Lágrimas de Rodrigo Santoro e documentário sobre repressão policial mexem com o público no Cine PE

Rodrigo Santoro se emociona ao receber o troféu Calunga de Ouro, entregue pela atriz Cássia Kis (Imagem: divulgação Felipe Souto Maior)

A capacidade do cinema de comover, inspirar e instigar realizadores, atores e espectadores é o grande motivador de eventos como o Cine PE. A já histórica noite deste último sábado celebrou tudo isso, tendo como ápice a entrega do troféu Calunga de Ouro a Rodrigo Santoro, que mesmo sendo há alguns anos um dos atores brasileiros mais requisitados no mercado internacional, não conteve as lágrimas durante o discurso de agradecimento.

Aplaudido de pé pelas cerca de mil pessoas que lotavam o imponente Cinema São Luiz, Santoro destacou a importância de filmes como ‘Bicho de Sete Cabeças’, ‘Abril Despedaçado’ e ‘Carandiru’ em sua trajetória profissional. Vale lembrar que durante a première de ‘Bicho de Sete Cabeças’ no Festival de Brasília, em 2000, ele chegou a ser vaiado por parte dos espectadores quando subiu o palco para apresentar a obra que marcava sua estreia em longas-metragens.

Os protestos de dezoito anos atrás eram fruto de preconceito direcionado a alguém considerado até então capaz apenas de fazer papéis de galãs televisivos. Com ‘Bicho de Sete Cabeças’, Santoro foi consagrado com o prêmio de melhor ator no próprio Festival de Brasília e, no ano seguinte, também no Cine PE. Ainda que não tenha feito menção direta ao episódio, é simbólico que, quase duas décadas depois, ele tenha virado referência num campo em que chegaram a colocar em dúvida seu pertencimento.

Mais cedo, em entrevista coletiva, Rodrigo Santoro falou também sobre sua experiência na indústria cinematográfica norte-americana, algo que não vê como um plano de carreira, mas sim como consequência de querer entrar em contato com diretores e roteiros de diferentes locais do mundo. “Olho isso como uma grande aventura. Sigo contando histórias e tentando entender o ser humano: por quê a gente chora, por quê a gente ri”, definiu. “O artista é, antes de tudo, um estudante do comportamento humano”.

Mostra competitiva de longas-metragens

Outros destaques da noite no Cine São Luiz foram os dois longas, ambos considerados fortes favoritos ao prêmio de melhor da edição. O documentário ‘Marcha Cega’, de Gabriel Di Giacomo, faz um apanhado da repressão policial presente em manifestações da cidade de São Paulo desde 2013.

Repleto de imagens fortes dos atos colocadas em contraste com trechos da cartilha com as normas de atuação da PM que mostram como a instituição passa por cima das próprias regras, o filme levanta a bandeira da desmilitarização da polícia – debate que ganha força em certos setores da sociedade, mas, apesar de urgente, parece longe de ser levado a sério pelo Estado.

Já o drama goiano ‘Dias Vazios’, dirigido e escrito por Robney Bruno de Almeida, apresenta uma história adolescente carregada de melancolia e certo existencialismo. O longa usa algumas referências da cultura pop (histórias em quadrinhos do Superman e pôsteres do Nirvana) aliado a um senso de questionamentos filosóficos sobre amor, Deus e perspectivas da vida adulta para cruzar as histórias de dois casais que vivem com suas angústias numa pequena cidade.

O filme dirigido por Robney, adaptado do livro ‘Hoje Está um Dia Morto’, de André de Leones, é também um interessante estudo sobre o processo criativo, à medida que tem como protagonista um aspirante a escritor que utiliza acontecimentos de seu cotidiano para construir uma trama sobre outros personagens, numa válvula de escape para a rotina que considera maçante.

Curtas-metragens

Continuando a mostra competitiva de curtas-metragens nacionais, foram exibidos a animação carioca ‘Plantae’, de Guilherme Gehr, mensagem poética sobre a preservação ambiental; o drama ‘Através de Ti’, do gaúcho Diego Tafarel, sobre um triângulo amoroso; além de ‘Vidas Cinzas’, de Leonardo Martinelli, ótimo falso documentário que imagina um Rio de Janeiro sem cores devido a uma nova lei municipal e conta com depoimentos de figuras públicas como Marcelo Freixo, Wagner Moura, Flavio Bolsonaro e Marielle Franco – cuja aparição na tela de cinema arrancou aplausos do público.

Na mostra competitiva de curtas-metragens pernambucanos, o diretor Benedito Serafim apresentou ‘Cara de Rato’, filme em clima de drama colegial que mostra os efeitos do bullying.