O caso Liliane Amorim desperta, de novo, a urgência em acabar com padrões estéticos

Marcela De Mingo
·4 minuto de leitura
Liliane Amorim morreu no último final de semana decido a complicações após uma lipoaspiração (Foto: Instagram / Liliane Amorim)
Liliane Amorim morreu no último final de semana decido a complicações após uma lipoaspiração (Foto: Instagram / Liliane Amorim)

É quase impossível escrever sobre o caso de Liliane Amorim sem sentir a indignação travar a garganta e acelerar o coração. Isso porque a história da influenciadora, que morreu após fazer uma cirurgia de lipoaspiração, infelizmente se soma à lista gigantesca de mulheres que sofrem consequências graves (e, muitas vezes, mortais) por conta de padrões estéticos.

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Antes que você, leitor, acredite que isso é um exagero, considere quantas vezes você leu notícias dizendo que famosas "mostram o corpo depois da lipo" ou "exibem a barriga chapada" ou "fazem a dieta X". Existem também aquelas entrevistas que exaltam rotinas de exercícios, com dicas de beleza, e que perguntam se essas mulheres mudariam algo em si mesmas. Notícias como essas rendem cliques, mas também reforçam uma ideia que é martelada na cabeça das mulheres há dezenas de anos: somos imperfeitas, erradas e precisamos ser bonitas o tempo inteiro.

O porquê? Simples: conseguir a atenção do homem mais próximo e garantir a felicidade através do casamento e da construção de uma família. Nos mantermos relevantes no mundo antes que de a velhice chegar (quando seremos descartadas). A pressão estética pode ser vista como frescura por alguns, mas é apenas o resultado de uma mentalidade dominante que não aceita mulheres como são e que praticamente obriga que elas passem por procedimentos dos mais simples ao mais complexos, como uma cirurgia de lipoaspiração, para tentar ocupar esse papel social.

É sempre importante lembrar que mulheres como Liliane não chegam na mesa de cirurgia do nada. Na verdade, essa mentalidade de beleza (e de padrão de beleza), é algo que começa muito antes desse momento. Vale retomar um estudo chocante, desenvolvido pela gigante de cosméticos Dove, que dizia que apenas 11% das garotas no mundo se sentiam confortáveis em dizer que eram "bonitas". Esse número caía para 4% quando as entrevistadas eram mulheres adultas.

Além disso, 72% das meninas diziam se sentir pressionadas para atingir algum tipo de padrão de beleza - o que justifica, e muito, o número de meninas adolescentes que buscam cirurgias plásticas, por exemplo. Segundo dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, liberados em 2019, observou-se um aumento de 141% no número de procedimentos estéticos em jovens de 13 a 18 anos, em um espaço de 10 anos. Esses números, aliás, colaboram para tornar o Brasil o primeiro colocado em números de cirurgias plásticas anuais, no mundo.

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O nível de distorção corporal que meninas e mulheres têm de si mesmas é tão grande que acabou refletido nas redes sociais. Filtros que afinam o nariz, aumentam os lábios, alteram o queixo e até deixam os olhos mais amendoados ganharam fama no Instagram a ponto de estimular meninas e mulheres e buscarem a faca como uma opção para ficarem mais bonitas e mais parecidas com si mesmas após a camada de filtro dos Stories. Não à toa, a rede social decidiu banir esse tipo de filtro por conta do efeito que gerava na autoimagem, principalmente, de meninas adolescentes. Isso tudo é apenas mais um efeito do uso das redes sociais entre a população jovem, citadas como uma das principais causas de agravamento de casos de depressão e ansiedade no meio.

Há alguns meses, vimos outro caso que, felizmente, não terminou como o de Liliane, mas que levantou mais uma vez a questão da necessidade de plástica entre jovens e de quebrar padrões de beleza tão antiquados e inadequados. Giovanna Chaves, aos 18 anos, fez uma lipo e mostrou todo o processo nas redes sociais. As críticas choveram tanto por sua idade, quanto pela necessidade de uma jovem, ainda em fase de crescimento, mexer no corpo de forma tão permanente. Em termos gerais, o corpo feminino está em desenvolvimento até os 20 anos e é sabido que até lá e, inclusive, depois disso, o corpo pode mudar por uma série de fatores, que vão de genética até o estilo de vida de cada uma.

Qualquer que seja o motivo, no entanto, o questionamento que fica é até quando veremos mulheres morrerem por conta de cirurgias que elas não necessariamente precisam. Os estímulos são tantos e, muitas vezes, tão produzidos com filtros e ajustes no Photoshop, que é impossível saber se os corpos e imagens que usamos de referência para nos comparar em termos de beleza são reais. No entanto, há outro passo a ser dado que é, na verdade, um breque: é urgente que comecemos a olhar para mulheres sem encaixá-las em um padrão produzido por uma indústria que lucra milhões de reais anualmente.

Homens não precisam de maquiagem ou de cirurgias plásticas para serem considerados bonitos. Não se colocam sob dietas extremas ou rotinas de exercícios malucas pensando se vão ficar bonitos de roupa de banho ou se serão desejáveis. Essas dores recaem sobre as mulheres, que passam por situações extremamente traumáticas, como contou Thaynara OG, em nome de serem consideradas bonitas. Será que não é o momento de colocar um fim nessa história? A única resposta possível para essa pergunta é “sim".

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