Lesões no CrossFit: fato ou fake?

Foto: Getty Images


Por Natália Leão (@natileao_)

E aí, você já fez seu WOD hoje? Mas foi AMRAP ou For Time? E teve Thruster, Double Under e Pistol? Se você entendeu o parágrafo acima, com certeza é um praticante de CrossFit. E vocês são muitos! Que o esporte caiu no gosto dos brasileiros todo mundo sabe, é só andar pelas cidades para perceber que os boxes estão em cada esquina, literalmente.

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O Brasil tem o segundo maior número de praticantes de Crossfit no mundo. Apesar de arrebatar seguidores, muita gente ainda torce o nariz para a modalidade considerada excessivamente intensa e até perigosa. O grande medo que paira entre quem não pratica e até entre alguns adeptos é o risco de lesões. Mas será que há razão para temer?

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De acordo com o próprio criador do CrossFit, Greg Glassman, "a metodologia que impulsiona o CrossFit é inteiramente empírica", ou seja, foi desenvolvida a partir da prática, da observação e não de teorias e testes científicos. Mas é claro que, com o sucesso, os cientistas começaram a pesquisar a tal modalidade de altíssima intensidade seguida por militares norte-americanos.

O que dizem as pesquisas

Os primeiros estudos sobre o tema começaram a aparecer em 2013. Nos últimos 3 anos a produção acadêmica sobre CrossFit cresceu 185%. Em 2016 eram encontrados 204 estudos que continham a palavra CrossFit no seu conteúdo, agora são 582 estudos nas 5 das principais bases de dados do mundo. “De acordo com um estudo de revisão da literatura científica realizado pelo nosso grupo, a incidência de lesões no CrossFit é de 1,9 a 3,1 lesões por 1000 horas de treinamento”, explica João Gustavo Claudino, PhD e Cientista do Esporte da USP. Mas isso é muito ou pouco? “A porcentagem é similar a de outros esportes individuais e coletivos reportados em outros estudos de revisão, como por exemplo, o levantamento de peso olímpico (LPO), a corrida de rua, o futebol e o rugby”.

Quando as lesões acontecem

Os estudos concluíram que as lesões mais comuns em praticantes de CrossFit são as de ombros e joelhos, mas ainda não é possível apontar o motivo das lesões de forma conclusiva por um motivo simples: “No ponto de vista científico, os resultados a longo prazo ainda não são possíveis, visto que o primeiro estudo científico publicado foi em 2013. Por enquanto, as perspectivas dos efeitos da prática da modalidade seriam de curto e médio prazo”, diz Claudino.

Mas o Colégio Americano de Medicina do Esporte (ACSM) em conjunto com o Consórcio de Saúde e Desempenho Militar (CHAMP), também dos Estados Unidos, têm uma hipótese: a execução de exercícios com elevada demanda técnica em condição de fadiga, situação típica do CrossFit, pode ser o gatilho das lesões.

O especialista em medicina esportiva do Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas da USP, Tiago Lazzaretti Fernandes, aponta que alguns movimentos da CrossFit apresentam chances aumentadas de lesão. “Correr em uma calçada irregular com um saco de areia apoiado em apenas um dos ombros é notadamente perigoso. Sair de uma posição de agachamento total com um grande peso nas costas também é um movimento fisiológico, logo apresenta risco elevado”.

Outro estudo recente aponta que a lesão é mais comum nos casos em que não há supervisão para os atletas. “Sendo mais frequente no caso de praticantes do sexo masculino que podem não buscar ativamente a supervisão do Coach durante a sessão de treinamento de CrossFit”, complementa Claudino. Ou seja, se você não quer se machucar, peça ajuda e siga as orientações. Vale para o Crossfit e para qualquer outra atividade física.

Vamos falar de coisa boa?

Os benefícios dos exercícios de alta intensidade são comprovados. Estudos mostram eles podem melhorar o condicionamento aeróbico, o controle do nível de açúcar no sangue, a pressão arterial, entre outros marcadores. “Também é importante ressaltar o CrossFit é coletivo e altamente motivacional, constrói grupos em torno de uma atividade saudável”, diz Lazzaretti. “A modalidade também é capaz de trabalhar de forma combinada as capacidades cardiovascular e de fortalecimento muscular. Se realizada com orientação e técnica corretas, na intensidade e carga adequadas para cada indivíduo ela é benéfica”, conclui. Resumindo, o que define se o CrossFit vai ser benéfico ou não, é a forma como você pratica. “Costumamos dizer de forma bem simples que: ‘água demais mata a planta e água de menos também mata a planta’”, comenta Claudino. “Buscar este nível ótimo de carga de treinamento é o grande desafio atualmente, não somente no CrossFit, mas em todos os esportes coletivos e individuais”.