Leitura será a maior rede de livrarias do Brasil

BRUNO MOLINERO E ROGÉRIO GENTILE

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Se as livrarias Saraiva e Cultura vêm acumulando prejuízos mesmo depois dos pedidos de recuperação judicial, em 2018, outras empresas tentam ocupar o vácuo deixado pelas duas companhias, que dividiam o posto de mais importantes do mercado.

A Travessa, por exemplo, abriu no ano passado a sua primeira loja em São Paulo e vai inaugurar outra em Niterói, no Rio de Janeiro, em abril. A capital paulista também viu surgir nos últimos meses outras pequenas livrarias de rua, caso da Mandarina e da Livraria da Tarde, ambas no mesmo bairro de Pinheiros no qual se instalou a Travessa. Em março, será a vez da Megafauna, no Copan, no centro da cidade.

"A expectativa é que o mercado volte a crescer neste ano", aposta Marcos Teles, presidente da Leitura. Até março, a rede de livrarias deve se tornar a maior do país em quantidade de lojas físicas.

Com 72 pontos físicos atualmente, a Leitura inaugura uma nova livraria no shopping Ibirapuera, em São Paulo, na semana que vem, quando a rede irá se igualar em número de estabelecimentos com a Saraiva. Em março, abre outra em Juiz de Fora, em Minas Gerais. Em abril, mais uma no shopping Santana Parque, também na capital paulista. A projeção da empresa é que, até dezembro, sete lojas sejam inauguradas.

Criada em 1967 em Belo Horizonte, a empresa surgiu vendendo livros novos e usados em um ponto de 40 metros quadrados. Mais tarde, ela se espalhou por Minas Gerais e por cidades do Norte e do Nordeste. Em 2010, passou a apostar no interior paulista, antes de inaugurar lojas na capital.

As novas unidades dos shoppings Ibirapuera e Santana Parque, por exemplo, abrem as portas em pontos onde a Saraiva fechou estabelecimentos.

"É natural ocupar o espaço. São lojas nos mesmos shoppings, mas geralmente com tamanhos menores", diz Teles. "Precisamos enquadrar nossas livrarias no tamanho que o momento exige. Lojas grandes, com mais de 3.000 metros quadrados, estão em xeque."

Segundo Marcos da Veiga Pereira, presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros, o Snel, o fato de Cultura e Saraiva continuarem a operar no vermelho dá pouca segurança para os editores oferecerem mais crédito, o que ele afirma ser fundamental para a recuperação das duas.

"Ainda assim, os números do final de 2019 foram muito positivos --nos quatro últimos meses do ano, o mercado cresceu 23%, revertendo as fortes perdas do primeiro trimestre. Isso nos dá esperança para 2020", diz Pereira.

Teles, o presidente da Leitura, aponta três causas para a crise de Saraiva e Cultura. A primeira é a competição nas vendas online, fazendo com que ambas comercializassem títulos a preço de custo ou até com prejuízo para apresentar um bom volume de vendas.

O segundo é a manutenção de lojas deficitárias. Por último, ele lembra a aposta em eletrônicos e artigos de papelaria, que pouco têm a ver com o modelo de negócio do setor.

Na organização financeira da Leitura, o empresário diz que fecha todos os anos a loja com piores resultados. "Não temos livrarias deficitárias com mais de dois anos de funcionamento." Sem dívidas, a empresa registra desde 2018 crescimento médio de 9%.

Isso em um mercado que viu as livrarias desaparecerem nas últimas décadas. Segundo dados do IBGE, 42,7% das cidades brasileiras tinham livrarias em 2001. Em 2018, esse número caiu para apenas 17,7%.