Leonardo Padura e sua relação vital com Havana

Com uma visão perfeita de um terraço na parte histórica de Havana, o escritor cubano Leonardo Padura fala do material que nutre suas histórias, de seu último romance e do que ele percebe como uma tentativa oficial de invisibilizá-lo.

“Tenho um forte senso de pertencimento a esta cidade, a esta cultura e a esta maneira de ser e de entender a vida e, para um escritor, ter essa relação de pertencimento é muito importante. O desenraizamento é terrível para qualquer pessoa; para o escritor, é fatal", disse Padura à AFP, durante uma breve estada em Cuba, em meio à promoção internacional de seu novo romance "Personas decentes", editado pela Tusquets.

O autor de 67 anos volta para casa depois de meses de ausência, embora seu romance ainda não tenha chegado às livrarias locais e não seja mencionado pela imprensa cubana.

"Os leitores cubanos já estão acostumados", por isso, no dia seguinte ao lançamento do romance na Espanha, em 31 de agosto, a "cópia (digital) pirata já estava circulando em Cuba", diz Padura, considerado o escritor cubano vivo mais lido dentro e fora da ilha.

É, "em parte, o que tenho chamado de processo de invisibilização da minha figura em Cuba", afirmou, com convicção.

Ele também tem certeza de que Havana é seu lugar e, em especial, seu bairro de Mantilla, onde também vive Mario Conde, o fracassado investigador com vocação literária, protagonista de vários de seus livros e que retorna nesta publicação.

Como acontece em várias de suas histórias, "Personas decentes" brinca com duas histórias paralelas marcadas pela efervescência social. Uma é a que caracterizou a vida cubana em 1910, quando o país acabava de se tornar independente. Outra é a que predominou em 2016, pouco depois do restabelecimento das relações com os Estados Unidos.

Em 2016, a vida em Havana se agitou com a visita de Barack Obama, o show dos Rolling Stones, a passarela da Chanel e uma onda de turistas chegando em cruzeiros, procedentes do país vizinho, fazendo florescer o comércio local.

Isso foi apenas "como um parêntese", ressalta Padura.

Um ano depois, Donald Trump reverteu tudo. Voltou o "estado de tensão, de confrontação com a linguagem de Guerra Fria que dominou as relações (bilaterais) por tantos anos".

- "Terapia recomendada" -

No romance, a ser publicado em 2023 em inglês e francês, Mario Conde investiga o assassinato de um homem que havia sido "a encarnação de um carrasco da intelectualidade cubana" na década de 1970.

"Um personagem de ficção construído com base em vários personagens reais que foram os rostos visíveis, os executores de toda essa política de repressão cultural", descreve o artista, que reconhece que esse romance é duro e tem um ar pessimista.

Em Cuba, ele enfrenta problemas semelhantes aos de todos os outros, como fazer fila para conseguir combustível, ou comida, e também desfruta da paixão compartilhada pelo beisebol – "uma paixão que é cultural, não apenas esportiva", diz ele.

Aquilo de que ele mais gosta de fazer quando está em Havana é comer acompanhado de um bom vinho em uma mesa ao ar livre e praticar "uma terapia" recomendada por Mario Conde: "Sentar com os amigos e passar a noite falando merda", diz.

"É um dos exercícios que mais te alivia espiritualmente, e fazer isso com os amigos é maravilhoso", ensina.

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