Linn da Quebrada lança álbum e adverte: “Envelhecer será minha vingança”

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Linn da Quebrada reflete sobre o novo álbum
Linn da Quebrada reflete sobre o novo álbum "Trava Línguas" (Reprodução/Instagram@LinnQuebrada)

Por Nathan Fernandes

Linn da Quebrada é uma devoradora de palavras. Nesta entrevista para o Yahoo!, a artista compartilhou um termo recém descoberto: “comodificação”. “Aprendi essa palavra há pouco tempo, tenho até a definição dela aqui: ‘a comodificação refere-se ao fenômeno contemporâneo que muitos bens e serviços e ideias que não eram consideradas comerciais passam a ser transformados em mercadorias vendáveis'’”. 

É assim que ela se sente: capturada pelo mercado, estuprada pela mídia. Não à toa uma separação mais bem demarcada entre a artista Linn da Quebrada e a civil Lina Pereira tornou-se necessária. “Quem sou eu” é reflexão central no novo álbum “Trava Línguas”.

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Segundo a artista, trata-se de uma obra bem diferente do primeiro disco, o atrevido “Pajubá”, lançado em 2017. “Sinto que o ‘Pajubá’ foi um portal, porque me abriu muitas portas”, define, “através desse álbum — que já fala de linguagem, mas também das nossas dores, das nossas identidades —, construí uma fissura dentro desse mercado colonial para que tanto eu quanto as outras que produzem sobre seu tempo conseguissem se inserir. Para que a gente deslocasse essa suposta força e supremacia branca, masculina, cisgênera (que se identifica com o gênero de nascimento), colocando essas pautas em cheque.”

“Bixa Travesty”

Mas, como lembra a artista, o mercado é elástico, ele se adapta. O que antes era encarado como uma ameaça passa a ser rentabilizado, vira oportunidade de negócio. Linn sabe bem disso, já que sua arte passou a ser valorizada em diversos níveis: um documentário sobre sua trajetória, “Bixa Travesty”, foi premiado no Festival de Berlim; seu talento dramático foi apreciado pelo Brasil inteiro na série “Segunda Chamada”, da TV Globo; ao lado da parceira musical Jup do Bairro, ganhou um programa de entrevistas no Canal Brasil, além de terem sido enaltecidas pelo jornal inglês "The Guardian". O marketing sobre corpos travestis nunca foi tão celebrado. “Dentro do círculo do mercado, eles fazem um pequeno cercadinho para que todos os movimentos de representatividade lutem para conseguir um espaço lá”, reflete.

“Trava Línguas”, que conta com produção sofisticada da DJ BADSISTA e da percussionista Dominique Vieira, chega para destruir o cercadinho. 

Esse trabalho vem num momento em que percebo que é importante dar alguns passos para trás para tentar entender as engrenagens que movem esse sistemaaponta Linn.

“Quem eu estou sendo dentro desse mercado? Essa hipermarcação como pessoa negra, periférica, marginal, trans, travesti é uma hipermarcação sobre o meu corpo e não sobre o meu trabalho. Nesse sentido, estou em um lugar totalmente oposto ao de ‘Pajubá’, se pensarmos que há cinco anos nossas ideias não eram comerciais. Nós fomos capturadas. ‘Trava Línguas’ surge como uma esquiva, um deslize para fugir dessa captura.”

Mortes de pessoas LGBTQIA+

No país que mais mata pessoas LGBTQIA+ no mundo e em cuja expectativa de vida da população travesti é de menos de 35 anos, Linn da Quebrada usa as palavras como ferramenta de poder. “A linguagem é viva, ela se movimenta, assim como eu, que ainda estou viva, e assim pretendo ficar. Envelhecer será minha vingança.”

Apesar de não ser sexualmente explícito como “Pajubá”, e de contar com uma aura pomposa trazida pelos metais e pelos ritmos latinos, “Trava Línguas” é, por vezes, mais intenso do que seu antecessor. “Acho que quando traduzem esse trabalho de uma forma branda estão fazendo uma análise superficial, porque estou falando de coisas muito profundas. Foi justamente isso que busquei na linguagem. Não estou onde as pessoas esperavam que eu estivesse. Isso é fuga, é o desvio, esse é o deslize”, reflete. 

Se fizeram de mim um transtorno de identidade de gênero, então eu vou ser um transtorno muito pior para as suas identidades

Além dos jogos de palavras, o álbum, que abre com uma saudação a Exu (em “amor, amor”, parceria com a psicóloga e artista visual Castiel Vitorino Brasileiro), evoca ainda entidades como Xica Manicongo, considerada a primeira travesti do Brasil, e Stella do Patrocínio, poeta que foi internada à força em um centro psiquiátrico e se tornou símbolo da luta antimanicomial.

“Stella do Patrocínio me acompanha nesse processo. Ela, que hoje é tida como poeta, artista, foi psiquiatrizada, patologizada, encarcerada até os últimos anos de sua vida. Seus falatórios mostram um regime de violência, pelos quais foram extraídos o que ela podia dizer. E isso foi aproveitado por uma branquitude que se apropria de forma extrativista e colonial. Sinto que, de alguma forma, é isso o que acontece comigo e com muitas outras artistas negras, trans, pessoas que são postas à margem e que produzem um discurso anticolonial, um pensamento negro disruptivo, que passa a estar em voga nesse mercado.”

Linn recorre à escritora e artista visual Jota Mombaça para introduzir o conceito de “plantação cognitiva”, explicando que, se antes a força de trabalho das pessoas escravizadas era extraída através das plantações, dos engenhos, hoje, essa plantação é cognitiva, pois a extração ocorre por meio da dimensão do pensamento produzido. Parte da branquitude se apropria da produção intelectual das pessoas ignoradas pelo sistema, sugando e estuprando seus desejos e vontades. 

“É nesse lugar que entendo o estupro midiático. É confuso, porque também é consentido, já que precisamos elaborar e estar presentes nesses lugares para que possamos falar por nós mesmas, e também para tomar de volta o que é nosso no sentido de ter um dinheiro que nos permita a vida”, explica.

É por isso que a artista proclama a demarcação do seu próprio território, a fim de se preservar e de elaborar propostas ameaçadoramente radicais para o capitalismo, como o direito ao descanso. “Estou propondo a fuga”, brada. 

No fundo, “Trava Línguas” pode até ser um jogo de palavras que brinca com trocadilhos e repetições, mas também é uma arma apontada na cabeça do “macho, branco, senhor de engenho, colonizador, capataz”. Ao devorar, mastigar e purgar as palavras, na “força da farsa”, Linn da Quebrada tenta fazer de seu trabalho o que o sistema tenta fazer de seu corpo e de si própria. “Se fizeram de mim um transtorno de identidade de gênero, então eu vou ser um transtorno muito pior para as suas identidades.”

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