Relatos como o de Luisa Mell mostram a impotência feminina em relação ao próprio corpo

·6 minuto de leitura

Resumo da Notícia:

  • O caso Luisa Mell: lipo sem consentimento

  • Mulheres relatam histórias pessoais ou de conhecidas como de Luisa

  • A violência médica e obstétrica no Brasil

Na última semana, a história de Luisa Mell chocou muita gente. A apresentadora, que está passando por um divórcio, revelou que foi vítima de violência médica, ao ser submetida a uma lipoaspiração sem o seu consentimento.

Em entrevista ao portal "Na Telinha", Luisa explicou que o seu dermatologista ofereceu um novo procedimento, que poderia ser feito no consultório sob anestesia, só por precaução. Ao acordar, no entanto, descobriu que o médico também fez lipoaspiração nas axilas da apresentadora porque ela "tinha muita gordura" na região.

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A história viralizou e, no Twitter, uma usuária que se identifica como médica em fase de especialização em dermatologia, comentou que soube de histórias semelhantes: "Se eu contar que conheço um homem que contou todo orgulhoso (médico) que quando a mulher foi fazer uma lipo, ele conversou com o [cirurgião] plástico e pagou e mandou ele botar silicone nela (sem ela saber). Quando ela acordou ela tava com próteses mamárias sem nunca ter solicitado.", escreveu.

Até o momento de redação deste texto, o tuíte já acumulava mais de 1.544 comentários e 1.756 retuítes. Muitas das respostas, aliás, relatavam outros casos parecidos, demonstrando que essa é uma violência mais comum do que se imagina.

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"Eu tenho uma amiga que teve as trompas laqueadas sem seu consentimento, a mando do marido. Ela ainda queria ter filhos", escreveu uma internauta. "E eu gente, faltando três meses pra casar fui fazer uma lipo na barriga. Acordei e o médico tinha colocado a gordura na minha bunda, sendo que eu fui clara que não queria. A justificativa dele: mas é assim que é bonito. Os pontos infeccionaram e ganhei cicatriz pra vida, isso sim.", escreveu outra.

"Quando eu diminui [a prótese nos seios], eu pedi um tamanho e a equipe (só homens) deixou bem maior por acharem + bonito. Continuo tendo os mesmo problemas de saúde que antes da cirurgia, tive complicações no pós e operar sem anestesia geral 2 vezes porque era grande d+ e não fechava a pele", disse mais uma.

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A falta de poder da mulher sobre o próprio corpo

"Consentimento" é uma palavra tão em alta por um motivo. Pelo dicionário, significa "permissão" ou "licença". Ou seja, é um sinal de concordância. Em relação à questões médicas tão sérias, como uma cirurgia que pode ter sequelas ou complicações pós-operatórias, é o mínimo que o paciente esteja ciente e de acordo com tudo o que vai acontecer na mesa de cirurgia - salvo, claro, em casos de emergências médicas ou complicações que surjam na hora da operação.

No entanto, as histórias relatadas por Luisa e por todas as outras mulheres que participaram do tuíte citado acima têm algo em comum: a impotência feminina em relação ao próprio corpo. De forma prática e bem conhecida, a questão do aborto é uma das que mais ilustra como isso acontece. Com a classe médica, a Igreja e até o Estado tomando partido na maneira como as mulheres devem se comportar na esfera pública, os papéis que devem assumir e as funções que lhes cabem, socialmente falando, a decisão por dar continuidade ou não a uma gravidez deixa de ser da mulher e passa a ser, sim, das autoridades - em sua maioria, homens brancos.

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Curiosamente, o número mais impressionante que se tem em relação às crianças no Brasil é de abandono parental: mais de cinco milhões de crianças não têm o nome do pai na certidão de nascimento - isso pode acontecer por muitos motivos, mas sabe-se que pode ocorrer tanto porque o homem decidiu não assumir a responsabilidade pela criança, quanto porque desapareceu (propositalmente) depois de saber que engravidou a mulher.

Falando em gravidez, outro ponto em que essa questão é óbvia é na obstetrícia. O número de mulheres que relatam violência na hora do parto é bastante grande, com relatos que vão desde de uma episiotomia desnecessária (o corte na lateral da vagina para facilitar a passagem do bebê deve ser utilizado apenas em casos extremos, mas virou regra), até procedimentos como o "ponto do marido" que, além do nome machista, prevê apertar a vagina, que supostamente ficaria alargada após o parto. Como se pode imaginar, o procedimento é comumente feito sem o conhecimento ou consentimento da mulher, e pode gerar incômodos futuros para ela - até mesmo dor na hora do sexo.

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Isso, sem contar, a cesariana. Ela é considerada comum por aqui, mas isso vai contra as recomendações da própria Organização Mundial da Saúde. Segundo a OMS, entre 10 e 15% dos partos deveriam ser cesarianas, atendendo às necessidades médicas da mãe e do bebê. No Brasil, fala-se até em um "epidemia de cesárias": até 55% dos partos acontecem de forma cirúrgica por aqui.

Some a isso ainda os casos de abuso sexual em consultórios médicos, e ser mulher no Brasil se torna ainda mais complicado. Não existem números compilados relativos a essas denúncias, mas o número de casos, inclusive famosos, de médicos que foram denunciados por dezenas de mulheres são prova o suficiente de que isso também acontece.

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Dessa maneira, o que se percebe é que as mulheres ainda sofrem violências absurdas por desejos masculinos. Seja sexual ou por conta de um padrão que esse homem considera "ideal", as mulheres se veem em posição de vulnerabilidade por não terem poder de decisão sobre o que fazerem (ou não) com os próprios corpos. Com esses relatos, é justificado o medo que tantas mulheres sentem de fazerem tarefas simples, como receber um técnico (homem) em casa para instalar a internet ou ir a uma consulta médica.

Por isso, de forma a gerar uma mudança, o melhor a ser feito é ter mente a possibilidade de denúncia. Para isso, em casos de violência física, sexual ou moral, basta discar 180. Para questões de violência médica ou obstetrícia, o ideal é buscar aconselhamento jurídico, no entanto, é possível também entrar em contato direto com o conselho médico regional do seu estado ou gerar um boletim de ocorrência na delegacia mais próxima.

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