Eleições 2022: Luciano Huck está em campo

Brazilian television host Luciano Huck speaks during a forum hosted by the news magazine Veja in Sao Paulo, Brazil November 27, 2017. REUTERS/Leonardo Benassatto

“Onde está a polícia? Onde está a ‘Elite da Tropa’?”, questionava, em outubro de 2007, um revoltado Luciano Huck que acabava de ter o relógio roubado.

O assalto à mão armada o levou a publicar, na página de artigos da Folha de S.Paulo, um artigo com todas as perguntas e interrogações que o trauma poderia conceber. 

“Estou à procura de um salvador da pátria”, confessou o apresentador. “Enfim, pensei, pensei, pensei. Enquanto isso, João Dória Jr. grita: ‘Cansei’. O Lobão canta: ‘Peidei”.

Treze anos se passaram, Doria é hoje governador, Lobão já virou e desvirou a casaca e, se os roteiristas do Planeta Brasil capricharem, os historiadores no futuro poderão se debruçar naquele artigo de 2007 para encontrar os gatilhos da epifania que provavelmente levaram Luciano Huck a esquecer os salvadores e decidir, ele mesmo, se colocar no jogo.

Em 2018, depois de muito ensaio, a migração oficial para a política foi abortada. O Brasil escolheu seu salvador, de nome Messias, que prometia cancelar o CPF dos ladrõezinhos de Rolex.

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Desde então, Huck não perde chance de testar as águas turvas da política com mensagens cifradas sobre a necessidade de o país encontrar um meio-termo entre a esquerda que ele já demonstrou desprezar e a retórica belicosa do cosplay de Capitão Nascimento que chegou à Presidência com a ajuda do seu voto no segundo turno.

Em uma corrida o apresentador já saiu na frente: ele ultrapassou Jair Bolsonaro no IPD (Índice de Popularidade Digital), que mede a moral das personalidades nas redes sociais. 

No Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, onde os investidores se reúnem uma vez por ano para dizer como deve ser a vida no andar de baixo, ele realizou uma palestra com almoço reservado para cerca de 40 executivos e foi chamado duas vezes de “próximo presidente” do Brasil.

A transição tem sido mais sutil do que supõem as exclamações de 13 anos atrás.

Em artigo publicado na mesma Folha de S.Paulo, na sexta-feira (7), Huck contou a história de um morador da periferia de São Gonçalo, no Rio, que perdeu os pais e um primo para a violência e rezava para um dia poder frequentar mais formaturas do que funerais.

No artigo, Huck conta como sua carreira de apresentador o levou a conhecer outros muitos testemunhos semelhantes. Seu diagnóstico: a desigualdade é hoje o maior obstáculo para a vida daquelas pessoas.

Ao falar dos riscos aos “tímidos avanços” dos últimos 30 anos, ele citou o restabelecimento da democracia, o controle da inflação e as políticas distributivas e criticou o “desdém cínico” da elite pelos mais pobres. Defendeu “avanços drásticos na cobertura e na qualidade do sistema público de ensino básico”, além de uma “rede de proteção mais ampla” para os 43 milhões de brasileiros em situação de pobreza.

Para isso, diz que o Brasil precisa de novas lideranças, avaliando como um erro de sua geração associar a política como um “negócio sujo a ser evitado” e não se envolver nas questões como deveria.

Não foi dessa vez, porém, que ele declarou publicamente seu desejo de este cara que vai mudar tudo isso que está aí. Huck falava de seu apoio a projetos de renovação de lideranças políticas, como o RenovaBr.

Cabe a essas lideranças, segundo ele, gerar oportunidades, diminuir o abismo entre ricos e pobres, fazer da política um ambiente ético e do Estado uma engrenagem mais eficiente.

Há muito de truísmo na conversa, e nada indica que a fala polida, com reivindicação ao centro e apelos contra extremismos vão ganhar corações e mentes em um ambiente no qual, da última vez, venceu quem gritou mais.

Mas, já que o assunto é abismo, é inegável que existe um, ao menos no papel, entre os 13 anos que separam os dois artigos. E também na lista de intenções desenhadas pelo apresentador quando comparadas ao governo bélico e anti-pacto civilizatório que seu antigo conselheiro econômico, Paulo Guedes, resolveu aderir.