Lésbicas precisam lutar por espaço mesmo dentro da comunidade LGBTQIA+

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Ananda Flora e Bruna Calazans com seus gatos (Foto: Arquivo Pessoal)
Ananda Flora e Bruna Calazans com seus gatos (Foto: Arquivo Pessoal)

A primeira vez em que me deparei com a minha sexualidade de verdade aconteceu quando eu tinha 16 anos, ao trocar o primeiro beijo com outra mulher. A partir deste dia, a minha vida inteira mudou, mas existem algumas coisas que continuo ouvindo até hoje, já beirando meus 26.

"Você ainda não encontrou o cara certo”; “Isso é falta de macho!”; “Quem é o homem da relação?”; "Você está querendo ser um homem!” Todas essas afirmações - e muitas outras - continuam a assombrar a vida de mulheres que dedicam suas vidas para amar e se relacionar com outras.

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Além da lesbofobia que esse tipo de afirmação carrega, existe uma boa dose de machismo e misoginia em querer diminuir a legitimidade de uma relação entre duas mulheres. Afinal, em uma sociedade falocêntrica e patriarcal, é difícil levar a sério um relacionamento onde nenhum homem sai ganhando.

Em uma sociedade que se curva para os desejos e vontades do homem, amar outra mulher é um ato de resistência

Meu ciclo social é rodeado de homens gays, e em pouquíssimas ocasiões ouvi algum deles dizer que foi ofendido dessa forma - como se faltasse uma figura feminina em suas relações. Os comentários normalmente tendem a dizer que o fato de um homem ser gay seria um desperdício para uma mulher - que não vai poder agradar ele de alguma forma.

“A mulher sempre está ali para servir o homem de alguma forma, e com mulheres lésbicas isso não é diferente. Quando você para pensar que a mulher, se ela não é heterossexual, ela não pode ser só uma mulher lésbica. Se ela realmente não quer ficar com um homem ela só pode odiar homens ou ela quer ser um. Não é possível que você seja apenas uma mulher que não tem interesse, nenhum afeto por homens”, explica a psicóloga Angélica Glória, que também é lésbica e autora do livro “Fisgadas”.

Sim, existe gay machista

Essa diferenciação no tratamento pode ser notada em vários âmbitos, locais e situações - sejam elas protagonizadas por heterossexuais ou membros da comunidade LGBTQIA+. Quando falamos sobre uma novela exibir um beijo homossexual no horário nobre, qual casal lhe vem a mente? Um casal composto por homens ou mulheres? O casal é gay, a parada é gay, o orgulho é gay.

Isso tudo se deve ao simples fato de que, antes de ser gay, um homem é um homem. Ele foi criado para ser o protetor, o forte, o dono de todas as atenções - salvo algumas exceções. E isso não vai mudar conforme a sexualidade daquele homem - apenas quando ele perceber que as mulheres ao seu redor também merecem ser valorizadas.

“Isso é uma coisa complexa e que acaba sempre oprimindo mulheres lésbicas, jogando a gente sempre para esse lugar de que, se você não for uma mulher feminina, namorando um cara, então você precisa admitir uma identidade de homem”, analisa a psicóloga.

“Pensando dentro da psicologia, nós temos muito pouco trabalho sobre isso. Por isso existe essa necessidade de pensar outros olhares acerca da lesbianidade. Não existe esse espaço, por questão de lesbofobia, mas também por misoginia. As pessoas não estão interessadas em prestar atenção em mulheres que não se relacionam com homens. Parece que a mulher só tem um valor enquanto ela está associada a um homem”, finaliza Angélica.

Nós, mulheres lésbicas, precisamos lutar por espaço até mesmo em uma sigla que começa conosco. Precisamos provar que nossas relações existem, não são para fetiche de ninguém e são tão válidas como qualquer outra - sejam relações homo ou hétero. Em uma sociedade que se curva para os desejos e vontades do homem, amar outra mulher é um ato de resistência.

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