Ludmilla mostra lado pagodeiro em disco que foge do funk e do pop

LUCAS BRÊDA
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 27.06.2016: Cantora Ludmilla durante gravação de seu clipe, em São Paulo. (Foto: Adriano Vizoni/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - No ano passado, Ludmilla recebeu uma ligação de sua mãe, que estava num show do grupo de samba Vou pro Sereno. "Eles estavam gravando um DVD, eu não sabia, e me chamaram para cantar", diz a cantora. "Pensei em uma música que eu curto, 'Teu Segredo', eles gravaram, botaram no YouTube e explodiu."

Publicado em agosto, o vídeo de Ludmilla interpretando a faixa do Exaltasamba destacou uma faceta antiga, mas pouco conhecida da artista --a de pagodeira.

O sucesso do vídeo, já quase tão acessado quanto o da música original, e sua habilidade para entoar o samba romântico geraram uma comoção nas redes sociais.

O resultado desse fenômeno é um EP inteiramente dedicado ao pagode, previsto para abril - mas, nesta quarta-feira, ela lança suas primeiras músicas - "Faz Uma Loucura por Mim", regravação de Alcione, e "A Boba Fui Eu", da própria Ludmilla, na plataforma Spotify Singles.

"Comecei a cantar por causa do pagode", diz a cantora. "Tinha um padrasto que era de um grupo, então a gente sempre acompanhava. Cresci ouvindo nomes como Alcione, Belo, Pixote."

A primeira vez que ela subiu num palco, quando tinha oito anos, foi para cantar o ritmo. "Como profissão, já que gosto de dançar, optei por funk e pop. Mas o pagode sempre habitou dentro de mim."

Uma de suas referências, Alcione, é homenageada no novo trabalho. "Amo os papos que ela dá nas músicas", diz. "Vivemos uma época maravilhosa para as mulheres, mas, se formos pensar, a Alcione está desde lá atrás falando sobre empoderamento."

A faixa não destoa do trabalho de Ludmilla, principalmente se posta ao lado de "A Boba Fui Eu", que trata de uma paixão não correspondida. "Sempre fui assim nos meus relacionamentos. Nunca fui de mendigar por amor. Minhas músicas falam disso."

A incursão de Ludmilla por pandeiro e cavaquinho vem no auge de sua carreira. Depois de despontar como funkeira e entrar no pop mainstream, ela compôs no ano passado "Onda Diferente", hit de Anitta, gravou um funk ainda não lançado com a rapper americana Cardi B, cantou no Rock in Rio e lançou seu primeiro DVD, "Hello Mundo".

Mas sua música mais famosa no momento é uma ode não explícita à maconha, no melhor estilo de Bezerra da Silva. "Verdinha" foi entoada por mais de 1 milhão de pessoas no último Carnaval, quando seu bloco bateu o recorde de público no Rio de Janeiro.

A letra fala de uma muda que ela plantou para vender o "grama da verdinha a R$ 1". No clipe, Ludmilla aparece numa plantação de alface, o que levou várias mães a mandarem mensagens agradecidas para ela, dizendo que seus filhos começaram a comer mais salada após o vídeo.

Em paralelo à explosão da música e da carreira, ela também sofreu uma tentativa de censura do deputado mineiro Cabo Junio Amaral, do PSL, que entrou com uma queixa-crime contra a canção. "Aproveitaram que 'Verdinha' estava fazendo um bafafá e quiseram surfar na onda para se eleger. Já vi músicas com nomes de drogas e nada aconteceu."

Mesmo ser citar a erva na música, Ludmilla é a favor da descriminalização da droga. "O Brasil idolatra tantas coisas vindas de fora que poderia observar como tratam a maconha em outros países. Nos Estados Unidos, os lugares para comprar parecem uma loja da Apple. Acho que o índice da criminalidade vai diminuir completamente."

Sobre o significado real da letra, ela joga para a torcida. "É a 'verdinha' que você quiser. As crianças foram na alface. As pessoas podem pensar o que quiserem", afirma.

"A mensagem é você, apesar das suas escolhas, não deixar nada faltar na sua casa. Se for prestar atenção em todo mundo que joga pedra, não vai seguir seu caminho. É tipo: não me perturba, que vou tacar fogo em mais um só para não ficar maluco e vou zoar da cara de todo o mundo. É isso e dane-se".