Lázaro Ramos ressalta que, 'se pudesse', teria feito filme contra governo Bolsonaro

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Diretor do filme
Diretor do filme "Medida Provisória" na pré-estreia em Salvador, em março de 2022 (Foto: Divulgação)

Com estreia prevista para 14 de abril nos cinemas brasileiros, o longa-metragem "Medida Provisória" foi escrito ainda em 2015. O roteiro é inspirado na peça teatral "Namíbia, não!", de 2011. Ainda assim, o diretor Lázaro Ramos afirma que o filme foi alvo de uma tentativa de boicote por supostamente criticar o governo Jair Bolsonaro (PL).

"Não foi feito pra isso porque o filme foi escrito muito tempo antes, mas hoje te digo: se eu pudesse, teria feito o filme justamente pra falar contra porque é uma tragédia que a gente está vivendo, uma falta de respeito. Foi uma escolha trágica que o Brasil fez para o seu caminho. Colocar um país, uma coisa tão preciosa como é um país, num ano que tinham 11 ou 13 candidatos, não lembro, as pessoas escolheram isso e a gente está pagando o preço", desabafou Lázaro em entrevista a alguns veículos de imprensa após a coletiva do filme realizada em Salvador, no último dia 30.

A capital baiana foi uma das cidades que recebeu parte do elenco da trama para uma pré-estreia. Além de Lázaro, que inaugura seus trabalhos na direção, estiveram presentes ainda Tia Má, também estreando, mas na atuação, os roteiristas Aldri Anunciação e Elísio Lopes Júnior, e o ator britânico Alfred Enoch, conhecido por seus papéis na saga "Harry Potter" e na série "How to Get Away with Murder".

Elenco de
Elenco de "Medida Provisória" na pré-estreia, em Salvador (Foto: Divulgação)

Enoch dá vida ao protagonista do filme, cuja trama gira em torno de uma Medida Provisória publicada com o intuito de mandar de volta para a África todos os negros do Brasil. Junto às personagens de Taís Araújo e Seu Jorge, o britânico integra o grupo que busca resistir ao decreto.

Censura por meio da burocracia

Tal história, situada num futuro distópico, aborda problemas atuais da sociedade, como o racismo. Mas nem a relevância do texto foi capaz de evitar que o filme fosse alvo do que os realizadores chamam de "censura deslavada".

Durante a coletiva de imprensa, a produtora Cláudia Bejarano, da Loreby Filmes, comentou que há várias brechas nas leis, portanto, todo o trâmite burocrático foi feito com "cuidado" para evitar que o longa sofresse uma "censura lavada". Pois bem. "Ela foi deslavada na verdade, né?!", frisou a produtora.

Ao complementar a declaração da parceira, Lázaro explicou o conflito que culminou em uma espera longa e injustificada para levar a história aos cinemas. "O filme foi feito da maneira mais responsável que se tem que fazer um filme. As questões financeiras, todas, estavam bem e não se tinha porque não liberar o filme. A gente precisava de uma assinatura apenas pra trocar de uma distribuidora por outra distribuidora. Essa assinatura demorou pra acontecer por mais de um ano. (...) Alguém disse essa frase e eu acho que era muito simbólica: 'censura se faz também através da burocracia'", relatou o artista.

A tal assinatura só foi feita em uma sexta-feira, como pontuou Lázaro — “um dia que Brasília trabalha muito” —, por volta das 18 horas. Isso ocorreu após os realizadores revelarem o atraso à imprensa no Festival do Rio, onde o filme foi exibido em dezembro passado.

Procurada pelo Yahoo, a Agência Nacional do Cinema (Ancine) não explicou por qual motivo a liberação demorou tanto. Em nota, a Ancine repetiu a resposta que tem dado à imprensa de que “o pedido de troca de distribuidora do projeto selecionado para investimento é um fato relevante e merece necessariamente a análise pela equipe técnica”. O órgão acrescentou que o filme recebeu investimento total de R$ 2,7 milhões para sua produção, por meio do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA).

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