Liniker encara sua primeira protagonista na série 'Manhãs de Setembro'

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*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, BRASIL 29.01.2020 Liniker (cantora). (Foto: Mathilde Missioneiro/Folhapress)
*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, BRASIL 29.01.2020 Liniker (cantora). (Foto: Mathilde Missioneiro/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A voz potente de Vanusa preenche o quartinho que Cassandra aluga no centro de São Paulo. Nos corredores estreitos e mal cuidados que desembocam em sua porta, os acordes de "Manhãs de Setembro" ecoam e convidam o público a entrar na vida de alguém que "num esforço se guardou na indiferença".

Indiferente porque nos primeiros minutos da nova série do Amazon Prime Video, batizada com o título da canção dos anos 1970, a protagonista descobre que tem um filho de dez anos. Cassandra, uma travesti que finalmente está pondo sua vida em ordem, tenta ficar alheia à novidade, protesta e diz que não quer o "moleque" em sua vida --mas ela descobre que vai ser difícil ficar impassível diante daquela situação.

"Manhãs de Setembro" estreia nesta sexta (25) como uma colcha de retalhos que retrata a marginalidade sob diversos aspectos. Para além da questão trans, a série se apoia fortemente na figura de Leide, que se envolveu com Cassandra no passado.

Por uma década ela criou sozinha o filho, pulando de subemprego em subemprego. Entre os carros que passam velozes pelas ruas de São Paulo, ela agora vende todo tipo de produto, voltando, no fim do dia, para um carro velho e quebrado que serve de morada para Leide e Gersinho. Num ato de desespero, ela recorre a Cassandra, que não a recebe exatamente bem.

Seu estilo de vida não combina com o de uma mãe, a protagonista acredita. Ela, também, está à margem. Não apenas por ser travesti, mas porque passa os dias em sua moto fazendo entregas para aplicativos de delivery, juntando o pouco que recebe para reformar seu quartinho e conseguindo dinheiro extra cantando num bar à noite.

É claro que Vanusa, a diva máxima de Cassandra, está presente no setlist. As músicas da cantora, morta no ano passado, ganham novas versões entoadas pela também cantora Liniker, que se aventura em seu primeiro trabalho como protagonista.

A artista nascida em Araraquara tem a atuação como primeira formação, e seu nome foi sugerido aos criadores e produtores de "Manhãs de Setembro" tão logo a série começou a dar seus primeiros passos. Foi a representatividade, que vai muito além do papel coadjuvante normalmente reservado a pessoas LGBT nas grandes produções, que fisgou a atenção de Liniker.

"Eu acho que a série dignifica a nossa trajetória ao ter uma personagem trans que é humanizada, com facetas que vão muito além do fato de ela ser travesti, que falam sobre ela ter emprego, casa, família, romance, afeto. Há muitas texturas nesse contexto em que a Cassandra vive", diz a atriz-cantora.

"Manhãs de Setembro" ainda vai levar essa realidade para os mais de 200 países em que o Amazon Prime Video está presente, algo que Liniker julga importante, principalmente sob um governo apoiado por quem tem noções tão conservadoras em relação ao que é uma vida ideal, diz ela. Cassandra, afinal, é apenas parte de um leque de personagens que versa ainda sobre homossexualidade, prostituição, maternidade e pobreza.

Essa última é mais bem incorporada por Leide, a ambulante vivida por Karine Teles. "A série tem como questão principal conflitos que são humanos, não conflitos de nicho. Nós falamos de milhares de pessoas abandonadas, ignoradas, estigmatizadas na nossa sociedade. É uma discussão importante nesse momento, em que a gente teve alguns retrocessos no país", diz ela.

Criada a partir de uma ideia original do jornalista Miguel de Almeida, "Manhãs de Setembro" foi desenvolvida numa sala de roteiro tão diversa quanto as suas temáticas. Fez parte dela Alice Marcone, uma mulher trans que diz que suas próprias experiências atravessam as que Cassandra tem nas telas.

A representatividade por trás das câmeras, acredita a roteirista, é o que permite que a trama saia dos estereótipos e é algo que deveria ser levado a sério em qualquer produção, independente da temática, caso contrário as tramas ficam presas a uma "eterna visão etnocêntrica, de um mesmo grupo". Elas acabam podadas, impedidas de alcançar outras realidades.

Por enquanto chegam ao público cinco episódios de "Manhãs de Setembro", um número tímido tanto para séries quanto para minisséries. Mas equipe e elenco torcem por uma continuação da história de Cassandra, que agora integra um rol de produções nacionais que a Amazon prepara para bater de frente com outros serviços de streaming no Brasil.

Enquanto a confirmação de uma sequência não vem, o repertório de Vanusa vai traduzindo os sentimentos intensos e conturbados que a protagonista experimenta nesses primeiros capítulos de "Manhãs de Setembro".

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MANHÃS DE SETEMBRO

Quando: Estreia nesta sexta (25), no Amazon Prime Video

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