Livro narra dramas e conquistas de alunos da favela na pandemia

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Professor, eu só tenho o espaço da cama", disse uma garota de uma favela de São Paulo em uma aula online de educação física, em 2020. "Então vamos fazer alongamento na cama!", respondeu o educador, que também teve alunos pulando amarelinha na ponta dos pés para não acordar o pai, que dormia ao lado, ou se exercitando na viela enquanto a mãe limpava a casa.

Vivências do ensino a distância para crianças e jovens de realidades altamente vulneráveis fazem parte de uma nova publicação do ateliescola acaia, escola que oferece gratuitamente educação de vanguarda a moradores de favelas da Vila Leopoldina (zona oeste).

"Cadernos Acaia - Desassossego/Pandemia" (Letra da Cidade) traz textos de educadores do ensino infantil e do fundamental com relatos das mais complexas dificuldades, mas também de muitas experiências que deram certo no cenário inóspito do fechamento das escolas para conter a pandemia de coronavírus.

Na lista dos percalços está a falta de espaço nas casas para a realização de atividades. Crianças e jovens buscavam um cantinho em suas moradias apertadas, que podia ser entre o fogão e a geladeira ou atrás do sofá, para fazer lição ou assistir às aulas no WhatsApp.

O aplicativo de mensagens, aliás, foi a mais importante ferramenta tecnológica para esses estudantes, a maioria deles sem computador em casa, com acesso a apenas um aparelho celular, utilizado por toda a família. Esse foi também o meio mais fácil de manter proximidade com os familiares, muitos deles com pouco ou nenhum domínio da escrita, que se comunicavam com a escola por áudios.

A educadora Karina Santos da Silva relata no livro a experiência de alfabetizar pelo WhatsApp. Para que isso fosse possível, cada turma do 1º ano, que tem cerca de 20 alunos, foi dividida em nove grupos. As famílias foram consultadas logo no início da pandemia para informar em quais dias e horários as crianças poderiam ter o acompanhamento de um adulto, e as aulas foram agendadas a partir desse mapeamento.

Três vezes por semana, ligações eram feitas com dois ou três alunos, e os que tinham maior dificuldade recebiam atendimento individual. Nesse processo, até familiares adultos que acompanhavam as crianças acabaram se alfabetizando também.

Para estudantes a partir do 5º ano, a escola comprou computadores, roteadores e pacote de dados. Buscando soluções para dar início ao ensino remoto para crianças com pouco ou nenhum acesso à internet, o ateliescola chegou a cogitar a instalação de redes sem fio nas favelas. A ideia, no entanto, foi abandonada, narra o livro, em razão do risco de indispor as famílias dos alunos com os traficantes, que controlam as conexões clandestinas nas comunidades.

Não só a relação com o tráfico de drogas, mas a violência doméstica e policial, a fome e o abandono estão na rotina das comunidades dos alunos atendidos pelo ateliescola acaia, que existe formalmente como escola desde 2017, mas surgiu como projeto social duas décadas antes.

Em 1997, a artista plástica Elisa Bracher montou na Vila Leopoldina o seu ateliê, e lá começou a oferecer oficinas para crianças das favelas próximas. A primeira delas foi de marcenaria, que conectou o trabalho da artista aos saberes das famílias do local, muitas das quais fabricavam caixas de verduras para vender na Ceagesp (Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais do Estado de São Paulo).

O projeto deu origem, em 2001, ao Instituto Acaia, de oficinas e orientação para crianças e jovens no contraturno da escola, que tinha apoio e financiamento dos pais de Elisa, o banqueiro Fernão Bracher (1935-2019) e a educadora Sonia Maria Sawaya Botelho Bracher (1936-2015), uma das fundadoras do Vera Cruz, renomado colégio da elite econômica de São Paulo e referência em educação inovadora.

Às oficinas e ao apoio psicológico foram incorporadas aulas de reforço de matemática, português e outras disciplinas. Progressivamente, o ateliê foi se transformando em uma escola. Hoje são 115 funcionários e 350 estudantes, que passam o dia no local, onde têm cinco refeições diárias.

O fechamento da escola na pandemia, como ocorreu com boa parte dos matriculados na rede pública do país, causava impacto alimentar. Além de kits pedagógicos, o ateliescola providenciou cestas básicas para as famílias dos alunos. Elisa e Ana Cristina Cintra, doutora em psicologia educacional e uma das diretoras da escola, foram às casas das crianças para entregar o material e conversar com as famílias.

Na organização do ensino remoto, foi preciso montar as grades de aulas de acordo com os horários em que as crianças conseguiam ao celular da casa. As aulas eram dadas para poucas crianças por vez, o que facilitou a proximidade com os professores.

"Como não temos aquela pressão das famílias de escolas particulares, pudemos buscar a melhor maneira de fazer isso", conta Ana Cristina. "As aulas eram mais curtas, até porque as crianças não conseguem ficar ligadas por muito tempo, e fizemos atendimentos individuais. Com isso, estávamos mais próximos para passar a ideia de que 'vocês são importantes', 'estamos aqui', 'a peteca não vai cair'."

Manter a proximidade com os alunos e com os seus familiares foi essencial, inclusive, para trabalhar contra a desinformação da pandemia. Um podcast lançado em março pela escola, o Fala, Fi!, incluiu o quadro Verdade ou Mentira, adaptado de um jogo para combater fake news.

A série de podcasts está na lista das experiências bem-sucedidas do ensino remoto, costurando de forma criativa as trocas de áudios no WhatsApp entre a escola, os alunos e seus familiares. Em um deles, estudantes do 7º ano disseram o que fariam se fossem prefeitos. Entre as medidas estavam criar emprego, construir casas para desabrigados, colocar cintos de segurança nos ônibus, fazer uma lei para os ricos tratarem melhor os pobres e oferecer sorvete de graça.

"Buscamos quais atividades da escola poderiam ser vertidas para o formato de áudio", diz o educador Magno Faria, coordenador da biblioteca, que participou da produção do Fala, Fi!. O podcast foi utilizado como modelo para iniciativas semelhantes em uma escola municipal de Santos e na creche da USP.

Replicar metodologias na rede pública de ensino é um dos propósitos do livro. "Cadernos Acaia - Desassossego/Pandemia" cumpre esse papel ao compartilhar práticas pedagógicas na pandemia, e é, em si, um modelo para que cada escola organize um registro de suas vivências nesse período tão drástico para a educação.

Assim, ficam para a história momentos de conquistas, como o da leitura dramática online que o 7º ano fez de "O Bem-Amado", de Dias Gomes, na qual um aluno fez o seguinte comentário sobre a fictícia cidade governada pelo populista e corrupto Odorico Paraguaçu: "A política de Sucupira parece com a do Brasil..."

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"CADERNOS ACAIA – DESASSOSSEGO/PANDEMIA"

Preço R$ 65 (112 págs.)

Editora Letra da Cidade

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