Laura Dern entoa monólogo feminista e assume posição de poder em novos filmes

FERNANDA EZABELLA

FOLHAPRESS - Laura Dern conquistou seu posto no imaginário das mulheres selvagens ao viver personagens como a tresloucada Lula de "Coração Selvagem" (1990), a perturbada atriz de "Império dos Sonhos" (2006) ou ainda a protagonista maníaco-depressiva da série "Enlightened". 

Nos últimos anos, suas personagens subiram a escada profissional. E, às vezes, ficaram até mais contidas, como a vice-almirante Holdo em "Star Wars: Os Últimos Jedi" (2017). Ou ficaram poderosas e ainda bem destemperadas, como a executiva Renata Klein, de "Big Little Lies".

O ápice do empoderamento vem com sua advogada de divórcios Nora Fanshaw, de "História de um Casamento", no ar na Netflix. Pelo papel, Dern já recebeu indicações de atriz coadjuvante pelo Globo de Ouro e ao SAG Awards.

"Algumas pessoas perguntam por que de repente estou em todos esses papéis de mulheres poderosas, pois só lembram de mim tendo ataques nervosos", diz a atriz.

"É que antes não existiam mulheres assim para interpretar. O quão maravilhoso é isso? Enquanto evoluímos culturalmente, há uma riqueza de mulheres adultas mais interessantes e complicadas em posições de poder."

"História de um Casamento" traz Scarlett Johansson e Adam Driver como um casal à beira de um divórcio. Eles tentam uma separação amigável, até ela procurar uma advogada, Nora.

Na primeira cena, a personagem de Dern inspira cautela, talvez interesseira demais em fisgar a nova cliente, com aquela preocupação exagerada de gente falsa.

A atriz destaca que mulheres especialistas em divórcio são raridade no alto escalão dos escritórios de advocacia.

"É um espaço que tem sido dominado por homens há muito tempo. Então é incrível poder explorar uma mulher navegando isso tudo, acompanhar se ela vira parte do sistema ou se redefine o jogo de maneira honesta e feminina", diz.

Nora surge sempre chiquérrima e de língua afiada, com diálogos que se transformam numa espécie de oráculo das coisas que deram errado no casamento. Um de seus monólogos feministas já virou até meme.

"A ideia de um bom pai só foi inventada uns 30 anos atrás", alerta Nora a Nicole. "A base da nossa crença cristã-judaica-ou-sei-lá-o-que é Maria, a mãe de Jesus, é a virgem que dá à luz. [...] E Deus está no céu. Deus é o pai e Deus nem apareceu. Então você tem que ser perfeita. Charlie pode ser um fodido e não importa."

Um ano e meio antes de terminar o roteiro, o diretor Noah Baumbach organizava encontros com seus amigos para conversar sobre suas histórias de amor, relacionamentos e experiências de infância. Johansson e Driver também participavam, assim como Alan Alda e Ray Liotta, que fazem os advogados de Charlie.

"Noah queria fazer uma história de amor. Eu o vi colecionando as nossas histórias, se encontrando com amigos, advogados, casais, realmente explorando o que queria fazer", disse Dern. "E, depois de meses dessas conversas, ele resolveu que faria uma história de amor pelas lentes do divórcio." 

"Ele se interessou pelo significado de duas pessoas estarem no mesmo caminho, com uma missão, e o que acontece quando as negociatas do divórcio entram em jogo. É uma jornada completamente diferente. Não dá para prever."

Dern participa de outro filme que vem fazendo a ronda das premiações, embora com menos barulho, -"Adoráveis Mulheres", com direção de Greta Gerwig, curiosamente parceira de Baumbach há oito anos.

O longa é uma adaptação do romance "Mulherzinhas", que por sua vez é inspirado na vida da autora do livro, Louisa May Alcott. A trama acompanha quatro jovens irmãs que cresceram juntas enfrentando as dificuldades da sociedade durante o período da Guerra Civil americana. Saoirse Ronan vive a protagonista Jo March, uma aspirante a escritora, e Dern é a matriarca Marmee March. 

Para se prepararem, Gerwig pediu para as duas atrizes lerem as cartas que Alcott trocou com sua mãe, Abigail. "Abigail era uma feminista radical, uma abolicionista, ativista. Todos eram revolucionários", diz Dern. "É um filme sobre ser humano, ser artista, ter ambição e honrar sua identidade." 

A atriz diz que se sente "muito agradecida" pelas oportunidades de personagens tão diferentes e lembrou de seu pai, o também ator Bruce Dern, que passou parte da carreira repetindo vilões de faroeste.

"Meu pai atirou e matou John Wayne pelas costas no filme 'Os Cowboys' e teve anos difíceis pela frente, sempre fazendo os mesmos papéis", afirma Dern, cuja mãe é a atriz Diane Ladd. As duas são as únicas filha e mãe a serem indicadas ao Oscar pelo mesmo filme, "As Noites de Rose", lançado em 1991.

"Lembro da conversa lá em casa sobre a importância de ter coragem e também de ter oportunidades para criar personagens diversos e complicados", diz Dern. "Então, eu sei bem da sorte que tenho."

HISTÓRIA DE UM CASAMENTO

Quando: Disponível na Netflix

Classificação: 14 anos

Elenco: Scarlett Johansson, Adam Driver e Laura Dern

Produção: EUA/Reino Unido, 2019

Direção: Noah Baumbach

ADORÁVEIS MULHERES

Quando: Estreia em 9/1

Elenco: Saoirse Ronan, Emma Watson e Laura Dern

Produção: EUA, 2019

Direção: Greta Gerwig