Com as livrarias fechadas, as vendas de livros online disparam na Itália

Por Catherine MARCIANO
Uma pessoa lê um livro do lado de fora da paróquia de San Pancracio, no bairro romano de Monteverde Vecchio, em 15 de março de 2020

Os italianos que estão há 10 dias confinados em suas casas podem sair para comprar cigarros, perfumes, celulares e televisões, mas encontram as portas das livrarias fechadas, o que fez as vendas online dispararem.

"As livrarias estão fechadas, mas as vendas online não param, com os entregadores em movimento e funcionários fazendo pacotes", comenta Paolo Ambrosini, vendedor de livros de Verona e presidente da Associação de livrarias italianas (Ali).

"Se o livro é considerado um produto não necessário, então terão que bloquear as vendas em todos os lugares!", protesta.

As livrarias contatadas pela AFP não questionam o decreto governamental de 10 de março que ordena o fechamento da maioria das lojas não essenciais e autoriza a abertura de supermercados para frear a propagação do vírus em toda a península.

Reclamam, na verdade, da distribuição em massa através da internet, do que consideram concorrência desleal.

A gigante editora italiana Mondadori admitiu que o fechamento de suas cerca de 600 livrarias havia sido "compensado em parte pelo forte aumento de ventas online, de mais de 50%".

Consultada pela AFP, a plataforma de vendas online Amazon na Itália no quis revelar números.

"Para as livrarias independentes, o fechamento programado até 3 de abril é um desastre", lamenta Umberto Panerai, um vendedor de livros de Florencia, Toscana.

"Os quiosques ou supermercados podem vender livros e revistas diariamente e até as perfumarias permanecem abertas", destaca.

"Os jovens, confinados em casa com seus computadores, têm aumentado os pedidos online de livros para seus cursos à distância", explicou o vendedor florentino.

Gabriella Guaiti Becarelli também está muito ocupada nos fundos de sua livraria em Siena, Toscana, por ter dado sua disponibilidade nas redes sociais.

- Setor frágil -

As primeiras medidas de ajuda para as empresas foram adotadas na quarta-feira, mas a indústria do livro não foi mencionada.

Marie-Eve Venturino, que há três anos dirige a histórica livraria francesa no coração de Roma, destaca que "a economia das livrarias independentes é muito frágil, quase não possuem lucros".

Na França, "o setor recebe subsídios. Na Itália não. Estar fechados por mais de um mês pode ser fatal para nós", afirma.

"A grande vencedora continuará sendo a Amazon, capaz de entregar papel higiênico, comida e libros", acrescenta.

No entanto, os livreiros reconhecem que teria sido difícil permanecer abertos em cidades desertas.

Segundo Venturino, a vocação do livreiro "não é servir um livro com luvas de plástico e uma máscara no rosto, limitar o acesso e desinfetar o balcão com álcool".

Algumas livrarias negociaram o direito de entregar os livros em casa, como ocorre com os vendedores de pizza.

Em Belluno, ao norte de Veneza, um prefeito sensível à leitura autorizou na segunda-feira a cinco livreiros da cidade, de 27.000 habitantes, a entrega de livros.

"A leitura é algo fundamental, abre o coração, o espírito, te perde em outros mundos e não no que vivemos atualmente", admite Alessandro Tarantola, presidente dos livreiros da província de Belluno.

Graças à autorização do prefeito, está confinado em sua livraria para atender chamadas e organizar a entrega pessoal de livros, usando uma máscara e luvas.

Tarantola já entregou por volta de quinze libros. "De tudo um pouco, os clientes pedem romances que acabaram de sair ou livros recomendados pelos professores aos seus filhos", conta.

Entre os livros mais solicitados estão os clássicos que falam de ... epidemias, como "A peste" de Albert Camus ou as obras de Alessandro Manzoni, cujas tramas também falam de pragas históricas.

O virologista italiano Roberto Burioni também está obtendo um grande êxito com o lançamento de seu ensaio: "Vírus, o grande desafio".