Como é a rotina de quem recebe ligações de pessoas que querem cometer suicídio?

Man crying at home during phone conversation.

Uma ligação pode salvar uma vida? É difícil responder uma pergunta como essa de forma objetiva, mas sabemos que uma ligação pode, sim, oferecer conforto e acolhimento para quem precisa - ainda mais em tempos de distanciamento social. Pelo menos, é isso que acredita Carlos Correia, voluntário do Centro de Valorização da Vida (CVV). 

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Carlos trabalha no centro desde 1992. São quase 28 anos ajudando pessoas em situação de vulnerabilidade, que pensam em suicídio, a mudarem de ideia ou, no mínimo, encontrarem um acalento para aquilo que sentem. "Vi uma divulgação num jornal e depois uma faixa de rua convidando para um curso gratuito de capacitação e seleção de voluntários, que é a porta de entrada para se voluntariar", explica ele ao Yahoo

Como já pensava em fazer trabalho voluntário, Carlos decidiu conhecer mais sobre o CVV, participou do primeiro encontro, gostou da proposta do centro e, depois de mais 10 encontros de três horas uma vez por semana, foi aprovado e começou os plantões. 

Para um serviço que funciona 24 horas por dia, sete dias por semana, imagina-se que os voluntários trabalhem muito. Mas há um sistema bem pensado para que cada um consiga encaixar os atendimentos na rotina, que conta também com cursos de atualização e reciclagem: no total, são quatro plantões por mês (um por semana), de 4h30 cada. Em média, cada voluntário faz 20 atendimentos por plantão, sendo que alguns também atendem via chat online e outros por e-mail. 

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Segundo sua página oficial, o CVV atende em torno de dois milhões de contatos por ano, e conta com 3.400 voluntários espalhados por 24 estados do Brasil mais o Distrito Federal. Funcionando desde 1962, é uma associação civil sem fins lucrativos, fundada em São Paulo e que só conseguiu uma linha de atendimento telefônico de alcance nacional em 2018. Até então, o disque-atendimento (número 188), que começou a funcionar no Rio Grande do Sul, estava disponível em apenas alguns locais brasileiros. 

Ao longo do tempo, Carlos se envolveu com os plantões e com a própria equipe - tanto que, hoje, é porta-voz do centro. "Além disso, acabei me envolvendo com as equipes que fazem a capacitação dos novos voluntários e posteriormente com o grupo de comunicação que se dedica a mostrar a existência do trabalho para a sociedade, tanto para os que precisam de apoio emocional quanto para os que gostariam de ser solidários e ajudar o próximo", diz.

Quem cuida de quem cuida da gente? 

Carlos explica que não viu um aumento no número de ligações e contatos desde o início da quarentena de coronavírus, e que os momentos de maior procura pelo serviço continuam nas datas mais significativas, como o fim de ano, Dia das Mães, Dia dos Pais e Dia dos Namorados. 

Independente da data, porém, atender ligações de pessoas que pensam em acabar com a própria vida e que sentem uma tristeza tão grande a ponto de considerar essa a única saída não é fácil. Por isso que o próprio centro oferece suporte para os seus voluntários. 

"Temos encontros mensais entre nós voluntários, onde podemos conversar sobre nossas dificuldades eventuais em plantão e sobre nossa vida pessoal, caso desejemos", conta Carlos. Para quem trabalha no CVV, essa é uma ocasião para aprimorar o autoconhecimento, o que ajuda no dia a dia e nos plantões. Aliás, durante as trocas de plantão, é possível também conversar com o colega que faz a troca, compartilhando qualquer coisa que tenha mexido demais - ressaltando que nunca é falado diretamente sobre a situação concreta para não quebrar o sigilo das ligações recebidas. 

Se temos dificuldade quando pessoas próximas a nós - e até estranhos - passam por situações de sofrimento extremo, como seria ter de lidar com isso semanalmente, de forma tão direta? Entra aí um treinamento de distanciamento emocional. Carlos aprendeu a lidar com esse tipo de contato quando fez o curso de capacitação de voluntários justamente porque é fácil uma pessoa comum se envolver com o sofrimento do outro - é a típica identificação. 

"Como o nosso foco na conversa é no que a pessoa está sentindo ao passar por determinada situação e não no problema em si, fica mais fácil o acolhimento sem envolvimento", diz.

Isso, claro, não significa que não existam dificuldades no trabalho. Para o voluntário, a principal questão é conversar com doentes terminais em sofrimento. Porém, sabendo disso, Carlos sempre tenta compensar qualquer questão que tenha com a sua atenção máxima. "Me esforço para acolher essas pessoas com o meu melhor, neste momento em que estão muito vulneráveis e fragilizadas", conta.

O que fazer em momentos difíceis? 

É fato que estamos passando por um momento extremamente complicado - e a incerteza do futuro não facilita. Qualquer pessoa pode passar por um momento difícil, mas o importante é saber que existem pessoas dispostas a ouvir caso você queira compartilhar o que anda sentindo. 

Esse é o recado de Carlos, que lembra que nem todo mundo tem um sistema de apoio próximo e disposto a ouvir, como família ou amigos. "Muitas pessoas não podem contar ou realmente não têm um confidente para se abrir e com isso aliviar o sofrimento daquele momento, porém elas podem contar com o acolhimento que os voluntários do CVV oferecem anônima e gratuitamente, sem julgamentos e a atenção e respeito que elas merecem", diz.

Vale lembrar que as ligações para o CVV, pelo telefone 188, são gratuitas e podem ser feitas 24h por dia, 7 dias por semana. Você também pode entrar em contato por meio do site oficial do centro (via e-mail ou pelo chat online). No período de distanciamento social, o CVV só não oferece atendimento presencial nas unidades espalhadas pelo país.