Lanchonete é criticada após chamar lanche de “Maria da Penha”

(Foto: Getty Images)

Por Juliana Gola

Uma hamburgueria no interior de São Paulo foi alvo de comentários violentos e críticas ferrenhas após um dos clientes postar foto do cardápio com sanduíche nomeado “Maria da Penha”. A ideia partiu do dono, no que ele mesmo reconhece como “piada de extremo mau gosto”, se referindo a um dos ingredientes, o repolho roxo, destacado em negrito no cardápio as últimas sílabas “olho roxo”. “Sinceramente, eu pisei na bola. Em momento algum quis fazer apologia à violência contra a mulher, tenho funcionárias na loja, sou casado, não é da minha índole ser agressivo com qualquer pessoa que seja. Usei de um humor totalmente inadequado”, desabafa André Buzzo, de 41 anos, dono do restaurante.

A Kau Hamburgueria fica na cidade de Salto, a cerca de 100 quilômetros da capital paulista, e completou um ano no último dia 11 de novembro. O lanche que gerou polêmica já estava no cardápio esse tempo todo, mas só agora ganhou visibilidade. “Estávamos fechados para uma pequena reforma e reinauguramos no dia 14, uma quarta-feira. No domingo, dia 18, o item foi questionado”, conta André.

Em nota oficial nas redes sociais, a Kau Hamburgueria se retratou: “Entendemos nosso equívoco em relação à escolha do nome e pedimos nossas mais sinceras desculpas pelo ocorrido. Em momento algum desejamos ser desrespeitosos com qualquer mulher, sendo ou não frequentadora do nosso espaço”. E completam: “A Kau Hamburgueria – assim como seus proprietários – não compactua com qualquer tipo de violência, sob qualquer premissa, a qualquer ser humano”.

Cardápio da hamburgueria (Foto: Divulgação)

Em meio à confusão e inúmeros comentários agressivos, o dono do restaurante chegou a alterar o nome do hambúrguer para “Censurado”, para logo depois nomear “Um lanche com repolho”. Hoje, o cardápio já não tem mais o lanche “Maria da Penha”.

Na página da Hamburgueria no Facebook, contabilizamos mais de 2,3 mil comentários no último post, que nem se refere ao cardápio, mas sim ao Black Friday realizado na última sexta-feira. “Vivemos numa democracia e ela nos permite a liberdade de expressão. Todos têm o direito de questionar e debater, mas o que nos assusta é a disseminação de ódio não só ao nosso negócio, mas a mim e a minha esposa, que vem sendo ameaçada desde domingo”, diz André. Entre as mensagens, questões políticas e até o nome de Marielle Franco foram citadas, em sua maioria com palavras de baixo escalão e ofensas sem filtros.

Em agosto, o Ministério dos Direitos Humanos (MDH) divulgou um balanço sobre os atendimentos feitos pela Central de Atendimento à Mulher (Ligue 180). Entre janeiro e julho de 2018, 27 feminicídios, 57 homicídios, 547 tentativas de feminicídios e 118 de homicídios foram registrados. No mesmo período, os relatos de violência passaram dos 79 mil casos, sendo a maior parte deles referentes à violência física, mais de 37 mil. Outros 26 mil estavam ligados à violência psicológica.