Twitter de Bolsonaro tem comportamentos diferentes de acordo com celular, diz jornal

Andre Penner/AP

RESUMO DA NOTÍCIA

  • Levantamento identificou uma diferença nos padrões de mensagem na conta oficial do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) no Twitter.

  • Parte das postagens vem de um iPhone, mesmo celular de Carlos Bolsonaro, com tom de embate e polêmica; parte vem de um Android com tom mais conciliador.

Um levantamento do jornal Folha de S.Paulo identificou uma diferença nos padrões de mensagem na conta oficial do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) no Twitter.

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Parte das postagens parte de um iPhone, mesmo celular do filho número dois de Bolsonaro, o vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), que já admitiu ter publicado na conta do pai. Nesse caso, a preferência é pelo embate e pela polêmica, ao compartilhar mensagens dos filhos e de contas identificadas com a direita.

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O outro perfil prioriza a comunicação institucional, ao prestigiar iniciativas do governo e páginas de ministros. Nesse caso, o presidente apaziguador usa um Android, do modelo Galaxy.

Em pouco mais de um ano de mandato, o presidente transformou as redes sociais em uma ferramenta de governo. Por meio delas, ele antecipa medidas e anuncia demissões.

Assessores presidenciais afirmaram que Bolsonaro tem mais de um celular. Mesmo assim, porém, usa com mais frequência um Galaxy Note. O aparelho opera sistema Android.

Em outubro, no entanto, o vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), filho do presidente, admitiu que já postara conteúdo na conta oficial do pai.

Conforme o levantamento da Folha, a maioria das postagens do vereador feitas no ano passado vieram de um iPhone, assim como a mensagem que ele publicou e apagou do perfil do presidente em defesa da execução de pena após a condenação em segunda instância.

"Eu escrevi o tweet sobre segunda instância sem autorização do presidente. Me desculpem a todos! A intenção jamais foi atacar ninguém! Apenas expor o que acontece na Casa Legislativa!", escreveu Carlos.

A mensagem criou um desentendimento entre pai e filho, já que o presidente queria evitar o assunto na esfera pública para não se indispor com o STF (Supremo Tribunal Federal), que analisava a questão e decidiu por rejeitar a possibilidade.

Após o episódio, comentou um aliado de Bolsonaro, Carlos chegou a ficar cerca de 45 dias sem falar com Bolsonaro, mas eles fizeram as pazes no fim do ano.

No início de fevereiro, as postagens do perfil oficial de Carlos, que antes eram feitas na maioria por iPhone, passaram a ser realizadas por Android.

Carlos foi responsável pela estratégia de comunicação online que ajudou a eleger o pai. Mesmo após a vitória de Bolsonaro, o vereador continuou o ajudando nas redes sociais.

O vereador é o mais agressivo dos filhos do presidente nos canais digitais, ambiente em que se sente seguro para rechaçar a imprensa, criticar adversários e desautorizar aliados do pai.

Foi de um iPhone também que foram publicadas na conta oficial do presidente outras mensagens consideradas controversas. Uma delas é a em que Bolsonaro questionava o que era "golden shower", no Carnaval de 2019.

Após repercussão negativa, sobretudo na base bolsonarista e no público evangélico, o vídeo com cenas eróticas que acompanhava a pergunta foi apagado.

Outra mensagem, também publicada pelo mesmo sistema operacional, foi o vídeo compartilhado em outubro que comparava a hienas o STF (Supremo Tribunal Federal) e a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). Também nesse caso o presidente apagou a mensagem.

"Me desculpo publicamente ao STF, a quem porventura ficou ofendido. Foi uma injustiça, sim, corrigimos e vamos publicar uma matéria que leva para esse lado das desculpas", disse em entrevista.

O levantamento aponta que as postagens feitas por iOS retuitaram mais do que as realizadas por Android as contas oficiais dos filhos do presidente, sobretudo de Carlos e Eduardo Bolsonaro (PSL-SP).

O sistema Android, por sua vez, deu mais destaque que o iOS na divulgação das mensagens de ministros, como Tarcísio de Freitas (Infraestrutura), Sergio Moro (Justiça) e Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional).

Além disso, ele fez ainda uma maior divulgação de conteúdo publicado pela rede social da Secom (Secretaria Especial de Comunicação Social) da Presidência da República, que já foi mais de uma vez criticada por Carlos.

O vereador se referiu à comunicação institucional em dezembro, por exemplo, como uma "bela de uma porcaria". A estrutura é subordinada à Secretaria de Governo, comandada pelo general Luiz Eduardo Ramos.

Antecessor do ministro, o também general Carlos Santos Cruz foi exonerado do cargo. A saída ocorreu após justamente ele ter protagonizado um desentendimento com o filho do presidente.

Bolsonaro tem tomado decisões e definido recuos administrativos, desde o segundo semestre de 2019, com base na reação das redes sociais, sobretudo do eleitorado bolsonarista.

As posições adotadas por ele, que tenta evitar a todo o custo uma deterioração de sua base de apoio, contrariaram muitas vezes recomendações até mesmo de sua equipe de ministros.

Como mostrou o Datafolha, o comportamento se tornou mais acentuado após ele ter enfrentado um aumento de sua reprovação em setembro.

Pelo levantamento, se aponta que o núcleo duro de apoio a Bolsonaro era de 12% da população, o que levou o Palácio do Planalto a iniciar uma estratégia de reação para tentar aumentar o percentual do chamado "bolsonarista heavy".

Em dezembro, a taxa de bolsonaristas que aprovam e apoiam tudo o que ele diz passou para 14%.

Para evitar a perda de mobilização, o presidente resolveu atuar como porta-voz de seu próprio governo. Ele municia a militância digital com declarações diárias, concedidas na entrada do Palácio da Alvorada.

O chamado "gabinete da raiva", bunker digital que atua no terceiro andar do Planalto sob a tutela de Carlos, paralelamente, trabalhou mais ativamente na produção de conteúdo digital que alimente apoiadores do presidente.

Por exemplo, os protestos marcados para o dia 15 de março fazem parte da estratégia de manter a militância mobilizada. Bolsonaro até compartilhou vídeo, em grupo de WhatsApp, que faz uma convocação para o protesto.

Como os organizadores carregam bandeiras contra o Legislativo e o Judiciário, o gesto causou uma crise institucional.

Bolsonaro e congressistas chegaram a um acordo para uma nova divisão do chamado Orçamento impositivo. A disputa por dinheiro público foi pivô de mais uma crise entre Executivo e Legislativo, e isso inflamou ainda mais os atos.