Livros de fantasia subvertem intolerância e celebram religiões de matriz africana

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RIBEIRÃO PRETO, SP (FOLHAPRESS) - Enquanto o Brasil vê a intolerância religiosa crescer, com aumento de ataques a terreiros de candomblé e umbanda, uma safra de livros de fantasia inspirados por religiões de matriz africana chega às livrarias e, em breve, deve chegar também aos cinemas e à televisão.

Representativa desta safra é a trilogia afro-futurista "O Legado de Orïsha", de Tomi Adeyemi, lançada pela Rocco. É a história de Zélie, uma jovem predestinada a lutar contra um rei que, ao ascender ao poder, varreu a magia de sua terra, Orïsha, num genocídio contra os maji, como são chamadas as pessoas que têm poderes mágicos.

Aos moldes da jornada do herói, a narrativa ressoa a trajetória de Harry Potter contra Voldemort, a dos irmãos Pevensie contra a Feiticeira Branca de "As Crônicas de Nárnia" e, principalmente, a de Lyra Belacqua contra o Magisterium em "Fronteiras do Universo" --ou "His Dark Materials", como a história foi batizada ao virar série pela HBO.

A diferença é que, em Orïsha, os maji compartilham seu poder com Oyá, Iemanjá, Xangô, Oxumarê e outros orixás que Adeyemi, americana de origem nigeriana, conheceu em Salvador numa viagem de intercâmbio ao Brasil para estudar a cultura africana.

Apesar de nunca ter chegado às listas dos mais vendidos no Brasil, o primeiro volume da trilogia, "Filhos de Sangue e Osso", permaneceu por 50 semanas entre os best-sellers do New York Times e teve seus direitos de adaptação para o cinema vendidos num acordo milionário com a 20th Century Fox, que hoje pertence à Walt Disney Company.

A obra ainda rendeu à Adeyemi, no ano passado, um lugar entre as cem pessoas mais influentes do mundo, ao lado de figuras como Bolsonaro e Felipe Neto, na tradicional lista que a revista americana Time publica anualmente.

Para uma escritora estreante de 23 anos, idade que Adeyemi tinha à época, é uma trajetória de sucesso profissional sem muitos paralelos no mercado literário. Já para uma garota que cresceu entre histórias que não refletiam a cor de sua pele, é uma trajetória de descoberta pessoal.

"Eu nunca tinha visto deuses pretos. Para mim, Beyoncé foi quem tinha chegado mais perto disso", costuma dizer Adeyemi, que não atendeu à reportagem, ao apresentar sua história em eventos literários. "O que tentei escrever antes de 'O Legado de Orïsha' não eram histórias que me representavam, porque as protagonistas eram sempre brancas. Eu acabava me excluindo das minhas próprias histórias."

Após "O Legado de Orïsha", outras obras inspiradas por religiões de matriz africana começaram a ocupar as estantes das feiras literárias internacionais, como a de Frankfurt e a de Bolonha, de onde boa parte dos editores brasileiros pinçam sucessos para traduzir e publicar no Brasil.

Uma delas é "O Segredo do Oceano", prestes a ser lançado pela Globo Alt, o selo juvenil da Globo Livros. Sua autora, Natasha Bowen, é britânica, mas compartilha a ascendência nigeriana com Adeyemi.

A narrativa acompanha a jovem Simidele, uma espécie de sereia, chamada Mami Wata, criada por Iemanjá para coletar a alma daqueles que morrem em alto mar e os levar até Olodumarê, o ser supremo das religiões de matriz africana, criador dos homens e dos orixás.

O conflito se dá quando um rapaz é jogado de um navio negreiro com vida, até então algo inédito para Simi, que decide salvá-lo do afogamento, quebrando acordos sagrados que podem pôr em risco sua vida, a das Mami Wata como ela e até a de Iemanjá.

A ideia de Bowen surgiu a partir de "A Pequena Sereia", sua princesa preferida quando criança, e se transformou quando decidiu investigar a história e a cultura do Oeste africano, que ela diz sempre ser retratada, nas escolas e na mídia, como "primitiva e incorreta".

"Existem histórias sobre o consolo que Iemanjá dava aos africanos enquanto estavam nos navios negreiros. Alguns dizem que ela despedaçava os barcos, enquanto outros dizem que ela levava de volta ao lar as almas daqueles que morriam. Este último conceito foi o que me inspirou", explica Bowen em seu livro.

Em paralelo, as editoras de grande porte começam a apostar em histórias escritas por brasileiros. Fábio Kabral, que escreve fantasias inspiradas pela mitologia iorubá desde 2016, ganha agora a companhia de Alê Santos, indicado ao prêmio Jabuti no ano passado por "Rastros de Resistência", um compilado de perfis de figuras históricas antirracistas que tiveram suas trajetórias silenciadas.

Santos lança no início de dezembro, pela HarperCollins, "O Último Ancestral". É o primeiro volume de uma série que ele planeja criar não só em livros, mas noutras plataformas, com negociações já em andamento com produtoras audiovisuais.

A narrativa acompanha Eliah, um jovem predestinado a lutar contra o reinado dos Cygens, híbridos de homens e máquinas que exilaram a população negra numa favela e proibiram o uso de magia ou o culto aos deuses, principalmente os iorubás.

Em maio, a cena ganha força com Rosa Amanda Strausz, vencedora de um Jabuti e autora de dezenas de livros voltados a crianças e jovens. Ela lança, pela Rocco, "A Cabeça Cortada de Dona Justa", um romance que acompanha Justiniana, uma jovem benzedeira que salva a vida de um barbeiro encontrado quase morto numa praia fluminense após ser jogado de um navio.

Mas há diferenças na maneira como o público dos Estados Unidos e da Inglaterra, onde vivem Adeyemi e Bowen, leem esses livros, diz Paula Drummond, editora responsável pela Globo Alt, que também trabalhou na edição brasileira de "Orïsha".

"Diferentemente do que ocorre com os deuses gregos e nórdicos, não há livros ou filmes mainstream com orixás. Por isso, o americano os vê com curiosidade, quase que de maneira exótica. No Brasil, é diferente. Iemanjá e Xangô, por exemplo, são todos nomes muito familiares. A gente sabe quem eles são. Mas a gente tem preconceito."

É por isso que, na edição brasileira de "Filhos de Sangue e Osso", os editores inseriram uma nota dizendo esperar que "a leitura deste livro faça com que muitos dos preconceitos que rondam a cultura iorubá diminuam ou desapareçam".

Não foi à toa. Durante os meses que antecederam e sucederam as eleições presidenciais de 2018, quando "Orïsha" chegou às livrarias, só o estado de São Paulo viu triplicarem os registros de crimes de intolerância, a maior parte deles de cunho religioso.

Desde então, o preconceito não deu trégua. Em 2019, oito traficantes evangélicos do Bonde de Jesus foram presos suspeitos de atacar terreiros de candomblé em Duque de Caxias e ameaçar de morte uma sacerdotisa octogenária. Em 2020, oferendas foram vandalizadas e uma mulher que não era policial tentou dar voz de prisão a um praticante de candomblé. Já em 2021, o presidente da Fundação Palmares, com apoio de Bolsonaro, abriu um concurso para expurgar o machado de Xangô do símbolo que representa a instituição.

Orlando Calheiros, doutor em antropologia social pela UFRJ e ele próprio iniciado no Omolokô e no Ifá Lukumi, sente na pele a perseguição. Não sai à rua paramentado, como diz, por medo de ser agredido por grupos como o Bonde de Jesus. É por isso que enxerga com bons olhos a desmistificação que esta literatura pode trazer.

"Os terreiros são vistos como espaços demoníacos. Essas religiões são vistas como lugar de bandido, embora todo brasileiro tenha um tio, um avô ou um primo que é feito de santo. Temos uma relação estreita com estas religiões, e por que não utilizá-las como inspiração?", questiona.

"Durante muito tempo, me vi agnóstico, mesmo tendo sido criado em casa de santo, porque eu não via referências positivas na mídia daquilo que minha família praticava. Quando você tem um material que desmistifica essas religiões, mostra que não é do demônio, que não é para prejudicar ninguém, só tem a nos ajudar."

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