'The Last of Us' vira série e tenta quebrar maldição das adaptações de games

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "The Walking Dead" saturou os zumbis nas telas de tal forma que quem decidiu se aventurar pelo subgênero depois dos 177 episódios da série precisou abandonar o formato consagrado dos mortos-vivos -lentos, burros e caindo aos pedaços- para chamar a atenção do público, de "Guerra Mundial Z" a "Invasão Zumbi".

Sob a promessa de reviver os monstrengos na televisão, "The Last of Us" estreia agora como a grande aposta da HBO no ano e também se distanciando do morto-vivo clássico, pondo em cena criaturas que foram infectadas por fungos e, por isso, têm visual e comportamento totalmente diferentes.

É justamente mostrando no que a série difere de seus pares que o episódio inaugural começa. São minutos aflitivos de introdução, durante os quais um especialista explica, a um programa de TV dos anos 1960, por que bactérias e vírus, causadores da peste bubônica e da Covid-19, são amadores perto das ameaças vindas do reino fungi.

Por mais que aquilo seja ficção, parece razoável o suficiente para deixar o espectador alarmado, dando o clima de desolação da série até que um corte abrupto transporte a câmera para um presente que, já desconfiamos, está prestes a ser carcomido por uma pandemia.

"Era importante que a série começasse de uma maneira que ninguém esperasse, que deixasse claro que estamos falando de pessoas infectadas, doentes, não simplesmente monstros. De fato houve um surto de zumbis nas telas recentemente, mas esta não é exatamente uma série de zumbi", explicou Craig Mazin, um dos criadores de "The Last of Us", em sua passagem pelo Brasil durante a Comic Con Experience.

Um longo trabalho de pesquisa, ancorado na medicina e na biologia, embasa o modus operandi do tal fungo. Nome por trás da premiada minissérie "Chernobyl", Mazin ainda trouxe para o projeto a ambientação apocalíptica com a qual já havia trabalhado, bem como a vontade de explorar o comportamento humano em situações extremas -e a dor, o medo, a violência e até a compaixão que emanam delas.

Boa parte desse contexto, no entanto, já estava pronto quando bateram à sua porta. Antes de série, "The Last of Us" é uma bem-sucedida e premiada franquia dos videogames, que em suas duas partes conquistou uma legião de fãs, vendeu 37 milhões de cópias e se tornou um dos produtos culturais mais elogiados da última década.

Após a trágica introdução científica do episódio inaugural, a série copia de forma fiel os acontecimentos do comecinho do jogo, quase cena por cena. Somos apresentados a Joe, personagem de Pedro Pascal que cuida da filha adolescente e do irmão arruaceiro.

Do dia para a noite, o som de sirenes policiais invade a cidade em que vivem, enquanto uma porção de humanos começa a morder seus pares aleatoriamente, causando mortes, incêndios e a disseminação de esporos do fungo cordyceps. Ao controlar a mente dos contaminados, o organismo os deixa agressivos e interessados exclusivamente em espalhar a infecção -na vida real, ele realmente existe, mas por enquanto só entre artrópodes e insetos.

Durante uma tentativa de fuga, a filha de Joe é baleada e morre. Anos mais tarde, embrutecido pelo drama pessoal e o apocalipse, ele está com um grupo de sobreviventes num planeta totalmente devastado e aceita a missão de levar uma adolescente chamada Ellie, papel de Bella Ramsey, até um laboratório -as mordidas de infectados não têm efeito nela, um caso inédito.

Neil Druckmann, programador e roteirista envolvido também na franquia "Uncharted", foi quem concebeu o game e seu roteiro, tão apegado aos detalhes e às relações entre personagens jogáveis e não jogáveis que rivaliza com muitos dos blockbusters sendo desenvolvidos hoje em Hollywood.

Ao lado de Mazin, ele assina a criação da série da HBO, e tem como missão não apenas ressuscitar o subgênero dos zumbis, mas também enterrar a ideia de que games não dão boas adaptações.

Historicamente, filmes e séries inspirados em grandes jogos tendem a desapontar. Da matéria-prima simplória de "Mortal Kombat" à complexa de "Assassin's Creed", o fiasco recorrente contribuiu para lançar uma espécie de maldição.

Mas são vários os produtores tentando provar o contrário -é só ligar a Netflix e ver o sucesso de crítica e público feito por "The Witcher", "Arcane" e "Cyberpunk: Mercenários". Parece cada vez mais claro, e "The Last of Us" ajudou a provar isso em suas duas partes jogáveis, que muitos dos bons roteiros circulando hoje no mundo do entretenimento estão nos videogames.

"Esse debate, para mim, já está encerrado. Videogames são arte e sempre foram. Há um público mais velho que não cresceu jogando, mas eles estão morrendo e sendo substituídos por gente que sempre jogou e entende a importância disso", afirma Druckmann ao ser questionado sobre quem ainda resiste em ver o formato como cultura.

"The Last of Us" é um dos títulos recentes que mais contribuíram para romper a barreira de arrogância que impedia que muitos vissem os games como obras autorais, não apenas como produtos. Aos poucos, nomes importantes de Hollywood têm, inclusive, se aproximado da área -de Keanu Reeves, que interpretou um personagem em "Cyberpunk 2077", a Guillermo Del Toro e Léa Seydoux, que fazem uma ponta em "Death Stranding".

Gustavo Santaolalla, compositor argentino que ganhou o Oscar pelas trilhas de "O Segredo de Brokeback Mountain" e "Babel", foi um dos grandes nomes do cinema que decidiu se aventurar nos games, criando, justamente, os temas de "The Last of Us Parte 2", reutilizados agora na série.

Além de Santaolalla e de Mazin, outras figuras consagradas das telas também estão envolvidas na adaptação da HBO, tudo para mostrar que ela existe não porque é pop, mas porque "faz sentido", nas palavras de Druckmann.

Para dirigir os nove episódios, eles colecionam diretores de origens e estilos diferentes, alguns em ascensão no cinema independente. São eles a bósnia Jasmila Zbanic, de "Quo Vadis, Aida?", a americana Liza Johnson, de "Return", o iraniano Ali Abbasi, de "Border" e "Holy Spider", e os mais televisivos Peter Hoar, da série "It's a Sin", e Jeremy Webb, de "Downton Abbey".

A mistura deixou o trabalho de Mazin e Druckmann mais difícil, mas dizem eles que valeu a pena. Cada um trouxe sua visão para a história -Zbanic, por exemplo, já encarou uma guerra em seu país e sabe o que é ver o mundo à sua volta desmoronar- e, claro, aumentou a credibilidade do projeto.

Pascal e Ramsay, que não são gamers e já haviam, ambos, interpretado personagens de "Game of Thrones", apesar de em temporadas diferentes, explicam que seus personagens são muito parecidos, e é por isso que têm um longo caminho até transformarem as desavenças numa relação cheia de afeto, que fez muito marmanjo chorar enquanto jogava "The Last of Us".

"Nesse mundo, a única coisa que você sabe fazer é sobreviver e sobreviver às suas perdas. Não há tempo para pensar em quem você é, a não ser que encontre um espelho. É isso que Joe e Ellie são um para o outro, eles se forçam a entender quem são, o que sentem e o que querem. Sem ela, Joe não é uma pessoa completa", diz Pascal.

Ramsay faz coro e explica que apesar de Ellie se parecer com sua personagem de "Game of Thrones", a destemida criança Lyanna Mormont, elas "expressam suas personalidades de formas bem diferentes, apesar de, claro, serem ambas 'fodonas'". A protagonista, aliás, causou alvoroço no mundo gamer, notoriamente machista, ao se declarar lésbica, o que não vai ficar de fora das telas da HBO.

Mazin e Druckmann já avisaram que a primeira temporada de "The Last of Us" seguirá a primeira parte do jogo, do começo ao fim, e que a segunda fará o mesmo com o game mais recente. Não há interesse, por ora, em extrapolar o material no qual se inspira, como a HBO fez com "Game of Thrones" -um terceiro jogo ainda não foi confirmado.

Apesar disso, a série não é uma releitura fidedigna. Espere ver as histórias de personagens secundários e aquilo que só é mencionado no jogo sendo explorado. Os zumbis, de fato, parecem ser o que menos importa nessa trama, mais interessada na vida do que na morte.

THE LAST OF US

Quando Estreia neste domingo (15), às 22h, na HBO e na HBO Max

Elenco Pedro Pascal, Bella Ramsay e Gabriel Luna

Produção EUA, Canadá, 2023

Criação Neil Druckmann e Craig Mazin