Como é a rotina de quem recebe ligações de pessoas que querem cometer suicídio?

Marcela De Mingo
·5 minuto de leitura
Man crying at home during phone conversation.
Man crying at home during phone conversation.

Uma ligação pode salvar uma vida? É difícil responder uma pergunta como essa de forma objetiva, mas sabemos que uma ligação pode, sim, oferecer conforto e acolhimento para quem precisa - ainda mais em tempos de distanciamento social. Pelo menos, é isso que acredita Carlos Correia, voluntário do Centro de Valorização da Vida (CVV).

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Carlos trabalha no centro desde 1992. São quase 28 anos ajudando pessoas em situação de vulnerabilidade, que pensam em suicídio, a mudarem de ideia ou, no mínimo, encontrarem um acalento para aquilo que sentem. "Vi uma divulgação num jornal e depois uma faixa de rua convidando para um curso gratuito de capacitação e seleção de voluntários, que é a porta de entrada para se voluntariar", explica ele ao Yahoo.

Como já pensava em fazer trabalho voluntário, Carlos decidiu conhecer mais sobre o CVV, participou do primeiro encontro, gostou da proposta do centro e, depois de mais 10 encontros de três horas uma vez por semana, foi aprovado e começou os plantões.

Para um serviço que funciona 24 horas por dia, sete dias por semana, imagina-se que os voluntários trabalhem muito. Mas há um sistema bem pensado para que cada um consiga encaixar os atendimentos na rotina, que conta também com cursos de atualização e reciclagem: no total, são quatro plantões por mês (um por semana), de 4h30 cada. Em média, cada voluntário faz 20 atendimentos por plantão, sendo que alguns também atendem via chat online e outros por e-mail.

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Segundo sua página oficial, o CVV atende em torno de dois milhões de contatos por ano, e conta com 3.400 voluntários espalhados por 24 estados do Brasil mais o Distrito Federal. Funcionando desde 1962, é uma associação civil sem fins lucrativos, fundada em São Paulo e que só conseguiu uma linha de atendimento telefônico de alcance nacional em 2018. Até então, o disque-atendimento (número 188), que começou a funcionar no Rio Grande do Sul, estava disponível em apenas alguns locais brasileiros.

Ao longo do tempo, Carlos se envolveu com os plantões e com a própria equipe - tanto que, hoje, é porta-voz do centro. "Além disso, acabei me envolvendo com as equipes que fazem a capacitação dos novos voluntários e posteriormente com o grupo de comunicação que se dedica a mostrar a existência do trabalho para a sociedade, tanto para os que precisam de apoio emocional quanto para os que gostariam de ser solidários e ajudar o próximo", diz.

Quem cuida de quem cuida da gente?

Carlos explica que não viu um aumento no número de ligações e contatos desde o início da quarentena de coronavírus, e que os momentos de maior procura pelo serviço continuam nas datas mais significativas, como o fim de ano, Dia das Mães, Dia dos Pais e Dia dos Namorados.

Independente da data, porém, atender ligações de pessoas que pensam em acabar com a própria vida e que sentem uma tristeza tão grande a ponto de considerar essa a única saída não é fácil. Por isso que o próprio centro oferece suporte para os seus voluntários.

"Temos encontros mensais entre nós voluntários, onde podemos conversar sobre nossas dificuldades eventuais em plantão e sobre nossa vida pessoal, caso desejemos", conta Carlos. Para quem trabalha no CVV, essa é uma ocasião para aprimorar o autoconhecimento, o que ajuda no dia a dia e nos plantões. Aliás, durante as trocas de plantão, é possível também conversar com o colega que faz a troca, compartilhando qualquer coisa que tenha mexido demais - ressaltando que nunca é falado diretamente sobre a situação concreta para não quebrar o sigilo das ligações recebidas.

Se temos dificuldade quando pessoas próximas a nós - e até estranhos - passam por situações de sofrimento extremo, como seria ter de lidar com isso semanalmente, de forma tão direta? Entra aí um treinamento de distanciamento emocional. Carlos aprendeu a lidar com esse tipo de contato quando fez o curso de capacitação de voluntários justamente porque é fácil uma pessoa comum se envolver com o sofrimento do outro - é a típica identificação.

"Como o nosso foco na conversa é no que a pessoa está sentindo ao passar por determinada situação e não no problema em si, fica mais fácil o acolhimento sem envolvimento", diz.

Isso, claro, não significa que não existam dificuldades no trabalho. Para o voluntário, a principal questão é conversar com doentes terminais em sofrimento. Porém, sabendo disso, Carlos sempre tenta compensar qualquer questão que tenha com a sua atenção máxima. "Me esforço para acolher essas pessoas com o meu melhor, neste momento em que estão muito vulneráveis e fragilizadas", conta.

O que fazer em momentos difíceis?

É fato que estamos passando por um momento extremamente complicado - e a incerteza do futuro não facilita. Qualquer pessoa pode passar por um momento difícil, mas o importante é saber que existem pessoas dispostas a ouvir caso você queira compartilhar o que anda sentindo.

Esse é o recado de Carlos, que lembra que nem todo mundo tem um sistema de apoio próximo e disposto a ouvir, como família ou amigos. "Muitas pessoas não podem contar ou realmente não têm um confidente para se abrir e com isso aliviar o sofrimento daquele momento, porém elas podem contar com o acolhimento que os voluntários do CVV oferecem anônima e gratuitamente, sem julgamentos e a atenção e respeito que elas merecem", diz.

Vale lembrar que as ligações para o CVV, pelo telefone 188, são gratuitas e podem ser feitas 24h por dia, 7 dias por semana. Você também pode entrar em contato por meio do site oficial do centro (via e-mail ou pelo chat online). No período de distanciamento social, o CVV só não oferece atendimento presencial nas unidades espalhadas pelo país.