Liga da Justiça de Zack Snyder - Crítica do Chippu

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Talvez a parte mais irônica do Liga da Justiça de Zack Snyder, o famoso Snyder Cut, é que para um filme recheado de tanta história, com personagens tão importantes e uma saga tão longa até seu lançamento nesta quinta-feira (18), é que seu interior é mais normal do que você imaginaria. Por trás das câmeras lentas e composições de cenas poéticas que o diretor coloca em cada momento que consegue está um filme de herói que segue bastante as regras do gênero. Seu maior problema é, curiosamente, o que o torna tão épico em escala.


Você conhece a história. Snyder estava em briga com a Warner Bros. quando sofreu uma tragédia na família. Após a morte da filha, o diretor decidiu que não conseguia encarar as diferenças criativas com o estúdio e enfrentar o luto, deixando para trás o projeto que foi, eventualmente, concluído por Joss Whedon com bem mais humor (e minutos) do que inicialmente planejado. Agora, anos e milhões de dólares depois, o Snyder Cut está aqui. Todas as suas quatro horas.


Sim, quatro horas de Liga da Justiça no universo com a visão de Zack Snyder. Talvez essa seja a melhor qualidade deste filme. Em um mundo onde produções de heróis parecem muitas vezes seguir padrões como um fast food, aqui está alguém que realmente tem uma ideia. É justamente a direção criativa que o torna tão polêmico. Ele é o mesmo diretor que abandonou a ideia de super-heróis como bastiões da moralidade ao colocar Perry White (Laurence Fishburne) dizendo "não é mais 1938" para Clark Kent (Henry Cavill) em Batman vs. Superman: A Origem da Justiça. Não, ele está mais interessado em outras ideias do que em heroísmo.


Curiosamente, parece que os anos amadureceram essa visão. O novo Liga da Justiça é, acima de tudo, um filme sobre heróis como Snyder os vê - figuras modernas que devem nos lembrar dos mitos e figuras religiosas. Todos os Snydismos que você pode imaginar está presente. As poses de Cristo no Superman, as composições feitas para parecerem obras artísticas clássicas, as pausas dignas de pôsteres. Aqui, ele parece mais interessado em observar esses personagens como símbolos do que como homens corrompidos. Por trás de todo esse estilo, entretanto, não há muito que se destaque.


As primeiras duas horas do Snyder Cut, suficientes para um filme só, parecem uma coleção de curtas sobre os heróis da DC, estufando seu interior com história de origem após história de origem, preenchendo cada segundo com câmera lenta, exposição e elementos que procuram elevar o enredo ao senso de grandiosidade que os fãs tanto veem nos longas do diretor. Quando Aquaman (Jason Momoa) entra no mar, o povo que ele ajuda canta como se estivesse vendo seu deus ascender (ou, nesse caso, submergir), sem que ele tenha em algum momento demonstrado merecer isso. Quando o Ciborgue (Ray Fisher) descobre seus poderes, ele é descrito como o senhor sobre toda a tecnologia, uma habilidade que ao longo do filme é mais usada para pilotar veículos do que qualquer outra coisa.


Mas a mesma câmera lenta aplicada por Snyder, por exemplo, no momento mais importante do seu universo - a morte do Superman em BvS, reproduzida na abertura do novo corte - também está presente na queda de uma semente de gergelim em uma cena com o Flash (Ezra Miller). O novo tema da Mulher-Maravilha (Gal Gadot) é repetido em cada ação da personagem, ao ponto de se tornar engraçado. Beba cada vez que ele toca e imagino que sua manhã seguinte será acompanhada por uma bela dor de cabeça.


Debaixo de toda essa maquiagem e pintura, Snyder conta a mesma história que vimos em 2017. O Lobo da Estepe (Ciarán Hinds) quer juntar três Caixas Mães para destruir a Terra e abrir o caminho para a chegada do grande vilão Darkseid (Ray Porter). Para impedi-lo, Batman (Ben Affleck) deve juntar os heróis já mencionados numa aliança que salvará a existência. Se isso tudo parece semelhante a diversos outros títulos do gênero - artefatos poderosos, personagens que inicialmente não querem cooperar, um inimigo que aponta para uma ameaça muito maior - não se surpreenda. É mesmo. Não há um senso de urgência aqui, não há um momento em que, apesar da iminente destruição da humanidade, os riscos parecem palpáveis.


Talvez essa seja a maior decepção. Em seu ótimo O Homem de Aço, Snyder deu ao Superman um palco grandioso. A mesma impressão está presente no acidente aéreo que é Batman vs Superman. Apesar dos Marthas e Batman assassino, o sentimento de importância estava ali. Nesse Liga da Justiça? Os picos não são tão altos.


O grande tema é a necessidade de união. Ou melhor, a inevitabilidade dela. A escuridão vai se unir e a única maneira de impedi-la é fazendo com que a luz faça o mesmo. Os heróis, entretanto, não estão disposto a fazer isso depois de se ferirem tanto por mãos de pessoas que amavam. Todos os personagens da Liga são marcados pelas perdas que tiveram, sejam elas seus pais, seu planeta, seu povo ou sua vida, eles estão marcados pelo luto e preferem o isolamento à esperança. A diferença disso está em Barry Allen, a quem Miller - um dos melhores pontos do filme - adiciona uma leveza e humor muito bem-vindos num filme cuja seriedade beira a paródia. Talvez seja porque ele ainda tem seu pai, mas aqui está alguém que ainda acredita em algo.


A jornada mais interessante é a de Ciborgue. Victor Stone claramente era o coração do filme de Snyder e a pessoa que encarnaria os seus temas. Seu arco com seu pai, Silas (Joe Morton) e sua nova identidade como meio-homem, meio-máquina, é o mais trabalhado de todo o roteiro, mesmo que às vezes com metáforas óbvias ao ponto de parecerem brincadeira, como uma nave que "quer voar mas não consegue." Ela só pode consertada por Ciborgue, e quando ele o faz, há a sensação de que o herói finalmente aceitou quem é.


É esse tipo de coisa que torna Liga da Justiça de Zack Snyder tão rasa. Por trás dos enquadramentos - quase em 4:3 - evocando obras de arte clássica, das câmeras lentas que o diretor potencializa ao diminuir ainda mais a velocidade e dos termos pesados como Grande Escuridão e Unidade, está uma história que lida com os maiores clichés do gênero. Problemas com pais, ser diferente num mundo normal, aceitar seu chamado. Você já viu isso tudo. Quando você tenta deixar tudo épico, de uma simples exposição ao fim do mundo, o efeito é reverso. O que devia empolgar vira anestésico.


No fim, o Snyder Cut é um filme bem mais competente que o que a Warner lançou em 2017, mas é fácil entender porque o estúdio não queria quatro horas de origens, exposição e baixa velocidade. Ele também é um passo de redenção para o diretor, que finalmente concluiu seu magnum opus e mostrou ainda acreditar no heroísmo depois de abandoná-lo em Batman vs Superman. Mas até você chegar na última hora dessa longa jornada - quando a longa plantação acaba e finalmente entramos na colheita, quando a equipe se une e o roteiro parece sair da primeira marcha pela primeira vez - é surpreendente ver o quão quadrada ela é. E eu não quero dizer apenas na resolução.


As campanhas pelo lançamento do seu infame corte deixavam a entender que havia algo importante nessa versão da história. Apesar de momentos de brilho - o retorno triunfante do Superman vai deixar qualquer pessoa (particularmente quem amou Homem de Aço) com um sorriso no rosto - este Zack Snyder não merece as divisões que causa na cultura. Seus vícios e qualidades estão todos aqui. Liga da Justiça é, de fato, autoral. Para o bem e para o mal. Ele tem problemas como a duração exagerada, um epílogo que parece mais fanservice (e talvez seja mesmo) do que uma história e pontos narrativos já batidos. Mas o que este filme revela, acima de tudo, é que talvez seu autor não tenha tanto a dizer.


Nota: 2.5/5