'Lightyear' tem casal lésbico cenográfico e bom humor da Pixar

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Lightyear" é mais importante para a Pixar do que aparenta. Além de marcar o retorno do estúdio aos cinemas desde o começo da pandemia e ser o último projeto aprovado por John Lasseter enquanto comandava a empresa, o derivado de "Toy Story" reformula as propostas mais comerciais da produtora, que tenta deixar para trás as continuações.

Isso porque, apesar da enorme reputação, a Pixar já há algum tempo se equilibrar entre manter intacta a posição como estúdio de animação celebrado e garantir a sustentabilidade de sua operação aos olhos da Disney.

Desde sua apoteose no fim dos anos 2000, quando emendou os lançamentos celebrados de "Ratatouille", "Wall-E", "Up - Altas Aventuras" e "Toy Story 3", a companhia passou a explorar o catálogo para garantir a bonança financeira, o que significou muitas sequências e poucas apostas em um curto espaço de tempo.

O resultado econômico veio, mas o balanço entre arte e comércio ficou mais difícil, sobretudo perante a crise interna das denúncias de assédio de Lasseter e sua saída em 2017. A Pixar desde então se reorganiza e os últimos longas-metragens --"Soul", "Luca" e "Red: Crescer É uma Fera"-- são prova viva disso. Mas o compromisso com o dono ainda existe.

Entra aí "Lightyear", cuja premissa de investigar a origem da criação de Buzz Lightyear no universo de "Toy Story" sugere um esforço menos evidente de seguir faturando em cima da franquia. Ainda mais agora que a história dos brinquedos esgotou de vez, uma sensação comum a outras franquias do estúdio.

O interessante é a seriedade do exercício. Logo no começo, um letreiro informa que a produção é exatamente a que Andy (dono dos personagens no original) assistiu para querer o boneco equivalente, e a produção respeita tal "reprodução" como proposta.

O filme é um blockbuster de ação com pé marcado na ficção científica, brincando em especial com elementos de viagem no tempo. Da Pixar mesmo, só o conhecido estilo de animação e o interesse no humor.

É justo o desafio de inserção que deixa a produção desinteressante, até porque a história no geral sofre de excessos de roteirização. Quem reclama que "Up" seria perfeito se confinado ao prólogo deve passar por um déjà-vu ruim em "Lightyear", pois a trama apressada que prepara o cenário é melhor que o filme, um grande remendo baseado na dificuldade do protagonista em superar o fracasso de uma missão.

O arco de Buzz em si revela a cruz carregada pelo derivado. Estreante em longas, o diretor Angus MacLane trabalha bastante com o lado individualista do personagem, confrontando a sede pelo sucesso a qualquer custo com a importância e forças do coletivo, que chega na mensagem familiar tradicional do estúdio pela via da aventura.

O ângulo é promissor mas se encurrala na indecisão da narrativa em negociar o meio do caminho, o que por sua vez prejudica o bate e rebate do protagonista e da cadete com quem convive boa parte da trama. Na altura que o vilão Zurg é inserido no raciocínio, a fadiga se faz notar.

O que salva "Lightyear" do aborrecimento é o humor, de novo e para sempre o diferencial da Pixar em projetos mais comerciais. A estrela da vez é Sox, gato de estimação robótico criado para aliviar as dores de Buzz e um canivete suíço do roteiro, mas cujas utilidades se tornam surpreendentes.

A quantidade de boas piadas envolvendo o androide é suficiente para despertar a questão do porquê de Andy preferir um boneco do herói ao do bichano depois de ver o filme --o que por sua vez relembra o dilema de existência da produção. Em algum nível, todos os problemas do derivado se relacionam com a necessidade de se "encaixar" na lógica anterior.

Isso inclui a lógica empresarial da própria Disney, aliás. Alardeado, o casal lésbico apresentado no filme é até central na narrativa, mas sua posição é tão cenográfica e descartável quantos outros "esforços" de diversidade recentes da companhia.

"Lightyear" sem dúvida será sucesso de bilheteria, mas a Pixar, se esse for o caminho, ainda tem muito a refinar no lado industrial desse novo momento.

LIGHTYEAR

Onde: Em cartaz

Classificação: Livre

Produção: EUA, 2022

Direção: Angus MacLane

Avaliação: Regular

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