Lin-Manuel Miranda consolida carreira no cinema e lança desenho animado "Encanto"

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Eu não vou jogar fora a minha chance/ Eu sou como meu país/ Sou jovem, determinado e faminto/ E não vou jogar fora a minha chance", canta o protagonista de "Hamilton" em uma das canções mais marcantes do musical-sensação da Broadway.

Guardadas as devidas hipérboles e dramatizações, a letra traça um paralelo com a trajetória de seu intérprete e criador, Lin-Manuel Miranda. Assim como Alexander Hamilton, ele tem suas raízes fincadas no Caribe e, numa idade muito tenra, foi alçado ao posto de queridinho da América.

Mas como o filho de porto-riquenhos conseguiu uma ascensão tão astronômica numa indústria que ainda torce o nariz para os latinos? Talvez a resposta seja justamente por ter soprado em seus trabalhos ritmos, instrumentos e temas que fugiam do lugar-comum, construindo um repertório de uma originalidade que há muito não se via nos musicais --de teatro ou cinema. Nesta semana, ele eleva isso a um novo nível, ao lançar "Encanto" e trazer o gigante Disney para a América do Sul.

Inspirado por ritmos que pouco acompanham as trilhas de Hollywood, como a cúmbia e o joropo, Miranda deu ao filme um tom vibrante e que explode em latinidade, na contramão do que se tornou canônico no gênero. Isso porque, para ele, é essencial visitar suas raízes na hora de compor e desbravar também toda a diversidade que tem à disposição, para além de sua herança porto-riquenha.

Em conversa por vídeo com este repórter, ele diz por que tem se voltado para os filmes, em especial animações, com tanta frequência. "O bom de trabalhar no cinema é que há muitas pessoas envolvidas, então as ideias podem vir de vários lugares. Fora que você pode ter músicas muito teatrais e consegue ilustrar as letras de forma visual", afirma.

Em "Encanto", por exemplo, ao falar da sensação de se sentir incapaz, a personagem Luisa compara o que sente a um navio atingindo um iceberg. Em cena, então, entramos em seus pensamentos e damos de cara com um enorme Titanic naufragando.

Mas "Encanto" é só a chave de ouro que encerra um ano especialmente produtivo para Miranda, que em 2021 ainda produziu um documentário sobre Rita Moreno, emprestou a voz e compôs para a animação "A Jornada de Vivo", levou a peça "Em um Bairro de Nova York" para as telas e estreou como diretor de cinema em "Tick, Tick"¦ Boom!", lançado na semana passada.

São títulos fortes, que solidificam sua carreira no audiovisual ao lado de sucessos como "Moana" e "Star Wars: O Despertar da Força", para os quais criou músicas, e "O Retorno de Mary Poppins", "His Dark Materials" e "Fosse/Verdon", nos quais ele atuou.

As habilidades em atuar, escrever, compor, dirigir e produzir fizeram de Miranda um dos nomes mais versáteis da indústria de entretenimento. Aos 41 anos, ele já acumula um Pulitzer, dois prêmios Olivier, três Tony, três Grammy, dois Emmy e um Kennedy --honraria máxima das artes performáticas nos Estados Unidos, normalmente destinada a personalidades com carreiras bem mais extensas. Ele também foi indicado ao Oscar, o que deve se repetir novamente no ano que vem.

Boa parte dos troféus veio na esteira de "Hamilton", musical que tomou a Broadway de assalto há seis anos ao contar a história de um dos pais fundadores dos Estados Unidos com rap e um elenco diverso, que incluiu, além dos latinos, negros e asiáticos em páginas da história tradicionalmente narradas por brancos. Ainda em cartaz, o espetáculo tem ingressos disputadíssimos.

Apesar do sucesso de "In the Heights" --ou "Em um Bairro de Nova York"--, seu primeiro musical, que estreou na Broadway em 2008, foi "Hamilton" que representou uma virada. Com ele, estampou capas de revistas, cantou para Barack Obama na Casa Branca e causou uma guerra pelos direitos de distribuição de uma versão filmada da peça.

Agora, sua mente criativa é requisitada por produtores de teatro e estúdios quase que sem pausa, e as parcerias com medalhões dos musicais se acumulam indefinidamente em seu currículo.

O compositor disparou rumo à fama graças a uma predisposição ao mundo musical que o arrebatou tão cedo que poderia muito bem ser explicada como algo genético, que corre nas veias. E a relação com a arte, de fato, vem de antes de seu nascimento.

Não que seus pais estivessem inseridos nesse universo --a mãe é psicóloga e o pai, consultor do Partido Democrata. Mas o casal soprou rima e poesia na vida de Miranda já no batismo, dando a ele o incomum nome de um poema do porto-riquenho José Manuel Torres Santiago, "Nana Roja para Mi Hijo Lin Manuel".

E Miranda nasceu, afinal, em Nova York. Foi criado em Manhattan, sob as luzes cintilantes das marquises da Times Square, durante os anos 1980 e 1990, que impuseram revoluções ao teatro musical.

Isso porque a era oitentista foi marcada pelos blockbusters e pelo flerte com o operístico, de shows como "Les Misérables" e "O Fantasma da Ópera"; já a noventista viu emergir uma nova geração de compositores, como Jonathan Larson, que com "Rent" trouxe os palcos para perto dos problemas mundanos.

Durante a infância e adolescência, Miranda conta que viu as montagens originais desses três e de outros espetáculos. Não havia dinheiro para as caras visitas à Broadway com frequência, mas seus pais conseguiram encaixar algumas peças no dia a dia.

"Eu lembro de ver 'Les Miz' quando tinha sete anos. Eu chorei quando a Fantine morreu, dormi um pouco e acordei a tempo para o suicídio do Javert", disse ele em entrevista à New Yorker em 2015. "Quando eu vi 'Cats', fiquei emocionado com os gatos correndo pelos corredores. Em 'Fantasma', pensei 'caramba!', porque a história fala de um compositor feio que quer impor sua vontade sobre o mundo --e eu me relacionei com aquilo."

São espetáculos que o puseram na rota para ocupar um lugar no panteão do teatro musical. Em casa, teve a ajuda das aulas de salsa que seus pais o obrigaram a fazer e das de piano, que começaram quando ele tinha apenas seis anos. Miranda vivia quase que num universo paralelo, como ele e seus pais já disseram em entrevistas, já que aquela não era a realidade dos outros latinos que conheciam.

Apesar disso, o compositor nunca abandonou as raízes, como seu já rico trabalho comprova. Hoje, ele se orgulha de fazer parte de um movimento que tem, cada vez mais, trazido histórias, criadores e talentos latinos para os palcos e telas dos Estados Unidos e do mundo. "No geral, há pouca representação latina em Hollywood", diz.

Ainda assim, ele diz que 2021 foi especialmente produtivo, não só por "Encanto" e "Em um Bairro de Nova York" abraçarem a diversidade, mas também por "Cinderella", "Eternos", "Esquadrão Suicida" e "Amor, Sublime Amor", previsto para dezembro.

"Este foi um bom ano, mas veremos como serão as coisas no ano que vem", diz Miranda. "E é engraçado que quando 'Em um Bairro de Nova York' abriu, também foi um ano muito diverso para a Broadway --mas aí o ano seguinte, nem tanto." Segundo ele, o movimento parece muito mais algo pontual do que tendência.

"Filmes levam anos para serem feitos, então espero que estejamos vendo de fato um renascimento da diversidade nas telas, mas ao mesmo tempo precisamos lutar por isso cada vez mais. E me sinto orgulhoso de fazer parte disso."

Depois de "Hamilton", os fãs de teatro musical aguardam ansiosos pelo próximo projeto que Miranda levará aos palcos --mas isso pode levar tempo, já que, por ora, ele parece estar bem ocupado com as telas, onde tem vários trabalhos para o futuro breve.

MUSICAIS DE LIN-MANUEL MIRANDA

- Encanto: Nos cinemas

- Hamilton: Disponível no Disney+

- Moana: Um Mar de Aventuras: Disponível no Disney+

- Tick, Tick"¦ Boom!: Disponível na Netflix

- A Jornada de Vivo: Disponível na Netflix

- Em um Bairro de Nova York: Disponível na HBO Max

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