universal, todo mundo se identifica de alguma forma, independentemente da idade, porque todo mundo tem alguém na família", avalia. "Tive uma experiência muito interessante com uma senhorinha lá no Rio que queria saber da minha maquiagem e comentou sobre a irmã chata que ela tinha. Me deu uma vontade imensa de abraçá-la. É bonito isso, mesmo eu saindo depois que tiro a maquiagem, sabe? Elas ficam esperando lá para tirar foto, falam sobre o assunto. É bem bom."

O tema do espetáculo também é muito caro ao próprio Luiz Fernando, que diz ainda ter dificuldade de se enxergar como alguém da terceira idade. "Eu acho que, para um cara de 72 anos, eu estou muito bem e a vida sorriu para mim, não tenho do que reclamar", afirma.

"Não foi uma coisa assim que eu fui pensando... 'Ah, vou ter 70', 'vou chegar a 68'.... Foi uma coisa que foi acontecendo", lembra. Ele diz que só percebeu a passagem do tempo quando uma amiga comentou com ele que ele não precisaria mais pegar fila nem pagar passagem no ônibus. "Aquela hora eu fiquei arrasado", diz. "Não era como eu me sentia, eu falava: 'Bom, se eu for furar uma fila a pessoa vai me achincalhar ou achar que é uma pegadinha."

Por outro lado, a maturidade lhe trouxe outros benefícios. "Depois de mais velho, eu comecei a festejar minha vida", conta. Entre outras coisas, ele começou a fazer festas de aniversário, algo que ele não gostava antes. "Sou muito festeiro e eu não era, era muito tímido para isso. Eu acho que a idade faz com que você celebre mais as coisas, as conquistas. Era uma coisa que eu talvez eu não valorizasse tanto quanto valorizo agora. "

Também foi só recentemente que Luiz Fernando começou a dividir mais com o público um pouco de sua vida pessoal. Em 2018, ele tornou público o relacionamento com o empresário Adriano Medeiros, com quem se casou no ano seguinte, após duas décadas juntos. O casal adotou os irmãos Olívia e Dante em 2020.

"Foi uma mudança total na minha vida", confessa. "Ser pai é lindo, tenho aproveitado bastante essa experiência. Eu já era pai, só faltava o filho. Porque eu sempre fui muito cuidador com os outros, sabe? Então, quando eles vieram, eu só botei para fora."

Ele conta que as duas crianças já o viram no espetáculo, e que Olívia, em particular, adora quando ele se maquia. "Ela acha lindo", conta, orgulhoso. A personagem Vera, aliás, já virou quase uma nova avó para a dupla. "Eles só tem uma avó mais nova [mãe de Adriano], que não é tão oxigenada (risos)", brinca. "O Dante, por exemplo, adora joguinho, então quando ele vem a Vera fala para ele que pode jogar, mas só um pouquinho (risos)."

"PONTO A PONTO - 4.000 MILHAS"

Quando Sexta e sábado, às 20h30; e domingo, às 19h. Até 21 de agosto

Onde Teatro B32 (av. Brig. Faria Lima, 3.732, Itaim Bibi, São Paulo)

Preço De R$ 60 a R$ 140

Elenco Luiz Fernando Guimarães, Bruno Gissoni e Renata Ricci

Direção Gustavo Barchilon

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