Luiz Alberto Mendes era um talento preso no Carandiru, diz Drauzio Varella

MARINA LOURENÇO
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 27.01.2020: Médico Drauzio Varella durante exibição do filme

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Era uma manhã de sábado chuvosa quando o médico Drauzio Varella conheceu o escritor e então presidiário Luiz Alberto Mendes, na penitenciária do Carandiru, em São Paulo. "Tem um cara aí que escreve muito bem, quero que você conheça", é o que Drauzio lembra de ter ouvido do amigo dramaturgo Fernando Bonassi em 1999.

Na época, Bonassi escrevia o roteiro do filme "Carandiru" e frequentemente realizava atividades no presídio, como programações de incentivo à leitura e à escrita. Foi com esse tipo de atividade que ele conheceu Mendes, autor do livro "Memórias de um Sobrevivente", morto em 9 de abril, vítima de um aneurisma. Antes de ser publicada e se tornar um sucesso nacional, a obra -totalmente escrita à mão, dentro das celas e dos corredores do Carandiru- impressionou o dramaturgo, que recomendou a leitura a Drauzio.

"O livro que escrevi na época ["Estação Carandiru"] é sobre um médico que entrava e saía da cadeia a hora que bem entendesse. O dele não. O dele falava de uma pessoa que estava ali, presa, privada de sua liberdade", diz o médico, que trabalhou voluntariamente na penitenciária por mais de uma década e afirma que a superlotação no sistema carcerário brasileiro tem piorado cada vez mais.

"A gente achava que a Casa de Detenção de São Paulo, no Carandiru, era o fim do mundo", diz ele. "A quantidade de presos era o dobro do que o espaço suportava. Mas hoje em dia isso é normal no país. Todas as cadeias estão superlotadas. Tem até algumas com o número de presos cinco vezes maior do que a capacidade máxima. Do tempo do Luiz pra cá, muita coisa piorou."

Quando finalizou a leitura dos escritos de "Memórias de Um Sobrevivente", Drauzio marcou uma conversa com Bonassi e Mendes. "Nos reunimos na sala do departamento de esportes", diz. No encontro, Mendes estava visivelmente inquieto e reclamava de dores. Após analisar os sintomas do presidiário, o médico diagnosticou uma cólica renal e o levou à enfermaria para aplicar uma injeção anti-inflamatória. A mendicação fez Mendes melhorar e ambos puderam, então, conversar sobre o livro.

Drauzio prometeu que levaria a obra à editora Companhia das Letras para ser analisada. "Disse que não estava prometendo nada. Cadeia é assim, você tem que dizer o que pode e o que não pode com clareza. Se o preso achar que você pode, mas você não fizer, aí você se desmoraliza."

As páginas escritas à mão foram entregues à então diretora editoral Maria Emília Bender, que leu e, em seguida, ligou a Drauzio para dizer que tinha adorado o livro e queria publicá-lo.

Após o sucesso de "Memórias de Um Sobrevivente", publicado em 2001, o autor escreveu mais dois volumes -"Às Cegas", em 2005, e "Confissões de um Homem Livre", em 2015-, ambos lançados quando ele já estava em liberdade, após cumprir 31 anos e dez meses de prisão.

Quando soube da recente morte de Mendes, Bonassi o definiu como "um clássico autodidáta do século 20 que produziu obras tão boas quanto as do filósofo russo Dostoievski."

Luiz Alberto Mendes morreu, aos 68 anos, no dia 9 de abril após ser hospitalizado em estado grave devido a um anuerisma. "Ele não tinha formação literária, ele tinha talento literário, uma facilidade para contar histórias", diz Drauzio.

O médico diz também acreditar que agora o Brasil, com a pandemia do novo coronavírus, "pagará o preço da desigualgade social que trata com naturalidade".

"Quem mora em um bom apartamento consegue se isolar, mas e quem mora em um cômodo com cinco crianças?", questiona ele.