Lorde comenta eleição e faz expurgo coletivo de energia tilelê no Primavera Sound

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Foi com a energia da era mais solar de sua carreira até agora que Lorde começou seu show no Primavera Sound São Paulo, neste domingo (6). Com uma gangorra no palco, toda vestida de vermelho e dizendo que estava "feliz para caralho" de estar no Brasil, a neozelandesa fez um dos shows mais disputados, com o público cantando em coro todas as músicas.

O momento tilelê acompanha o lançamento de "Solar Power", disco de 2021, como um contraste sonoro e lírico não só do que Lorde já havia feito em sua trajetória anteriormente, mas da realidade mundial no momento em que ele foi lançado.

É que a artista é natural da Nova Zelândia, país que passou praticamente imaculado à Covid-19, e acabou atravessando o momento de pânico mundial e a ausência de shows explorando as belezas naturais e o verão de seu país --para depois escrever sobre tudo isso.

O resultado foi um disco que representou uma mudança radical em sua carreira. Enquanto os antecessores "Pure Heroine", de 2013, e "Melodrama", de 2017, caprichavam nas influências pop, batidas eletrônicas, músicas dançantes e letras mais introspectivas, "Solar Power" chegou apostando em violões e guitarras sutis.

Em "Mood Ring", por exemplo, a cantora de 25 anos convoca suas amigas para começarem as saudações ao sol e suas meditações --enquanto elas queimam a sálvia, Lorde lava os cristais. "Podemos ficar chapadas, mas só se o vento soprar na medida certa", ela canta.

Mas se engana quem acha que Lorde abandonou a estranheza com a que ficou conhecida ou que tenha parado de cantar sobre questões existenciais e ansiedades próprias de sua geração --em "The Path", que abre o disco de 2021 e também foi a primeira de seu show, por exemplo, ela canta que "todos estamos quebrados e tristes" e se pergunta para onde foram seus sonhos. O que a diferencia dos discos anteriores, no entanto, está justamente na frase que vem depois. "Vamos torcer para que o sol nos mostre o caminho."

Outra prova foi em "Stoned at the Nail Salon", também do disco novo. Na música, Lorde convidou Phoebe Bridgers --que faz os coros da música ao lado de Clairo e fez show mais cedo no mesmo palco-- para cantar com ela no palco num dueto emocionante. "Essa música provavelmente não existiria sem essa pessoa", disse.

No discurso que a cantora sempre faz antes de "Liability", ela lembrou que fazia uma década desde que ela veio para o Brasil pela primeira vez. "Eu sou do outro lado do mundo e vocês estão cantando músicas de quando era adolescente de volta para mim. Nós somos os estranhos, os que passam do ponto, os que pensam demais, os que variam de humor", disse. "E vocês são as pessoas que mais escutam minha música."

Ela emendou o hit com sua música mais importante, "Royals", que a pôs no mapa. Logo depois, disse que "duas coisas muito interessantes aconteceram no Brasil na última semana. Bom, vocês conseguiram um presidente novo e colocaram uma música minha de dez anos atrás em primeiro lugar no iTunes porque queriam que eu a tocasse", disse, antes de entoar "Bravado", que ela não tocava desde 2018.

Não é a primeira vez Lorde faz menções à política brasileira. Na semana passada, após o resultado das eleições, ela publicou em seu Instagram um story em que se dizia "animada e honrada" porque estaria com os fãs brasileiros neste momento. "Lula, graças a Deus, graças a Deus", escreveu. Nesta sexta (4), em sua newsletter --seu principal meio de comunicação com os fãs-- ela escreveu "vá se foder, Bolsonaro, já vai tarde".

A neozelandesa tem uma relação próxima com os brasileiros e trouxe todas as suas turnês ao país --veio no Lollapalooza Brasil, em 2014, e no Popload Festival, em 2018, um ano após o lançamento dos discos "Pure Heroine", de 2013, e "Melodrama", de 2017.

Lorde terminou o show, o mais animado e solar do festival por enquanto, com a sequência de músicas que mais empolgou o público até agora --"Supercut", "Perfect Places" e "Green Light". Ela fechou a apresentação com "Solar Power", que dá nome ao disco e à sua turnê, acompanhada de uma chuva de papéis amarelos.